Terça-feira, Setembro 23, 2003

ADUFE.PT

Amigos:

Salvo motivo de força maior (cataclismo no weblog.com.pt) este blog que agora vêem vai deixar de ser actualizado.
Mudei de casa (ainda faltam umas bugigangas). Fica aqui contudo o álbum de fotografias, cartas e emoções. O meu primeiro blog... minto, segundo. O primeiro é esse outro meio secreto que se chama Portal - País Abreviado.
Em suma, não fechei para obras, estou simplesmente numa casa que espero mais airosa. Ainda há-de levar umas quantas demãos de tinta, umas afinações. Mas se o construtor fôr de confiança, como este do blogger não é, espero por lá ficar à vossa espera. E o lá é este: http://adufe.weblog.com.pt.
Até já.
Bem hajam.

P.S.: durante mais uns dias vou fazer actualizações fictícias neste endereço para chamar leitores irregulares a este post e avisá-los assim da mudança.
P.P.S.: Ainda um agradecimento especial ao Psicótico: o Adufe.pt já surge na listagem dos Fresco. Já reparam em como estão bonitos os frescos?
Reflexo de Adufe.pt
Sociedade Ponto Verde / Reciclagem

Tenho em carteira dois contributos sobre o tema do título. É umatema a que recorrentemente tenho dado destaque no Adufe. Assim que puder fazer uma resenha da discussão passada (e espaçada) apresentarei essas contribuições que recebi por mail. Parece-me que a nova casa me trouxe também novas visitas, leitores diferentes, pelo que para retomar o tema prefiro repetir um pouco a história. Em breve...
Reflexo de Adufe.pt
Terras do Nunca (act.)

Já me ri a valer com uma entrada do Terras do Nunca onde se diz que "O Adufe inventou a estereofonia na blogosfera.". Diz que vai aguardar pelo relato da minha experiência de migração para o domínio .pt via weblog. Mas parece que independentemente do relato que eu venha a fazer o BLOGGER fez das suas vitimando o Terras do Nunca. A última vez que lá foi a interpretação de caracteres finou-se e li por lá o que se segue nas condições que reproduzo:
"Adufe estéreo
O Adufe inventou a estereofonia na blogosfera. Ouve-se aqui e aqui.
Há umas semanas que andava a pensar no mesmo, maioritariamente por questões estéticas - os blogues da Weblog são bem mais bonitos.
Agora, preguiçosamente, vou esperar que o Adufe conte. Como foi? É muito difícil? Há vantagens técnicas?
Piada lateral só para irritar os do costume: e se, num gesto de anti-americanismo primário, abandonássemos todos (enfim, os do costume, topam?) o Blogger?
Segunda piada para irritar os mesmos: 28 anos depois, regressam as nacionalizações. Abaixo o capitalismo internacional, o imperalismo, o Blogspot e quem o apoiar."


Weblog.com.pt é agora ou nunca!
P.S.: Já está tudo bem em terras de Peter Pan. Obrigado pela referência :)
Reflexo de Adufe.pt
Faço minhas as suas palavras III

O Padre António Vieira disse uma vez que a Inquisição era uma fábrica de judeus. Hoje, se lhe quisermos seguir o exemplo e fazer algo de decente por nós e pelo próximo, a primeira coisa que temos de compreender é que o SEF, tal como está, é uma fábrica de ilegais. in Barnabé
Reflexo de Adufe.pt
Os Tops

Reparei agora que ante-ontem (dia 21) este Adufe.pt foi o 15º blog mais visitados entre os que estão alojados no weblog.com.pt. De falta de ouvintes que vêm à prova não me posso queixar. Espero que voltem daqui a mais uns dias quando tiver a casa arrumadinha e poder oferecer um cházinho com torradas em condições. :)))
Bem hajam.

Segunda-feira, Setembro 22, 2003

Espelho de Adufe.pt
Andava eu aqui nas limpezas...

...link para aqui, link para ali, a montar "prateleiras" quando me lembrei: já há 15 dias que não há notícias do mestre de Aviz. E não há maneira de se vislumbrar um nevoeirozinho sequer :)
Espelho de Adufe.pt
Blogo, ergo...

Como informa o Leonel, na América (EUA) já houve quem se chegasse à frente apresentando-se em campanha eleitoral na blogo-esfera.
Então e por cá? JPP à parte, quem acham que vai ser o primeiro político a atrever-se a expôr diariamente - ou quase - o seu pensamento "em blogue"?
Sujeitar-se-á ao contraditório? Provavelmente será da oposição esse novo navegante, mas quem? E de que forma? É só uma questão de tempo...
Espelho de Adufe.pt
Mais um...
...agradecimento ao Ter Voz por ter actualizado prontamente o link.

Domingo, Setembro 21, 2003

Espelho de Adufe.pt
A Espuma dos Dias

Estou em vias de vir aqui descarregar mais um camião com post que editei no Blogger de 2 de Julho até hoje. Deixo aqui só uma palavra de gratidão aos que estão a oferecer o seu apoio e conhecimentos para facilitar ou acelerar esta mudança (espreitem as caixas de comentários dos últimos post) e também à Sarah da Espuma dos Dias que, se não me engano, foi a primeira a dar outro tipo de apoio, precioso, que é de começar a passar a palavra com um link no seu blog para este novo endereço.
Obrigado. E agora maos à obra!
Amigos...

Estou cada vez mais farto do Blogger.
Nos próximos tempos poderão aceder ao ADUFE neste endereço e também neste ADUFE.PT. Se se provar, como me têm dito, que o editor é mais estável, assim como todo o serviço, é provável que venha a abandonar o Blogger. Mas esse diagnóstico será feito mais adiante. De qualquer forma para quem quiser tomar nota já aqui deixei o novo endereço - a página no weblog está ainda em construção.

Sábado, Setembro 20, 2003

New kid on the block



Promete este Mundo de Cláudia.
"The power of accurate observation is commonly called cynicism by those who have not got it. - George Bernard Shaw"

Aos poucos, amigos de fora aparecem nesta outra esfera. Ainda bem ;)
Editei um post sobre a Íntima Fracção aqui.
No ar!

I


“...finalmente música na antena, vejam se se lembram destas...
«Is this the real life, / is this just fantasy / Caught in a land-slide / No escapes from reality.»” * O som foi sem dúvida o que primeiro me atraiu para a rádio. Podia ter sido a cor do aparelho que estava lá no alto, no cimo da mesa da cozinha, podiam ter sido os inúmeros botões e manipulos que mal adivinhava, mas não, no início foi apenas o som. Era totalmente diferente dos que conhecia. Entretanto, vieram os livros de B.D., a escola, a brincadeira e a correria, os deliciosos anúncios na televisão e os desenhos animados... Durante algum tempo, a rádio permaneceu, apenas, vagamente presente. Fui crescendo e os botões do aparelho de rádio começaram a ser mais atraentes. Girar a rodinha de sintonização era extremamente divertido; adorava engasgar as vozes que ouvia e deturpar a música que tocavam com o ruído do espaço vazio da FM.

II

«I can’t seem to face up to the facts / I’m tense and nervous and I can’t relax / I can’t sleep ‘couse my bed’s on fire / don’t touch me I’m a real life wire!» *
Com o tempo, fui tendo cada vez mais liberdade para escolher e ditar qual a rádio a ouvir. Existindo apenas um rádio com FM em casa, tive que vencer as naturais resistências dos meus pais que, com as suas preferências já definidas, não viam qualquer sentido em errar pelas ondas. Ainda assim, consegui descobrir diferentes sons musicais, comecei a descobrir toda a informação que se fazia e, fundamentalmente, descobri maneiras totalmente diferentes de fazer rádio. Infelizmente, também não demorei muito tempo a descobrir que eram apenas quatro ou cinco as emissões nacionais. Então, comecei a reexplorar todos os botões do rádio e a conhecer novos “mares”. Acreditam que o que mais ouvi nessas frequências desconhecidas foi a conversa de pescadores portugueses e espanhois?! Nada de BBC, nem de Deutsch Wella, nem de Radio Luxembourg como prometiam as letras coloridas do mapa de sintonias, apenas um linguajar estranhíssimo entre comandantes de traineiras e emissões em código dignas dos ritmos “Dance Music”.

III

«Lembras-me uma marcha de Lisboa / num desfile singular / quem disse que há hora
e momento para se (...)»*

...Informar. No final da década de oitenta surgiram as “rádios piratas” e entre elas aquela que incontestavelmente deixaria a primeira grande marca de mudança no panorama rádiofónico nacional. Falo de uma emissora sediada em Lisboa que, como tantas outras, atravessou tormentas e tempestades e enfrentou batalhas quase ignoradas tendo conseguido, como poucas, chegar até hoje, com a essência do que lhe deu fascínio, ainda intacta : a TSF Rádio Jornal.
Os Dias da Rádio haviam regressado a Portugal, não só devido ao grande abanão dado pela TSF-RJ, nem à sã maluqueira dos brasileiros da Rádio Cidade, mas, fundamentalmente, devido às centenas de emissoras que surgiram como cogumelos um pouco por todo o país. Aliando a este factor o fenómeno paralelo da redescoberta da rádio pelo próprio ouvinte, esta viu relançado o seu papel na sociedade portuguesa, recuperando um lugar que fora perdendo, progressivamente, desde o aparecimento da televisão. Para o ouvinte, era espantoso ver aparecer um novo “pirata”, quase todos os dias, com as ideias mais incríveis, mostrando um enorme gozo no que estava a fazer.
Os meses foram passando e os atropelos de frequências sucederam-se mas, ainda antes do grande silêncio do natal de 88 - altura em que as emissões “piratas” foram proibidas- houve tempo para se ir compreendendo até que ponto pululavam trabalhos interessante, diferentes e desde logo notados como indispensáveis à rádio portuguesa.

IV

“...and if I die before I wake pray the lord my soul to take.” *
Certo dia de manhã, estava um rapazinho ainda deitado, gozando as férias e o finzinho dos seus 12 anos, quando ligou o recém adquirido radio a pilhas e viu mais do que a luz vermelha do aparelho, “viu” Lisboa a arder. Pulou da cama e correu para a cozinha ligando o, já velho, transistor “tamanho família”. E foi então que aconteceu uma coisa fantástica, pelo menos para uma criança de doze anos. Não haviam passado cinco minutos de empolgante e aterrador directo feito da zona do Chiado e o rádio começara literalmente a arder, sempre sem se calar. Imaginem o que passou pela cabeça deste inocente ouvinte! Só consta que tenha dito: “Fixe!”.

“If it be your will that I speak no more, and my voice be still as it was before; I will speak no more, I shall abide until I am spoken for, if it be your will.” *
A “pirataria” acabou e quando a lei foi escandalosamente reposta - quem estava atento então sabe ao que me refiro - os novos dias da rádio em Portugal estavam institucionalizados. Não mais deixei de ouvir a surpreendente TSF - que nem só de sínteses noticiosas se faz esta rádio, não senhor -, mas também nunca abandonei a minha alma de navegador errante. Actualmente colecciono pérolas na lutadora XFM [texto de 1995] e em qualquer outra emissora que me prenda nos breves segundos em que lhe faça abordagem no percurso dos 87.5 aos 108 Mhz.

V

“ I’d sit along and watch your light / my only friend through teenage night / and everything I had to know / I heard it all in my radio.” * Aí por volta dos 16 anos passei a fazer algo que conscientemente sempre recusara fazer: conhecer o mundo da música. Sempre ouvira música e ia já muito longe o primeiro arrepio na espinha que ela me provocara, posso até dizer que era mesmo um amante de música, mas totalmente desinteressado, mesmo da mais corriqueira intriga acerca desta ou daquela estrela pop. O que eu sei é que, desde então, tenho tido um gozo danado em redescobrir - porque muitas das vezes é disso que se trata - os grupos, cantores e músicos que encheram o ”eter” nos últimos vinte anos. Não raras vezes, tenho tido a surpresa espantosa de descobrir que, ainda que inconscientemente, tinha grupos e interpretes favoritos.
Mas nem só o aparelho auditivo “explodiu” com 16 anos, também a cabecinha começou a girar mais depressa. Interrogar, reflectir e explorar a informação que ia ouvindo pela rádio tornou-se um passatempo estimulante. Bem mais estimulante do que ler um livro, pensava eu - hoje evito a comparação.
A comparação que faço é entre a rádio de hoje e a que ouvia à 7, 8 anos. Na minha opinião, apesar dos muitos projectos já abortados, o balanço final, ou seja, o que é feito pelo ouvinte, só pode ser positivo. Neste momento, temos excelentes rádios generalistas, temos excelentes rádios especializadas, no fim de contas, temos emissões para todos os gostos. [1995] E digo isto, porque de entre os três grandes meios de comunicação social que me ocorrem - televisão, rádio e imprensa - este é, sem dúvida, o que, no seu processo de desenvolvimento, melhor preencheu todo o conjunto de eventuais «nichos de mercado» ao seu dispor. Em suma, foi o que melhor os detectou e foi o que demostrou melhor capacidade em os completar. Há, no entanto, uma grande nuvem negra que ameaça este cenário. Paradoxalmente, a indústria radiofónica esqueceu-se, até muito tarde, de algo que não escapou à preocupação dos outros dois meios de comunicação: a publicidade. Houve graves erros de gestão comercial em inúmeras rádios e, principalmente ao nível da publicidade radiofónica, chegou-se até a acreditar num esgotamento criativo que não estimulou nada o investimento dos anunciantes. Nesta altura e falando apenas como simples ouvinte, começo a ficar surpreendido com o humor e originalidade de alguns anúncios que surgem [1995]. Talvez o humor de qualidade não esteja longe de nós e uma escola de publicidade humorística radiofónica surja em Portugal - facto, em si, nada inédito na história da rádio mundial.

VI

No meu papel que é o de receptor, ouço rádio com um espírito profundamente crítico, tentando não perder de vista a capacidade de ser arrebatado pelo que recebo. E nesses momentos especiais lembro-me da magia particular de uma visão ingénua da rádio:

No ar!
Imagino um barco que navega suspenso sobre as ondas,
sempre no ar, sem as tocar...
Imagino-o a passar pela minha praia, cheio de gente!
Ainda não tenho histórias para contar...
Que se esconde por detrás daquelas vozes? Como é aquele olhar?

A rádio continua a gerar paixões e, se não acreditam, resigno-me a espicaçar o comum ouvinte que me lê a que descubra as pérolas no mar da rádio, porque as há, ainda que por vezes no mais insuspeito dos atóis. Descubram, inquietem-se, sobressaltem-se. Nunca somos demais.

* As frases em itálico são excertos de poemas de (por ordem de aparição):
Queen, “Bohemian Rapsody”; Talking Heads, “Psico Killer”; Trovante, “Memórias de um beijo” ; Leonard Cohen, “If it be your will”; Metallica, “Enter Sandman” - excerto da Oração da Noite praticada pela generalidade dos cristãos; Queen, “Radio GAGA”

Linha de Sintra, ao som da rádio, 11 de Setembro de 1995 (proto-blogue portanto)
*************************

Uma memória.
E depois surgiram os blogues...
Na altura em que escrevi este texto ouvia diariamente a Íntima Fracção, hoje recuperei essa paixão. Afastei-me sabendo sempre que no meio da noite estava lá um cantinho acolhedor, pleno de capacidade para provocar deslumbramento, apenas pelo som. Um cantinho de grandes janelas onde entrava, nesse entretanto, quase sempre de surpresa, quase sempre com comoção. Imaginando por vezes o além da voz, imaginando quem partilhava esta intimidade nos seus outros cantos...

Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para ouvir. A Cristina Fernandes e o Mário Filipe tomaram a iniciativa de tentar coleccionar ideias para a continuidade da Íntima Fracção. No meio da noite não é o silêncio... é o barulho do coração
A blogoesfera portuguesa acabou

"(...) É o caso do blog Muito Mentiroso. O autor desta página aproveita a total liberdade de expressão oferecida pela net para «libertar» «informações» (?) polémicas sobre o processo Casa Pia (...)"

A jornalista Patrícia Maia (TSF), duvida, não mais do que isso, que o que surge no MM seja notícia. Oferece-nos um ponto de interrogação adiante de umas «informações» entre aspas. A Patrícia é jornalista: o que vem no MM só é notícia se a Patrícia o confirmar. É notícia Patrícia Maia? Se não é, ou não sabe, o que é isto que oferece ao público? Para que é serve ser-se jornalista?
Por cada vez que se toca a campainha morre um mandarim na China. Mas será que morre mesmo? Deixa-me cá tocar...

O que interessa mesmo é o MM.
Vejo o MM no emprego, vem por mail ou em papel. Curiosamente toda a gente lê, do miúdo ao graúdo. Vejo o MM no autocarro, várias vezes ao dia. Até já vi o MM na valeta, abandonado por um qualquer.

Leiam todos o MM. Uma vez. Só uma vez. E depois parem um bocadinho e pensem bem. Pensem muito bem porque é que querem voltar lá, ou porque é que não querem voltar lá. Pensem bem no que é que leram. Imaginem-se não só leitores. Imaginem-se notícia. E depois, que tal escreverem sobre o que pensaram? O MM é bom? É mau? Porquê? Podem até pôr as palavras num blogue. No final discutam as ideias dos outros, sobre o MM. Se o fizerem têm boas probabilidades de ficar vacinados. É só um conselho que vos empresto.
Estivemos a ver...

...o "8 Mulheres". Um filme que fugiu de mim, ou eu dele, quando esteve em cena. Um delírio. Como são belas as mulheres.
Gostava de ver a peça... Por cá (outra vez?). Ora deixa-me cá pensar num elenco...

Sexta-feira, Setembro 19, 2003

Quantos livros lê por ano?

Dois terços das pessoas que responderam (num total de 69) lêem mais de 5 e menos de 40 livros por ano.
Ontem tinha uma ideia brilhante para uma pesquisa mas... varreu-se-me.
Anda por aí tanta nostalgia da meninice...


Lembram-se? Te Acuerdas?
Faço minhas as suas palavras II

3 dias: Uma procuradora sueca pediu o prolongamento da prisão preventiva do suspeito de ter assassinado a Ministra dos Negócios Estrangeiros Anna Lindh. O suspeito está preso há três dias, esgotando-se hoje o prazo máximo da prisão preventiva permitida na Suécia. Por aguardarem os resultados dos testes de ADN do suspeito, as autoridades suecas solicitaram o prolongamento especial da prisão preventiva que, em todo o caso, não poderá ultrapassar as duas semanas. Repito: são três dias, no máximo duas semanas. MVS

in País Relativo
Actualizando links...
Sending shivers down by spine...

Sem nada mais que a espuma dos dias...
Carlos Vaz Marques publicou o seguinte no Outro, Eu:
MM A SIC, no Jornal da Noite, acaba de dar destaque à existência do blogue de denúncias anónimas sobre o processo Casa Pia. Pedimos desculpa por esta interrupção, o jornalismo segue dentro de momentos.

Eu acrescento: E se nas notícias da SIC o calibre das fontes for o mesmo?...
Esta dúvida parece-me agora mais razoável.
Fly on a Windshield.

There's something solid forming in the air,
And the wall of death is lowered in Times Square.
No-one seems to care,
They carry on as if nothing was there.
The wind is blowing harder now,
Blowing dust into my eyes.
The dust settles on my skin,
Making a crust I cannot move in
And I'm hovering like a fly, waiting for the windshield on the freeway.


"The Lamb Lies Down on Broadway Lyrics", Genesis, 1975
May the force be with you.
Fantasias, quais fantasias?

Quinta-feira, Setembro 18, 2003

Outono / Inverno 94
No Jardim do Campo Pequeno




Que tarde mais chocha, esta!
Nem chuva, nem sol; não está calor, nem frio; só cinzentos ou acastanhados.
Apenas um ventinho maroto vai desguedelhando e empurrando às rajadas os que passam pelo jardim.
Visto aqui dum banco bem no meio, o jardim parece uma ténue ilhazinha que termina a poucos metros, na primeira barragem de automóveis estacionados que o cercam. De facto, é difícil imaginar um jardim, mesmo daqui. Ainda assim, num intervalo entre dois aviões, as copas dos jacarandás e das restantes árvores lá nos vão dando a ilusão desejada de infinitude que hoje se resume ao espesso cinzento, facilmente depressivo.


Mato o tempo com bocejos sucessivos; olho para todos os lados menos para o livro que me ocupa as mãos. Ainda tenho mais quarenta minutos de espera pela frente. Tomo consciência do livro e agarro-me a ele com ganas de o devorar procurando uma fuga absorvente: ora onde é que eu deixei o Gineto...

- Dá-me licença? - Com uma sonora e inesperada interpelação sou retirado bruscamente do torpor a que me começava a entregar. Trata-se dum indivíduo de estatura média, magro, cabelo fraco, de rosto bem vincado por alguns pontos de tensão frequentes; para aí na casa dos quarenta. Ora essa! respondo, enquanto ajeito os cadernos com que ocupava a metade esquerda do banco. O indivíduo senta-se, cruza as pernas, acende um cigarro e assim fica algum tempo, olhando a avenida do outro lado, tendo sempre o cuidado de desviar o escape para bem longe de mim. Olho-o de soslaio e parece-me muito triste. Não vislumbrando sequência para a impetuosidade da interpelação, regresso ao meu livro, mas...
- Olhe para aquilo! Um gato pingado com uma ventoinha de arame a cortar a relva! E mais! Olhe para o que alí vem, duas marafonas, duas baleias! Como é que põem gente desta a tratar dos nossos jardins! E olhe que não é por serem de cor, pois os meus melhores amigos são pretos, mas trazerem imigrantes que nem o português sabem falar e que levam quase três horas a limpar este dedal! Sinceramente! Ah! Quando eu me lembro do antigamente! Os jardineiros, fique sabendo, eram às centenas. E os jardins... Eram autênticas obras de arte! Desde a Praça do Império ao Campo Grande. Não é preciso ir mais longe, este jardinzinho aqui, era um brinco! Mas desculpe estar assim a aborrece-lo, é que uma pessoa tem que desabafar, senão... ainda faz alguma asneira! Desculpe. É estudante, não é? Queira desculpar o desabafo.

Ainda meio apalermado com a nova tirada, repito-me com mais um “ora essa” acompanhado por um sorriso de cortesia. Insisto na leitura mas a irrequietude que ia ali à minha esquerda não agourava um futuro recatado. Fecho o livro e espero a nova intervenção, disposto a alinhar. Agora que bem penso, sempre quis saber o que dizem dois estranho que se encontram assim num banco de jardim.

- Desculpe lá chateá-lo outra vez ...
- Qual chatice! Para ser sincero, estava aqui a desperdiçar páginas do livro... Diga lá.
- O senhor é jovem e certamente já ouviu falar como isto era antes do 25 de Abril, não é verdade? Pois bem, não quero que pense que eu gostava do Salazar e da ditadura, mas há coisas que não há meio de voltarem a ser, pelo menos, tão boas como dantes! Olhe a segurança, por exemplo! Quase toda a gente tem medo de sair à noite. Eu, por exemplo, nunca saio à noite sem a minha Mauzer. Ainda o ano passado, numa noite, por volta das dez, dois putos tentaram assaltar-me aqui mesmo no jardim. Olhe, foi ali naquele banco. Um fica de atalaia por estas bandas e o outro aproxima-se e pede-me um cigarro. Mostro-lhe a pistola e pergunto-lhe se não quer fumar um bocadinho do meu «charuto». Não é que se põe a correr aos berros pela avenida a baixo? O outro apanhou tal cagaço com a cena que se estatelou no chão quando fugia ali para ao pé da praça de touros. Ha! Ha!... Mas já viu se eu não estivesse armado?
- Desculpe lá interrompê-lo, mas se todos usássemos armas era capaz de ser um bocado mais perigoso...
- Bem, bem, mas eu andei na tropa e tenho licença... Gosta de filmes do Charles Bronson? Aquele que faz quase sempre se mau? Conhece? Pois é, já reparou como só acerta nos que é preciso? Nunca falha! Se houvessem dois ou três como ele... Um ali no Parque Eduardo Sétimo, outro na Avenida da Liberdade... Era uma limpeza. Bem sei que é um exagero, mas pelo menos a polícia a cavalo, caramba! Dantes era um respeitinho.
- Nem as moscas voavam sem autorização, segundo creio...
- De facto, era uma ditadura e pronto! E também eram tempos difíceis... Não desvalorizo os problemas de hoje, logo os dos jovens, a incerteza, o desemprego... Mas olhe que eu também passei um mau bocado. Nasci ali em Alfama, conhece? Não tive brinquedos, nem a quarta classe acabei... Bem vê, éramos quatro irmãos, a minha mãe sempre a conheci prenhe e meu pai sempre grosso, uma besta, o desgraçado! Era um bufo, passava a vida em cafés e bares a tentar apanhar... enfim, descontentes com o regime. Trabalhava para o Nove Dedos e outros como ele, fazia todo o tipo de imundices. Que disparate! O senhor não deve estar a perceber nada, não é? O Nove Dedos era um pide, aliás, era o Pide mais conhecido da ci-da-de. O terror em pessoa. Acredita que o tipo engraçou comigo?! Andava sempre a perguntar-me como ia a escola. Até me dava uns trocados sem que eu lhe pedisse! Vá se lá saber porquê. O meu pai é que não me ligava nenhuma. Com ele era matemático: chapa ganha, chapa gasta. Putas e vinho verde, como se costuma dizer. Já viu, quatro crianças, a mãe grávida: uma miséria. Um dia chegou completamente louco a casa e começou a arrear na minha mãe, mesmo assim, naquele estado! Fui aos arames, devia ter onze anos, mas já tinha a escola toda, atirei-me a ele e parti-lhe a cara! É verdade. Depois pirei-me o mais depressa que pude. Só voltei a pôr os pés em casa outra vez no dia seguinte. Apanhei-o fora e fui buscar roupa, desde então nunca mais. Cá me safei, vim viver para casa da minha prima Alzira que era porteira dum prédio aqui na avenida, arranjei trabalho a servir numa tasca em Santa Apolónia e fui-me desenrascando. Um dia a besta do meu pai apareceu por lá... O senhor acredita que ele nem me reconheceu? Pode crer! Imagine como ele ia! Foi a última vez que o vi. Dias depois, soube que lhe deram um tiro ali para a Rua dos Remédios. Deus me perdoe, mas foi um bem que veio ao mundo. Um mês mais tarde, chegou a vez da minha mãe. Morreu do parto do meu quinto irmão. Valeu-nos a prima Alzira, outra vez, que Deus a tenha. À excepção da minha irmã mais velha que se amigou de um marujo e foi viver para a terra dele, levando o nosso irmão mais novo, veio tudo recambiado aqui para a Avenida de República. Mas já o estou a maçar, não é?
- Não ligue. Isto é só sono, é que já estou a pé desde as seis. Continue, por favor.
- Pois também eu, desde que trabalho aqui no BISCA, vai para vinte anos. Comecei como segurança no Banco, fui concorrendo e hoje sou assistente do director. Outros tempos, quanto a isto pode estar certo que já foi chão que deu uvas: sem o décimo segundo ano, pelo menos, não chega a lado nenhum e mesmo assim... Continue a estudar que faz muito bem. Isto é um mundo de cão. Olhe, estive casado dez anos e não tive filhos por causa destas guerras e deste mundo de cão. É preciso ser muito... É a minha opinião: não tenho coragem de pôr um filho neste mundo! Para quê? Gente a mais já nós temos. Veja só aquela marafona, tanto arrastou o sacos das folhas secas que o rasgou! Lindo chiqueiro! Ai Sampaio, Sampaio! Mas onde é que eu ia...
- A sua mãe tinha falecido e...
- Já me lembro. Estivemos com a prima Alzira nove anos até que ela morreu no metro. Foi do coração. Assaltaram-na e ela morreu com o susto. Mas o gatuno também teve a sua conta! Alguém o atirou para a linha e não morreu passado a ferro porque assou antes do tempo
- breve pausa. Hoje vivo com a minha irmã mais nova aqui na João XXI. Sabe, no entretanto ainda passámos mal, foi até eu ter arranjado emprego aqui no BISCA. Estivemos alguns anos a viver numa espelunca no Poço do Negros. Olhe, foi aí que fiz os meus amigos cabo-verdianos. Um amor de gente. Mas pronto, cá estamos. Felizmente hoje não tenho razões de queixa da vida. O que me enerva é o que vejo à nossa volta, esta falsidade, a malandragem... Ah! Vale tudo menos tirar olhos e, mesmo assim, qualquer dia até isso!
- Tirar olhos?!
- Sim senhor! Talvez para transplantar!
- risos. Esses canalhas mereciam era todos um balázio nos cornos. Mesmo que os apanhem, ao fim de dois ou três anos andam aí pelos jardins a fazer-nos companhia. Sabe, eu nunca fui de direita, mas esse tipo, o Monteiro, diz uma boas verdades. Diz, sim senhor. A única coisa que me vai valendo para animar é o Ceportengue. Eu cheguei a jogar futebol lá numa filial do Ceporteungue, em Alfama, e não era mau de todo, mas já pode imaginar, com esta vida... O meu divertimento quando não tinha dinheiro para ir ao estádio era escrever o relato nuns papelinhos. Ouvia o rádio e depois escrevia à minha maneira. O Ti João da mercearia dava-me lápis, eu arranjava o papel, escrevia e depois relatava o jogo para ele e para a malta lá da rua. De inverno, quando não podíamos jogar, eu era o rei. Juntavam-se no átrio da igreja para ouvirem o meu relato. Como se diz...? Enternecedor! Era enternecedor. Acabávamos quase sempre à porrada porque arranjava maneira de o Ceportengue ganhar todas! - risos. Mas era na reinação, até o senhor prior se divertia connosco.
- Pois eu também sou do Ceportengue.
- Grande clube, não haja dúvidas. Como é o Benfica e o Porto e outros, mas o Ceportengue é o Ceportengue, não é verdade? Aquele verde...
- A esperança! Viva o Ceportengue! Bom está na minha hora, senhor...
- João Tuna, João Tuna Oliveira, mas tome lá um cartão. Andei a gastar dinheiro com isto, tenho que os pôr a uso!
- Muito obrigado. Olhe não tenho para a troca... O meu nome é Rui Manuel, Rui Manuel Cerejeira. Foi um prazer.
- Muito obrigado eu ! Mais uma vez, desculpe a maçada.
- Ora essa! Então boa tarde.
- Felicidades!


Afasto-me do Jardim e rumo para a minha aula de condução, naturalmente com o senhor João Tuna em mente. Olho para o cartão e reparo que o verso está quase completamente negro. Assim que o primeiro raio encandeador de sol deste dia se esgotou, pude perceber que tinha nas mãos um relato de um jogo do Ceportengue, escrito numa caligrafia minúscula, quase ilegível. Mas dava para entender que acabava bem: era o Ceportengue que ganhava ao Porto com um golo no último minuto.
Enquanto esperava que abrissem a porta do prédio da escola de condução ainda vislumbrei a figura esguia de João Tuna a atravessar a João XXI, calmamente, de mãos nos bolsos, imensamente triste.

******************
(Prot-blogue escrito há 9 anos - resisti em fazer-lhe afinações, perdoem-me. Esta Lisboa que eu amo...)
Conto

Logo à noite, completamente gratuito, ofereço-vos um conto.

Se não gostarem devolvo-vos o dinheiro ;)
Para ajudar a responder à última pergunta adufada:
Pablo Honey (Radio Head) - Alinhamento das músicas do álbum:

1. You
2. Creep
3. How do you?
4. Stop Whispering
5. Thinking About You
6. Anyone Can Play Guitar
7. No Ripcord
8. Vegetable
9. Prove Yourself
10. I Can't
11. Lurgee
12. Blow Out
Adufando perguntas III

Será que foi por causa do Pablo Doors que os Radiohead escreveram o "Pablo honey"?

de Nelson (numa caixa de comentários ali do fundo).

Recomenda-se que leiam o Post "O Circo" - mais abaixo - para melhor perceberem esta angústiada pergunta do Nelson.
Faço minhas as suas palavras I

(...)
Para que a cultura que se interiorizou na sociedade portuguesa – expressa na admiração que o justo nutre pelo pecador – não continue a encontrar conforto nas boas ou más intenções de um governo, é preciso que quem tem o poder e a responsabilidade de decisão faça uma escolha. Que opte entre a convicção de Marques Mendes e a reserva de José Luís Arnaut ao levantamento do sigilo bancário.

Ambos ministros de Durão Barroso, a quem se deve exigir uma resposta. Clara e inequívoca.


de Raul Vaz in Diário Económico

Quarta-feira, Setembro 17, 2003

Adufando perguntas III

(...)
Esperemos para ver o que dá até 2010, diz o Dr. Barroso. Até lá, mais conversa sobre "produtividade" e "competitividade". E um "barómetro" para medir os putativos sucessos. A receita não medra, os nossos empresários também não crescem de " geração expontânea", a longa manus do Estado é o que se vê, e as famílias, que adoram gastar, vão começar a não achar graça nenhuma ao resultado. Mas também aqui não há qualquer problema. Na realidade, ninguém sabe onde é que isto vai parar. Nem julgo que verdadeiramente alguém se importe. Para quê?

in Portugal dos Pequeninos
Imaginem que sou um apresentador de circo no meio da arena anunciando as atracções. Agora leiam.

O Circo

"Meninos e meninas. Senhores e senhoras...
O Cão de Guarda já tem tradução para inglês...
Os nossos artistas descobriram-lhe um herói... Um herói que se escondia nas suas linhas. O audaaaaaaz! O inemitaaaaável.... Paaaaablo Doooors!"

[Ora carreguem lá no novo link ali da esquerda chamado In English (almost) e leiam a tradução desta simples pergunta:

Quem é que imagina que Paulo Portas possa acreditar verdadeiramente no milagre de Nossa Senhora de Fátima?]

Qual Zorro, qual super mén, nós temos o inabalaaaaável Pablo Dooors!

Sweden

I would like to
Live in Sweden
When my work is done,
Where the snow lies
Crisp and even
'Neath the midnight sun.

Safe and
Clean and
Green and
Modern
Bright and breezy,
Free and easy.

Sweden,
Sweden,
Sweden,
In Sweden.

I am gonna
Live in Sweden,
Please don't ask me why,
For if I were to
Give a reason
It would be a lie.

Tall and
Strong and
Blonde and
Blue eyed
Pure and healthy,
Very wealthy.

Sweden,
Sweden,
Sweden,
In Sweden.

I'll grow wings and fly to Sweden
When my time is come.
Then at last my eyes shall see them -
Heroes everyone:
Ingmar Bergman,
Henrik Ibsen,
Karin Larsson,
Nina Persson.

Sweden,
Sweden,
Sweden
In Sweden.


The Divine Comedy in Fin de Siècle
PSsst.: Novo álbum talvez no ínicio de 2004 diz aqui.

Imigração em Portugal (act.)

Não é fácil estudar a imigração, particularmente em Portugal e, mais especificamente ainda, numa perspectiva de grandes número, abrangendo a totalidade do país, projectando impactos globais.

Várias razões concorrem para este facto e são sobejamente conhecidas da comunidade científica que se tem dedicado ao tema (demógrafos, sociólogos, geógrafos, economistas). É complicado traçar diagnósticos fiáveis que se traduzam em realidades quantificáveis, no entanto, é possível dizer alguma coisa e é indispensável tentar perceber o que se passa.

A ilegalidade, as lacunas do aparelho judicial e administrativo, o desleixo pela recolha de informação estatística de qualidade que proliferou durante anos contribuiram, entre outros, para as dificuldades que agora temos. No momento em que passamos a acolher mais do que a ser acolhidos, nesse fluxo cruzado que ocorre anualmente, a informação é vital. É um instrumento indispensável para evitar equívocos bem conhecidos e demasiado frequentes. Na minha ainda curta carreira tive a felicidade de abordar algumas destas questões tentado servir o interesse público.
Para quem se interesse sobre o assunto remeto-vos para dois artigos em que colaborei:

- um sobre padrões de mortalidade entre a população imigrante em Portugal cujo link aqui disponibilizo.

- e outro, bem mais aprofundado, sobre as características da população com antecedentes migratórios a residir em Portugal, elaborado no âmbito do Conselho da Europa.

Ficam os links possíveis (textos em inglês):

Portuguese immigration: An approach to the mortality patterns O mesmo artigo alojado em Portugal está aqui (exige registo prévio na Infoline do INE para se poder aceder).

The demographic characteristics of populations with an immigrant background in PORTUGAL
Adufando perguntas II

(...)
1- Com a sua pertinente crítica a Portas, Pacheco Pereira é por estes dias o líder da oposição.
2. Ferro Rodrigues, não estará na altura de avançar com um blogue?


in Avatares de desejo(17 de Setembro de 2003)
Abram os olhos

(...) É por isso que prefiro correr o risco de ter uma filha que seja influenciada pela Barbie, que use maquilhagem, que inicie a vida sexual aos quinze anos. Eu sei que pode parecer cruel, mas prefiro que a minha filha possa escolher entre ser prostituta ou mudar-se para Riad, onde não poderá guiar um carro, ler revistas estrangeiras, ou andar na rua mostrando a beleza de uns ombros despidos.

Terça-feira, Setembro 16, 2003

O contrário de zurzir

Anteontem foi dia de não zurzir o mais famoso Eurodeputado da Blogoesfera Portuguesa. Antes pelo contrário. A polémica directa com as gentes do PP parece ter entrado em limitação de avarias, no entanto, o que havia a dizer foi dito no momento apropriado. (Considerações adicionais que subscrevo remeto-as para o post do Cão-de-Guarda que cito no escrito anterior a este.)

Já por várias vezes utilizei este blog para afirmar divergências para com as opiniões de JPP, ante-ontem, de forma mais discreta, enviei-lhe um e-mail saudando-o. Facto que acabou de retribuir. Para ser justo para comigo publico aqui as palavras que lhe enviei e que desta forma reforço.

É fundamental que vozes como a sua não se remetam ao silêncio perante as barbaridades que desmascarou nas palavras do lider do CDS-PP. É pena que quer no PSD, quer no PS, quando se levantam questões como estas onde se pode atingir alguma incomodidade institucional tantos se remetam às suas tocas, deixando a asneira sem oposição activa.
Este tipo de atitudes faz mais pela democracia do que qualquer reforma do sistema político, mas isto é só o que eu penso.

Outra atitude não seria de esperar de si. Essa justiça me merece após todos estes anos em que o tenho ouvido no Flashback. Discordando quase sempre com o que diz, tenho encontrado quase sempre a defesa de uma matriz que tem de ser transversal a todas as correntes políticas que defendem o modelo de civilização em que vivemos. O valor da honestidade intelectual na questão mercado de trabalho - imigração julgo ser um desses valores que já todos deviamos ter apreendido, atendendo a tantas lições da história... Mas nunca seremos perfeitos.
Sublinho também o meu apreço pelo confronto de ideias que desta vez acarinhou no seu blogue quanto à questão da discussão editorial da capa do Público.
Com os melhores cumprimentos,
Rui M Cerdeira Branco
Adufando perguntas I

A culpa é do Cão de Guarda! Vou iniciar uma rúbrica onde destacarei aqui perguntas que de alguma forma achei interessantes e que andam circulando por esses cabos fora. Perguntas que agitam os neurónios de formas diversas, vou já avisando.
Para a estreia pensem nesta:

Quem é que imagina que Paulo Portas possa acreditar verdadeiramente no milagre de Nossa Senhora de Fátima?
in Watchdog (16 Set 2003)
He's Back! (act.)

Parece que a bichano foi mesmo bem baptizado. Fontes bem informadas - mais impossível - adiantam que o Gastão voltou. All's well when...you know the rest.




Quem sabe o nome em Inglês desta personagem Disney? Não vale ver na net :)
Flash blog

Como podem ser diferentes as pessoas escritas ao espelho. Outra gente. Às vezes...

Já te viste?
Já olhaste bem para ti?

Já te ouvistes?
Já ouviste bem o que dizes?

Já te escreveste?
Já leste bem o que escreves?

Já leste bem como te escreveste?
As flash mobs são um fracasso...

...em Portugal. Ando meio a leste deste "acontecimento" mas dizem-me os Desblogueadores que foram (ontem) e continuam a ser (hoje) um fracasso. Juntaram-se não mais de três pessoas... Será ainda a herança do fascismo? Disseram-me que naquele tempo junção de mais de três indivíduos na via pública dava direito a interrogatório na Pide. Ficou-nos nos genes? Ná!!! Como alguém já disse, é mais provavel que tenha sido um problema de pontualidade... Talvez até ainda esteja a decorrer alguma flash mob... às pinguinhas.
Via Bloguítica Nacional também destaco para reflexão o texto de hoje de Vital Moreira sobre o conflito Israelo - Árabe.

Podemos discordar ou ficar incomodados com a (inevitável) simplicidade de enquadramento histórico-conjuntural da situação que é apresentado no artigo de jornal. MAS, o cerne, o diagnóstico presente quanto à correlação de forças e quanto às causas / consequências do ciclo de violência, bem como, a proposta de solução apresentada parecem-me difíceis de melhorar.
Pelo menos é a análise que faço atendendo à informação corrente a que tenho acesso e atendendo às tentativas de mediação recentes.

Se sempre que houver no mundo regiões com tal desproporção de forças a resposta de quem é superior e é atacado por desesperados for do calibre da que o actual governo israelita proporciona... Não andaremos por cá muito tempo.

A sensação com que fico é que a cada dia que passa há cada vez menos palestinianos e israelitas dispostos a colaborar, a olhar para a cara uns dos outros sem se verem sair chispas de vingança.

Israel têm direito à retaliação? Claro! E tem como é óbvio direito à retaliação da retaliação e por aí fora. Israel precisa ter confiança para pôr a sua segurança nas mãos de outrém e isso, relembrando as tibiezas retratadas na história só pode ser protagonizado pelos EUA. A chave está lá, na Casa Branca, é preciso querer. Quanto ao resto, a recuperação económica da Palestina e o retorno a sustentabilidade económica de Israel, aí, a Europa até já tem algumas provas dadas e motivação q.b.

Soluções alternativas à apresentada? Só se houver intervenção divina, mas como não vejo Deus a passear-se por aquela (esta Terra)...

(Mote alternativo para pôr alí em cima junto ao cabeçalho deste blogue: Não há nada como ainda querer resolver os problemas do mundo. Disparate por disparate atrevo-me neste blogue a escarrapachar os meus)
Valha-me São Sinfrónio...

A Rita do No Parapeito só pode ser a Rita Ferro Rodrigues. Um blogue de que muito gostei e gosto e que aqui sublinhei há dias. Isto não há nada como não ter ligações com "ninguém" para poder ter destas surpresas blogoesféricas. Boa sorte na demanda em busca do Gastão. Se aparecer ali para as bandas da Alameda / Morais Soares já por lá há olhos à espreita.

Segunda-feira, Setembro 15, 2003

E o prémio vai para...

Hoje apetece-me estar na moda, vou dar uns prémios, cativar uns amigos, mandar uns bitaites, dar ares de crítico, com a grande novidade de apresentar os 2ºs classificados em cada categoria!!!

Para levar a sério mesmo só um do prémios. Fácil perceber qual é. Ora leiam.

O blog mais atento e mais dinâmico vai para a dupla Bloguítica Nacional e Internacional - quando penso qualificá-lo de frenético logo surge um post equilibrado e certeiro, portanto, incompatível com o puro frenesim.
2º lugar para O Bisturi.

O blog com a melhor crónica lida nos últimos 5 minutos vai para O Carimbo Aproveito para endereçar-lhe as melhoras para esse galo na testa e eventuais queimaduras nas mãos. Da primeira enfermidade padeço amiude muito por culpa das farinhas lácteas quanto à segunda (queimadura numa cerca eléctrificada) ainda estou para experimentar.
2º lugar para... Não atribuído pois esgotei os 5 minutos a ler a crónica do Carimbo.

Prémio “mas quem é que anda a consultar o Adufe através dos links do Aviz” vai para quem provar fazê-lo!

Prémio e-mail mais simpático recebido na caixa de correio vai para... isso queriam vocês saber. Já bastou a divulgação do “Direito de resposta” sobre a sociedade Ponto Verde. Para considerações sobre correspondências consultar o Dicionário do Diabo e o Abrupto na vertente Hate Mail.

Prémio o que fazer com hate mail para a Bomba Inteligente.
2º prémio para a Bomba Inteligente.

Prémio blog com mais medo do dentista para Blog de Esquerda.
2º Prémio para a Bomba Inteligente.

Prémio melhor homenagem à memória de Vitor Damas...consultem o post das lágrimas que deixei aqui ontem. Cito apenas alguns dos vencedores. Fora da blogoesfera a melhor homenagem fê-la o Ricardo ontem com uma defesa à Damas...

Prémio o melhor blog a dar prémios para ... O governo Civil de Lisboa proibiria a atribuição deste prémio por evidente incompatibilidade dos promotores do concurso com a matéria em apreço.

Prémio Dom Sebastião vai para... o Aviz
2º lugar para o EPC
3º lugar para o PRD
4º lugar para o MST
5º lugar para o JMF
6º lugar para o JBC
7º lugar para... (colocar neste ponto do texto uma estrondosa honomatopeia em jeito de goooong)

Quem se atrever a agradecer o prémio arrisca-se a levar com outro!

Mais prémios quando me der na veneta.

Partido Socialista: E não é que veneta vem no corrector ortográfico do processador de texto??!
Reza assim a lista de sinónimos:
Veneta – balda, capricho, caturrice, furor, loucura, mania, pancada, sécia ...

Meus lindos, são todos muito caturras, eu sei que devo estar com a pancada mas hão-de-me perdoar esta loucura. Foi um capricho que me levou à balda. E já diz a minha Tia Bilac “Antes uma sécia que um seca”.

Feqium bem. Até ahmanã!
Big Science!

Os despenseiros da palavra sugerem um teste de humanidade patrocinado pela Isto É. Quão humanos somos nós? Curiosa pergunta... Depois daquele outro teste do post anterior, ainda mais oportuna é. Mais umas ideias preconcebidas que caiem.

Os que esperam por novidades do pastor da beira baixa também podem se entreter fazendo o teste aqui.
Eu registei uns míseros 0,74... Sou pouco humano.. É a minha costela de economista!

E já agora...espreitem os Despenseiros da Palavra. Um blogue brasileiro que por acaso encontrou o Adufe e que estou a gostar de acompanhar. Um "cheirinho":

QUANDO O BREGA VIRA CHIQUE

Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, uma das músicas-tema do filme Lisbela e o Prisioneiro, na voz de Caetano Veloso, está agradando a gregos e troianos. Essa lírica canção faz parte da discografia de Fernando Mendes, da época que vovó era criança. O detalhe é que era considerado brega; agora, é pop brega. Não vou entrar na questão de ser ou não ser brega, deixo isso para os filósofos. O que chamou a minha atenção foi esse trecho da letra da música:

“Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro”

O que nos leva à semelhança com esse outro:

“Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar”
(Camões)

Lindo!
Que tal ouvir?

Sgeue e-mial endaivo plea Ana:

"De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, nao ipomtra a odrem plea qaul as lrteas de uma plravaa etaso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo.

O rseto pdoe ser uma ttaol csãofnuo que vcoe pdoe anida ler sem gnderas obrlmea. Itso é poqrue nós nao lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Cosiruo não?
"
Dvereas!!
Direito de resposta: Sociedade Ponto Verde (act.)

Não há nada como estar sempre disposto a aprender... No passado dia 9 de Setembro publiquei aqui o post Reciclagem II onde expunha alguma ideias pessoais a pretexto de duas notícias publicadas no Jornal de Negócios relativas à reciclagem em Portugal. Notícias onde eram apresentados excertos de uma entrevista a Henrique Agostinho responsável pela área de comunicação da Sociedade Ponto Verde.
A blogo-esfera (e a internet) tem destas coisas e o Adufe recebeu há poucos dias um e-mail de Henrique Agostinho onde este, a título pessoal, ofereceu algumas impressões e alguma informação útil para melhor enquadrar o problema. Mais do que entrar em debate e argumentar em favor de algumas das sugestões que aqui deixei julgo apropriado, neste momento, deixar aqui o testemunho que me enviaram. Sem tempo para uma edição cuidada deixo-vos a missiva na integra com alguns sublinhados meus.

"Caro Rui.

Muito Obrigado pela sua preocupação com a Sociedade Ponto Verde e a Reciclagem. Creio que o sucesso da reciclagem passa muito pelo WOM (pelo que uns dizem aos outros) e respectivo aumento da mobilização.

Vou fazer vários comentários, creio que tenho essa legitimidade uma vez que sou abundantemente citado, isto apesar de os comentarios serem puramente pessoais:

1) 62% Não separam. Não separam "nada", zero. Porque os outros 38% alguns separam "alguma coisa" e mesmo muito poucos separam "mesmo". Porquê?

Há as razões razoáveis - Porque o sistema é novo, porque os hábitos custam a adquirir, porque algumas pessoas não têm de facto a vida facilitada para separar. Há as outras razões - Porque temos uma altíssima taxa de acidentes rodoviários e porque temos uma enormíssima fuga fiscal. Porque os Portugueses são resistentes às ideia de civismo.

Pesando umas e outras razões, vemos que, apesar de ser recente, os portugueses assistiram a um imenso investimento em ecopontos, centrais de triagem, aterros, etc. Que os portugueses dispõem de mais ecopontos que Multibancos. Que quase toda a população é servida por um muito bom sistema. Mas como a participação é pequena, só posso concluir que a "culpa" o atraso cultural das pessoas que não separam, as tais "outras razões".

2) O financiamento. E o eventual aumento do Valor Ponto Verde.

Infelizmente a notícia saiu muito pouco clara. O que eu apontei foi algo em que a matemática não deixa margens para dúvidas:

- Todas as embalagens colocadas no mercado pagam um valor por quilograma X.

- As embalagens recolhidas para reciclagem recebem 4X

Como isto é possivel, é porque em Portugal se recolhia para reciclagem menos de 25% das embalagens que pagam Ponto Verde. 25% de 4X = X

Acontece que no ano de 2005 vamos ultrapassar os 25% de reciclagem a caminho dos 50% que estão estabelecidos para 2012. Ora como 50% de 4X =2X (custos) e a SPV apenas recebe X, a equação não é viavel. Logo, daqui para a frente teremos de evoluir para uma situação em que:

- Todas as embalagens colocadas no mercado pagarão um valor por quilograma Y.

- As embalagens recolhidas para reciclagem receberão 2Y.

O que ninguém sabe é se 2Y =, < ou > 4X

Mas até 2012 Y acabará por ser > X.

Ora isto é matemática e entendamos é diferente do que estava publicado. A recolha selectiva tem de ser feita, essa recolha tem custos, os embaladores assumiram essa responsabilidade. Está arrumado.

O que não está arrumado é a questão do "prémio aos pais". Concordo pagar aos pais pela separação é uma solução interessante. Tão interessante que se pratica no Brasil com imenso sucesso. No Brasil porque há milhões de favelados que vivem de separar o lixo das lixeiras em "regime de free-lance". Para o bem e para o mal, a nossa sociedade portuguesa não toleraria uma solução tão pobre. E o valor unitário que tem o lixo separado é ridiculo, são precisos muitos milhares de pessoas a reunir embalagens para se obter um qualquer valor relevante. E por isso eu digo que é um "negócio de escala", quer dizer que só com grandes quantidades de "lixo" separado se obtém algum valor relevante, que dê para contratar
pessoas e pagar ordenados.


E ainda há a questão do lucro. O "negócio" da SPV não dá lucro porque a SPV não quer. A SPV é uma empresa sem fins lucrativos e todo o dinheiro que tem reutiliza na reciclagem. Por isso é que não dá lucro e por isso é que ninguém quer concorrer com uma empresa sem fins lucrativos! Óbvio não é?

Assim resumo a questão do financiamento.

3) Os baldes, os sacos, etc. - Se nós (SPV) não ajudar-mos as pessoas a separar quem ajudará! Ora bem, se pedimos às pessoas que separem, melhor será que lhes dê-mos acesso aos equipamentos e conhecimentos necessários para o fazer. Idealmente gostava de oferecer os tais baldes e sacos, mas como isso se revelaria incomportável e pouco eficaz, apostamos em vendê-los ao menor preço. Sem margens. Com escala. Podemos reduzir o preço de prateleira para um terço. Podemos garantir que existem e são funcionais. Podemos ajudar. E é isso que vamos fazer. Com baldes, com sacos e com prémios ás escolas que mobilizarem os alunos.

Que outra forma poderia haver? Seria legitimo da parte da SPV não fazer todo este esforço de simplificação da vida das pessoas?

4) As embalagens retornáveis - Não sou especialista, mas creio que não é tão simples quanto isso. Uma embalagen retornável tem uma duração de 5 ou 6 voltas. Depois também tem de ser reciclada. Uma embalagem retornável é muito mais "sólida" logo exige muito mais material, muitas vezes 5 ou 6 vezes mais material. O ciclo de ida e volta das embalagens retornáveis é muito mais caro e consome bem mais energia que o das não-retornáveis recicladas. E por ultimo quanto "vasilhame com depósito" ia direitinho para o lixo, mesmo nos tempos de maior aperto de cinto em Portugal?

Ora, para acomodar os produtos que consumimos, vamos usar embalagens e quer sejam usadas uma ou 5 vezes, o importante é que sejam recicladas no fim da sua vida. Ou não é?

Assim, aconselho distanciamento quando se inventar soluções para o problema. Nem sempre o que parece é, e por vezes o pior sai melhor.
Se calhar as embalagens não-reutilizáveis tem um custo ambiental menor do que reutilizáveis, e se calhar a incineração é ambientalmente mais saudável do que a deposição em aterro, ou reciclagem de alguns materiais. Mas isso, ninguém sabe, é uma linha ténue e já me dou por contente por se "estar a fazer qualquer coisa

Bem, espero ter esclarecido alguns conceitos, nomeadamente:

- Porque é que há tantos portugueses que não separam e o tamanho do problema

- Porque é o financiamento é como é e como não vale a pena inventar a roda

- Como é que as iniciativas anunciadas irão ajudar

- E que os debates entre não-retornáveis e retornáveis são estéreis.

Continue interessado e a interessar pela separação, que esse é decerto um bom caminho.
"

Ainda uma nota sobre Curitiba, de Henrique Agostinho, que resultou de uma troca de mails posterior:

"Curitiba é um exemplo de urbanismo/desenvolvimento social irrepreensível. Os sitemas de transporte públicos, a reconversão do comércio tradicional e o sistema de recolha do lixo são extraordinários. No entanto a própria Curitiba começa a ser vítima do seu sucesso e do facto das suas soluções serem específicas para o nível de vida do Brasil. Por exemplo - Mesmo apesar do "Ligeirinho" cada vez mais pessoas tem carro privado e o transito ameaça ficar igual ao das outras metrópoles da américa latina. O nível de vida sobe e as pessoas compram carros, parece ser inevitável.
Da mesma forma a recolha/reciclagem contra vouchers de comida só funciona quando as pessoas são mesmo pobres. Por exemplo, numa conta muuuito simplificada, todo o lixo de uma pessoa normal em Portugal entregue para reciclagem vale aí uns 10E/ano! Em Portugal quem é que consideraria relevante ter todo o trabalho que implica separar por apenas 10E/ano!
Ainda assim, Curitiba continua a ser a cidade mais bem gerida do mundo (e isto não sou eu que digo).
"

Nota adicional:
Sociedade Ponto Verde com novo Director de Comunicação

Henrique Agostinho é, desde o início de Julho, o novo responsável pela área de comunicação da Sociedade Ponto Verde.
Anteriormente Director de Marketing e Vendas na Oniway, entrou para esta empresa de telecomunicações em 2001 para assumir o cargo de Director de Marketing e Comunicação. A sua experiência na área das telecomunicações começou quando ingressou os quadros da Optimus, onde desempenhou o cargo de Director de Marketing.

A sua actividade profissional teve início na Procter & Gamble, em 1995. Depois de desempenhar funções como Assistant Brand Manager, rumou a Madrid e a Londres para assumir o cargo de Brand Manager.

Henrique Agostinho tem 30 anos e é Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico.

A reciclagem é agora o seu novo desafio.

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Domingo, Setembro 14, 2003

Queremos

P Para o José Fragoso
A O dia em que eu fui ver a volta passar
Z Gostava de estar em Alvalade
! Justiça
Justiça

É natural a oposição quando o outro de nós discorda (ou deveria ser... às vezes ouve-se demasiado silêncio).
De qualquer forma, seja mais ou menos fácil entrar numa discussão, há algo que tenho como mais dificil.
Às vezes o mais difícil é dizer o que se segue, com sinceridade, sem querer marcar pontos em estranhos e torpes "campeonatos".
O pretexto é o post VOZ PRESA, VOZ SOLTA:

Caro JPP,
É fundamental que vozes como a sua não se remetam ao silêncio perante as barbaridades que desmascarou nas palavras do lider do CDS-PP. É pena que quer no PSD, quer no PS, quando se levantam questões como estas, onde se pode atingir alguma incomodidade institucional, tantos se remetam às suas tocas, deixando a asneira sem oposição activa.

Este tipo de atitudes faz mais pela democracia do que qualquer reforma do sistema político, mas isto é só o que eu penso.

Outra atitude não seria de esperar de si. Essa justiça me merece após todos estes anos em que o tenho ouvido no Flashback. Discordando quase sempre com o que diz, tenho encontrado quase sempre a defesa de uma matriz que tem de ser transversal a todas as correntes políticas que defendem o modelo de civilização em que vivemos.

A honestidade intelectual na questão mercado de trabalho - imigração julgo ser um desses valores que já todos deviamos ter apreendido, atendendo a tantas lições da história... Mas nunca seremos perfeitos.

Sublinho também o meu apreço pelo confronto de ideias que desta vez acarinhou no seu blogue quanto à questão da discussão editorial da capa do Público.
Gostava de estar em Alvalade

Para te aplaudir pela primeira vez, Damas.
Hoje digo que sou do Sporting porque encontrei beleza num golpe de rins.
O dia em que eu fui ver a volta passar

- em seis pequenos pontos -


I

Na noite anterior o meteorologista ameaçara com um dia muito quente e, na impossibilidade de se evitarem as obrigações rurais anuais, em torno de algumas courelas de terra, a manhã de mais um dia de férias na província foi destinada ao trabalho braçal em família.
As tarefas concluiram-se mais cedo do que o previsto e com isso estavam reunidas todas as condições para intensificar a minha campanha propagandística.

Ao regressarmos a casa era ainda demasiado cedo para acender o lume e preparar brasas para o churasco e, não dando tempo às mentes mais laboriosas para magicarem no que fazer na horita que sobrava, liguei o rádio bem alto a tempo de ouvir as crónicas e reportagens sobre mais uma etapa da volta a Portugal em bicicleta que se iniciara há escassos minutos: «ligeiramente atrasada face ao previsto pela organização», segundo dizia o jornalista.
Assim que o percurso da etapa ecou do rádio pelo quintal e foi referida a passagem num ponto quente situado na aldeia vizinha mais próxima, iniciei a derradeira etapa do meu plano que visava reunir uma mão cheia de familiares à beira da estrada nacional apreciando a passagem da caravana garrida.

Para minha surpresa, cinco minutos depois de lançar o convite já embraiava a terceira bem para lá do cemitério, um dos vértices do perímetro da aldeia. O carro levava pouco mais de meia carga mas ainda assim eu ia espantado pelo repentino sincronismo familiar transgeracional ali materializado.

II

Ia eu pensando nos porquês de nunca ter tido a ideia de espreitar o espectáculo da volta ao vivo (falha imperdoável do meu portuguesismo atendendo a que esta passara várias vezes a escassas centenas de metros da minha casa no concelho de Sintra), quando surgiram, a seguir a uma lomba acentuada, dois ciclistas pedalando, lado a lado, em marcha de caracol e ocupando descontraidamente a estreita faixa de alcatrão da estrada semi-municipal limitada a veículos de 10 toneladas.
Após a brusca travagem, note-se que circulávamos na mesma direcção, e de uma valente buzinadela, estive tentado a lembrar a limitação de peso imposta pela sinalização vertical naquela via ao soberbamente anafado ciclista da dupla bucha e estica, mas em boa hora não o fiz contribuindo para essa silênciosa revolução cultural que um dia há-de inundar as estradas do país de civismo e boas maneiras.

«O mais gordo era a cara chapada de fulano tal» disse a minha mãe após aquele breve encontro. Foi quanto bastou para os passageiros, conterrâneos, iniciarem o debate sobre as venturas e desventuras da aldeia e dos seus imigrantes. Quando chegámos ao cruzamento com a estrada nacional da Volta, entre o Vale da Senhora da Póvoa e a Meimoa, estava já estabelecido de quem eram netos e filhos os jovens ciclistas, portugueses de segunda geração, nascidos na França muito depois de qualquer um dos polemistas que me acompanhavam terem eles próprios abandonado a aldeia e perdido o contacto com a criação dos filhos da terra.

A exactidão da genealogia familiar que por mero acaso viria a confirmar dias depois fez-me crer ainda mais na importância dos genes e da sua herança escarrapachada nos nossas irrepetíveis faces.

III

A estrada nacional 233 tem um pavimento relativamente recente que vem resistindo quer ao intenso tráfego internacional de pesados - via Vilar Formoso - que a percorrem durante todo o ano, quer ao enxame veraneante e natalício de ligeiros oriundos do centro da Europa e de mais modestas migrações de âmbito nacional.
Entre o Sabugal e a Meimoa - a aldeia do ponto quente - enche-se de curvas e contracurvas cirandando entre meias encostas, pequenos planaltos e vales, quase sempre rodeada de arvoredo. Da Meimoa em diante, até Penamacor, a condução é mais suave surgindo grandes rectas planas, a espaços ladeadas por bem ordenadas fileiras de magestosos plátanos e eucaliptos. Apenas se puxa um pouco pela viatura ao circundar a vila na novíssima estrada de circunvalação.
Com a nova estrada, subir até à vila, tarefa sujeita a curvas e contracurvas que atingiram em tempos a fama das de Nisa, Estrela, Sintra, São Pedro do Sul ou Gerês, é hoje bem menos desafiante e perigoso. Para o ciclista, sobra o declive e o empedrado que teima em atapetar o centro histórico da vila raiana.
Em suma, aquele troço servia apenas para moer mais um pouco os ciclistas, juntar uns trocados e tomar balanço para chegar ao Fundão, depois à Covilhã e à Torre lá mais para o fim da tarde.

IV

Arranjar poiso seguro para parar o carro sem infringir regras de trânsito e garantir ao mesmo tempo um espaço de contacto visual com a estrada e aí aguardar a caravana, de preferência à fresca, não se adivinhava tarefa fácil, mas, mais uma vez, o meu pessimismo foi a enterrar bem depressa nesse dia.

Virámos no cruzamento em direcção à Meimoa subindo uma das meias encostas escavadas pela estrada e depressa descobrimos uma eventual escapatória de curva em sítio que cumpria de forma quase perfeita os requisitos acima enunciados. Note-se apenas que a nossa descoberta merece aspas pois o poiso estava já parcialmente ocupado por outro carro.

Dentro do carro vizinho - talvez montado quando os Trovante nos apresentavam A Menina das Sete Saias - estava um rapaz de vinte e muitos, trinta e poucos.
Saímos da fornalha do carro para a sombra dos enormes eucaliptos e trocámos a tradicional saudação com o tal rapaz. Bastou o “Bom Dia” para lhe apanhar a pronúncia beirã, bastante mais acentuada que a minha e um pouco mais do que a dos meus pais.
Pouco depois de nos estabelecermos, o rapaz saiu do carro e começou uma série de indiscutíveis sinais de ansiedade andando para trás e para diante sobre as folhas, cascas e toros de eucalipto ou olhando um pontinho entre as àrvores, lá para as bandas da aldeia do Vale, a cerca de 3 km de nós, sempre a descer.
Após uns instantes de maior frenesim, acalmou, aproximou-se do nosso carro e pareceu-me interessado em ouvir o que ia dizendo o auto-rádio. Por esta altura era já mais que evidente ao que nós iamos: comentáramos a classificação da Volta, os estrangeiros, o encantamento popular que originava este desporto em nós (pelos vistos!) e em tantos outros, as suas velhas glórias, etc. No entanto, o “Bom Dia” permanecia a única conversa feita com o rapaz.

Aumentei o volume do rádio para ouvir o reporter motorizado da TSF; já haviam passado o Sabugal e aproximavam-se de Santo Estevão, faltavam, portanto, cerca de 10 Km para chegarem até nós. O rapaz olhou o relógio e retomou gestos bruscos: para trás e para diante, abrindo a porta do carro e sentando-se por breves instantes, saltando do carro para espreitar outra vez por entre as árvores...
Pelo nosso lado íamos despejando a garrafa de litro e meio de água, enquanto continuávamos entretidos a deitar conversa fora.
O primeiro sinal da volta não tardou, o inconfundível som do helicóptero soou para as bandas do Vale e pela primeira vez percebi para onde olhava o rapaz: por entre os eucaliptos via-se o saída do Vale da Senhora da Póvoa sendo possível distinguir carros e camiões a passarem lá longe por entre uma breve clareira de vegetação. Mais uns minutos e a volta estaria a passar ao nosso lado, comentei eu em voz alta - não ouve reacções.
Passou sobre nós o helicóptero da SIC e pouco depois surgiram os primeiros camiões: o enorme contentor que servia de palco no final das etapas, um camião de exteriores da SIC e vários carros decorados com autocolantes de orgãos de comunicação social: Jornal do Fundão, Diário de Notícias, RFM, TSF, algumas rádios locais, etc. A seguir, passaram sem grande estardalhaço algumas motos da polícia que interromperam o trânsito em sentido oposto ao da Volta, depois o silêncio regressou.

Passaram-se mais alguns minutos antes que voltasse a surgir animação na estrada, desta vez protagonizada por ciclistas já meus conhecidos: o bucha e o estica pedalavam rouxos de esforço movendo-se muito lentamente lá no início da subida que os levava até à nossa curva. Após um piscar de olhos, já os víamos a passear, ao lado das máquinas, investindo contra a subida com a cabeça quase ao nível dos braços e do traseiro, de mãos no selim.
Chegaram até nós e esticaram-se no chão exaustos. Assim ficaram por alguns minutos condenados a não beneficiarem da nossa hospitalidade, pois então havíamos já esgotado o suprimento de água que tanto proveito lhes faria.
Nisto, como aparições alienígenas, surgiram perante o grupo de mirones de beira de estrada três vultos vermelhos, bem colados ao asfalto, anunciados por um gravíssimo matraquear mecânico: «Ferraris! Uau! Trois!» berrou, com uma energia que não se lhe adivinhava, o mais rouxo dos ciclistas.
Por um dia, Penamacor entra no topo da lista dos concelhos com maior número de Ferraris per capita do país, comentei no meu economês, ao que o rapaz de poucas falas me respondeu com um sonoro «Já lá vêm!».

V

Menos “grave”, mas igualmente cativador de atenções, surgiu outro matraquear mecânico, desta feita oriundo de uma soberba motorizada do tamanho de um pequeno cavalo. Não fosse a minha pouca paixão por estes assuntos e escreveria com detalhe ano, potência, modelo e demais pregaminhos do exemplar, mas o melhor que posso fazer para o enaltecer já o fiz, resta-me apenas descrever o que se seguiu e que motiva a recordação da máquina.
A cavalo ia um empertigadíssimo polícia. Estão a ver aqueles motões que acompanharam o presidente Kennedy na sua última visita ao Texas, empoleirados por polícias de capacete redondo, branco e envergando uns enormes óculos de sol que lhes tapavam metade da cara? A cena era parecida, com a nuance de que o que ali víamos era uma realidade em câmara lenta; parecia impossível como o condutor mantinha a moto a rolar, numa subida e a uma velocidade tão reduzida.
«Não hão-de ver mais motas como aquela na caravana» alvitrou o rapaz de poucas falas continuando, seguro de ter retidos as atenções: «Aquele indivíduo é polícia na cidade da Guarda e a mota é o única daquele modelo ao activo no distrito. No país! Fica o ano inteiro dentro de portas e só sai para a rua quando a Volta passa pela Guarda.» E continuou entusiamado: « Uma semana antes da Volta lá chegar, aquele indivíduo começa a pavonear-se pela cidade a cavalo no motarrão durante todo o dia. Não há ninguém na Guarda que não conheça a peça! Hoje vai aí nas suas sete quintas apresentando a aberração pelas serras a fora.».
Não cheguei a confirmar a autenticidade desta história quando algum tempo depois passei pela Guarda, mas o conto daquele rapaz tem qualquer coisa de insólito que abriu espaço na minha memória para reforçar a lembrança do dia em que fui ver a volta pela primeira vez.

VI

O poletão passou aos bochechos, berrámos todos um bocado como é de bom tom nestas coisas e pronto.
Logo a seguir ao carro vassoura o rapaz arrancou em elevadas rotações “esticando” o velho carro pelo monte acima, sem trocar connosco o tradicional, «Então, Bom Dia!».
Fiquei sem saber porquê ou por quem tanto sofria este estranho rapaz. Um estranho rapaz que tão depressa parecia intimidado e desconfortável com a nossa presença quanto arranjava à vontade para destilar um altivo sarcásmo sobre as respeitáveis forças da ordem a pretexto de uma pequena estória da pequena história quotidiana da cidade da Guarda. Mas todos estes considerandos resultavam se calhar dos meus olhos e a ideia de começar a pensar em ir fazer o almoço pareceu-me tão oportuna quanto aos demais passageiros pelo que também nós nos pusemos em ar de marcha da servil escapatória. Contudo, ainda antes da partida, testemunhámos e de alguma forma protagonizamos um pequeno drama.

Perante o cenário de repetir a façanha de cinco quilómetros a pedalar entre altos e baixos de regresso à aldeia, uma algaraviada afrancesada irrompeu entre os dois ciclistas luso-gauleses, promovida essencialmente pelo ainda mal recuperado baixote gordinho que insistia com o irmão mais velho para ir para a aldeia mais próxima - dois quilómetros e quase sempre a descer - de onde pediriam socorro à familia! Julgo ter percebido a expressão “no tractor da tia” por entre as resposta às invectivas cépticas do irmão mais velho.

Da contenda resultou que o gordo baixinho ficou especado com ar de grande desespero assistindo ao afastar do irmão ladeira a baixo a cavalo no velocípede, em direcção ao cruzamento que o levaria para a estrada semi-agrícola calcorreada há pouco.
Já com o motor a trabalhar, frustrámos, mais uma vez, uma tentativa hospitaleira de socorrer o atleta. Condoídos oferecemos-lhe boleia que ele aceitou de pronto... Mas havia a bicicleta, porventura, a maldita bicicleta...
O carro não era um dedal, mas, sem suportes apropriados no tejadilho, revelou-se impossível transportar a máquina inteira na mala do carro. O rapaz conformou-se e agradeceu descendo a passo a ladeira, pingando suor e escondendo as lágrimas antes que o irmão, que o esperava lá em baixo, as pudesse destrinçar...
A meio da rampa quando passámos por ele, simulou trepar para o selim, mas não passou disso. «Só lhe faz é bem. Para abater as banhas! Um rapaz tão novo...» disse um dos meus passageiros longe já dos ouvidos do ciclista.

No dia seguinte vi de novo o luso-francês mais anafado, ainda em prova, sorridente, pedalando pela terra batida de uma das linhas arquitectadas pela esquadria real do emparcelamento imaginário daquela pontinha da Cova da Beira. Ofereceu-me um tímido «Bom Dia» em bom português e seguiu viagem conduzindo com uma mão e levando com a outra à boca uma suculenta maçã, aproximando-se calmamente da frescura da ribeira.

(prot-blog com 5 anos)
Ping para aqui.

Para o José Fragoso e para o Luis Proença da direcção editorial da TSF seguiram estas palavras:

Viva!
A primeira vez que passei palavra sobre a IF (Íntima Fracção) andava eu na faculdade (há 8 anos?), escrevendo no boletim da Associação de Estudantes e logo aí me cruzei com alguns ouvintes que quiseram partilhar a cumplicidade, o segredo, o encantamento.

Pela minha parte prefiro ouvir "num quarto escondido e perdido no meio da cidade", às escuras, deitado na cama, de olhos bem abertos. Como hoje, daqui a bocadinho, depois da uma.

Tudo acaba, tudo recomeça. Espero que o Francisco Amaral continue a ter espaço na rádio portuguesa, comigo a poder ouvi-lo, já agora. Espero que fique na TSF mas se por lá não o quiserem, estou disposto a ir atrás! Já não seria a primeira vez ("Sexo dos Anjos" de Julio Machado Vaz e Aurélio Gomes).

Mas se isso acontecer é pena...
Durante muito tempo desarmei críticos da TSF ("É só notícias e anúncios. Uma seca!") com exemplos como a Íntima Fracção. Sei de alguns que ficaram ouvintes. Se houver quem tenha bons ouvidos na direcção, se não estiver já tudo decidido, pode ser que tudo corra pelo melhor.

Entretanto caso não sejam assíduos ouvintes sei que hão-de receber algumas cassetes gravadas por ouvintes dedicados que querem assegurar este cantinho na madrugada de Sábado para Domingo, aqui (aí) na TSF.
Pela minha parte deixo-vos só estas palavras.
Fiquem bem.
Obrigado por me terem lido.
Rui MC Branco

P.S.: Votos de bom trabalho para o resto do projecto. Suplantar a herança não será nada fácil mas força! (Não se esqueçam de quem já vos ouve na voragem de quererem ser ouvidos).

Sábado, Setembro 13, 2003

Uma questão de semântica

Numa altura em que pomos "alegadamentes" atrás e à frente de tudo e em que confundimos a árvore pelo todo para magnificar a ideia de escândalo, noto que nesta notícia da SIC os caldos de galinha iniciais Alunos da Casa Pia em eventos organizados por médicos, artistas e oficiais da Marinha depressa caiem na tal generalização injusta A rede de pedofilia da Casa Pia teve ligações à Marinha e à tauromaquia portuguesa e esteve activa no interior da Expo 98, de acordo com o semanário Expresso.

“Teve, alegadamente, ligações a médicos, artistas e oficiais da Marinha" parece-me bem...

“Teve, alegadamente, ligações à Marinha e à tauromaquia portuguesa e esteve activa no interior da Expo 98" já ultrapassou o risco. A menos que se queira dizer que:
- a rede de pedofilia enquanto organização teve ligações a essas outras organizações criminosas;
- essas outras instituições que enquanto tal agiram em conluio com a rede;
- uma instituição seja sempre definida pelos piores elementos que a compõem.
Será que só a mim me incomodam este detalhes de semântica?

P.S.: A despropósito (ou talvez não), a demissão do presidente do IEP pode justificar-se por corroborar um inquérito infeliz e inconclusivo mas não se pode justificar para pôr uma pedra sobre o assunto, para que não se apurem responsabilidades materiais sobre o que se passou com a ponte que caiu no IC 19. O erro não foi do presidente, seguramente, assim como não foi do Ministro, ou de Jorge Coelho numa outra história de um passado similar. Julgo que dizendo isto este post fica mais coerente e, de facto, este post scriptum não vem mesmo nada a despropósito.
A definição de responsabilidades, dos seus limites, não parece estar ao alcance do entendimento de muita gente (pelo menos de alguns políticos, de alguns jornalistas...). Pena que essas falhas intelectuais sejam tão cirurgicamente selectivas e sucessivas.
Vem aí asneira...

A SIC está anunciar o Jornal da Noite que se avizinha com uma asneira pegada.
Nem preciso saber dos (alegados) factos; há um erro de enquadramento, tem de haver.
Diz-se que a Marinha, a Expo-98 e não sei que outras organizações estão envolvidas no caso de abuso sexual de menores da Casa Pia.

Não falam de militares da armada ou funcionários da parque-expo. Preparam a promoção à notícia assim, lançando a suspeita sobre as instituições como um todo. Pondo-nos na cabeça que temos instituições que abusam sexualmente de menores.

Isto não é fazer jornalismo, é puro terrorismo. Péssimo trabalho senhores jornalistas da SIC. Onde fica o direito ao bom nome de todos os que trabalham na RTP, no PS, na Armada, na Parque-expo e (quem sabe?) na SIC, que nunca tiveram nada a ver com abuso sexual de menores?
O português é uma língua riquíssima. Façam bom uso dele. Perdoem-me a má ortografia, um ou outro erro de concordância como vos perdo-o a vós, mas ninguém perdoa a negligência grosseira em ofício nenhum.
Muitos a tentar vislumbrar os contornos da palavra ternura .
Meu Querido Diário


Benquerença, 2 de Agosto de 1997, férias de Verão em casa dos avós.

Parecia ser uma tarde normal de Verão, uma tarde de calma, de uma calma de derreter os ossos como as anteriores, quando de repente... Bom, de repente viu-se um filme repetido: partiu-se o céu ao meio e caiu-nos uma descarga de água e de electricidade em cima.
Um repâmpago-trovão de cegar os olhos e vibrar os pulmões iniciou a função. A chuva torrencial abafou o ar, amoleceu as moscas e pôs os humanos pensativos. Com a trovoada tão perto muitos aproximaram-se de Deus; como se diz: ficaram mais tementes a Deus. Eu continuei de mata-moscas na mão, mais implacável do que antes, bravamente à espera do raio castigador, talvez.

Com a falha da electricidade a reconversão de alguns católicos da família consumou-se de facto. «Ah! Se houvesse mais tempestades na cidade, mais cortes de energia... Como as igrejas se encheriam novamente, como todos se reduziriam à sua insignificância e descobririam o verdadeiro valor da vida», pensei divertido e enfadado. Adiante.
Pôs-se mais um rachão na lareira, acenderam-se algumas velas e as histórias de outras trovoadas tiveram o seu lugar com o ambiente «al dente». Isto dá que pensar, Diário: sem televisão, sem rádio, sem coragem para deixar os beirados das casas, as estórias que pareciam pertencer irremediavelmente presas à memória individual de algumas poucas e antigas crianças que por aqui ainda andam, brotam imediatamente à velocidade de um interruptor accionado, provenientes dos mais improváveis contadores.

Contou-se a estória daquela vez em que um raio caiu na antena da televisão e em que a casa ia ardendo. Acabado este conto passou a apelar-se a Santa Bárbara a cada nova descarga com crescente clamor.
A um canto, o meu pai recontou-me a história do grande carvalho da sua meninice que eu ainda conheci. Deixo-te aqui, querido diário, uma estória de ternura, e de fascínio.


Era uma vez um menino pequenino que era um pequenino pastor. Bom, a verdade, verdadinha não era bem essa. O menino andava na escola como os outros meninos e por isso, antes de mais nada, era um menino, mas, nas férias, como muitos outros meninos da sua aldeia, este era pastor. De manhã levava o rebanho de ovelhas e cabras a passear pela serra. Aí o gado passava o dia a encher a barriga com os petiscos que só são bons para cabras e ovelhas. O menino cuidava delas encaminhando-as para os melhores pastos e protegendo-as de algum perigo sempre com a ajuda dos seus dois cães pastores: a Estrela e o Tejo. Durante o dia o menino arranjava tempo para brincar sozinho e com outros pequenos pastores que encontrava. Trepava às árvores, descia às fragas, dormia de barriga ao leu aquecido pelo sol, acendia fogueiras quando o dia vinha fresco. Era imensamente feliz excepto quando às vezes a fome apertava e o Verão se engasgava nalgum temporal. Uma vez, num desses temporais de Verão o menino assistiu a uma coisa bem de pasmar.
Johnny Cash on-line num cotonete perto de si.

Sexta-feira, Setembro 12, 2003

Muito poucas palavras musicadas...

...tenho trazido a este Adufe. Bem menos que ao seu irmão secreto.

Dificilmente trarei música mas pelo menos as palavras.
Já por cá passaram as Adufeiras de Monsanto, os Beach Boys, Laurie Anderson, hoje a Voz da América de Johnny Cash e mais alguns poucos.
(Obrigado Francisco Amaral, obrigado Luis Mateus, obrigado José Duarte, obrigado Aníbal Cabrita, obrigado Mário Dias, obrigado Ana Bravo, obrigado Nuno Galopim, obrigado Álvaro Costa, obrigado Sarah Adamopoulos, obrigado radialista desconhecido ou esquecido.)

Curioso, "The Voice" e "The Voice of America", duas memória inconfundíveis de duas Américas distintas.
Será que Sinatra e Cash alguma vez cantaram juntos? Dão-se alvíssaras.
Entre outros posts, o Adufe hoje tocou
A ...o mais infeliz dos post...
S Assim estamos inteiramente de acordo!
S A continuidade da polí­tica internacional Kenneth Waltz via A Praia
I DON'T TAKE YOUR GUNS TO TOWN
M Foi hoje inaugurado o novo Aeroporto Internacional de Leiria.
E ainda...
Foi hoje inaugurado o novo Aeroporto Internacional de Leiria.
(Act.)


Foi inaugurado há poucos instantes o novo Aeroporto Internacional de Leiria. O acontecimento foi acompanhado por centenas de espectadores que se dirigiram em massa para as imediações da Estação de Serviço de Leiria localizada no novo complexo aeroportuário.

Este inesperado acontecimento passou despercebido das entidades responsáveis pelo projecto da Ota, bem como, dos especialistas espanhóis que preparam o eventual aeroporto internacional de Badajoz. Admite-se que a edificação aeroportuária, agora inaugurada, esteve prestes a ser descoberta pela NASA no passado mês de Agosto, fruto da particular atenção dedicada à observação por satélite realizada na região, em virtude dos incêndios aí deflagrados. As nuvens de fumo terão, contudo, evitado a revelação pública do empreendimento.
O primeiro avião aterrou há poucos minutos tendo-se seguido efusivos festejos entre todos os presentes. Vamos em directo para o local da notícia.
DON'T TAKE YOUR GUNS TO TOWN

By John R. Cash
Recorded 8/13/58



A young cowboy named Billy Joe
Grew restless on the farm
A boy filled with wanderlust
Who really meant no harm
He changed his clothes and shined his boots
And combed his dark hair down
And his mother cried as he walked out;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

He sang a song as on he rode,
His guns hung at his hips
He rode into a cattle town,
A smile upon his lips
He stopped and walked into a bar and laid his money down
But his mother's words echoed again;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

He drank his first strong liquor then to calm his shaking hand
And tried to tell himself at last he had become a man
A dusty cowpoke at his side began to laugh him down
And he heard again his mother's words;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

Bill was raged and Billy Joe reached for his gun to draw
But the stranger drew his gun and fired before he even saw
As Billy Joe fell to the floor the crowd all gathered 'round
And wondered at his final words;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."
Então e estas linhas directas e enxutas na Aba de Heisenberg?
Também a não perder:
Notas sobre o texto anterior na mesma Praia.
Pela minha parte agradeço ao Ivan, a tradução e os dois post. Esperemos que muitos aceitem o seu repto final.
A continuidade da política internacional Kenneth Waltz via A Praia


(...) Antes do declínio e desaparecimento da União Soviética, os Estados fracos e os descontentes podiam esperar ganhar alguma coisa lançando uma superpotência contra a outra. Agora os fracos e os descontentes estão sozinhos. Sem surpresa, atiram-se aos Estados Unidos como o agente ou símbolo do seu sofrimento. Os actos terroristas de 11 de Setembro impeliram os Estados Unidos a alargar as suas já insufladas forças militares e a estender a sua influência a partes do mundo que os seus tentáculos não tinham ainda alcançado.
Feliz ou infelizmente, os terroristas contribuem para a continuidade da política internacional. Dão sequência a tendências já em curso. Por que é que a perspectiva do terror não altera os factos essenciais da política internacional? Porque todos os Estados – sejam autoritários ou democráticos, tradicionais ou modernos, religiosos ou seculares – temem ser seus alvos. Os governos prezam a estabilidade, e acima de tudo prezam a continuação dos seus próprios regimes. O terror é uma ameaça à estabilidade dos Estados e à tranquilidade dos seus governantes. Por isso é que o presidente Bush pôde com tanta facilidade reunir uma coligação com um quilómetro de tamanho.
Contudo, como o terrorismo é uma arma de fracos, os terroristas não ameaçam seriamente a segurança dos Estados. Os Estados não se vêem por isso compelidos a unir-se para contrabalançar a relação de forças mundial. Os atentados terroristas não alteram as principais bases em que assenta a política internacional nem alteram uma situação de recorrentes crises. É por isso que, embora tenha um quilómetro de tamanho, a coligação anti-terrorista tem apenas um centímetro de espessura.
Assim estamos inteiramente de acordo!

O Cão de Guarda teve a simpatia de me responder fazendo algumas precisões àquilo que queria dizer e reforçando aquilo que mantém, nomeadamente:

A referência legítima, por parte da comunicação social, aos 30 anos do "11 de Setembro" do Chile, não siginifica que se possa construir uma ponte simbólica entre um edifício-sede do poder militar americano destruído por um atentado terrorista, e um general chileno assassino apoiado pelo mesmo poder 30 anos antes. Essa simbologia de que terá sido feita "justiça" é o que está estampado na capa do Público. É isso que eu considero uma "pornográfica tentativa de sedução" dirigida a uma certa esquerda em que não me revejo. E, se calhar, é também a essa simbologia que o Pacheco Pereira se refere e até é capaz de ter razão. in Cão de Guarda

Se o objectivo do Público foi o de que retirássemos a ilação que o Cão de Guarda testemunha no parágrafo que transcrevo estamos de acordo. Essa não foi, contudo, a minha interpretação ao ver a capa e ao ler o jornal. Uma edição em que, no seu interior, nas 14 página dedicadas às duas datas - 4 delas à questão chilena-, felizmente, não se encontra suporte para essa possível proposta de "ajuste de contas da história" que poderemos interpretar das mil palavras das imagens de capa.
Espero que este que ali transcrevo tenha sido... o mais infeliz dos post
...alguma vez publicado ou a publicar por José Pacheco Pereira (act.)

Vou guardá-lo aqui para mais tarde recordar.
Felizmente comprei o jornal, felizmente tenho olhos na cara e neurónios na cabeça para fazer a minha crítica de um jornal, da sua capa, da História que conta. Uma História que se vai fazendo e que merece o respeito da memória. Em nome do futuro!

Nasci em 1975 e tenho o direito ao passado na capa dos jornais. Nem que seja apenas quando se comemoram números redondos, bonitos para as notícias como os "30 anos depois de". Ou quando os acontecimentos ainda fazem sangrar a alma de todos os que por cá andam e já (ainda) sabem ler ou pensar.

Qual é a vergonha do Público José Pacheco Pereira? Onde está o pecado de assinalar (bem desproporcionadamente sublinhe-se) duas efemérides marcantes na história recente? Teme que aconteça "o quê"?
Que eu incauto e estúpido leitor não perceba a diferença?
Indigno-me porque lhe dispenso-lhe a si e a qualquer outro cidadão esse favor paternalista e humilhante que me oferece ao justificar a censura com a minha estupidez.
Já basta a erosão incontornável da memória para termos reforçados critérios de selectividade.
Agradeço ao Público e a todos os que resistem a desconsiderar quem os lê. Contrariamente a alguns - como o Cão de Guarda - em nada me surpreendeu o Público trazer o Chile para primeira página. Seria mais do que natural referir e analisar os 30 anos após a destituição de "um governo de legitimidade democrática" que marcou toda a América Latina e o mundo bipolar de então. Louvo até aquilo que o Cão de Guarda interpreta como uma "pornográfica tentativa de sedução" de uma certa esquerda. E louvo não porque veja na capa, ou no que esta pode insinuar, "a verdade", mas porque desperta uma dúvida que outros tão velozmente desprezam e adjectivam pejorativamente.
Ao "expansionismo americano" dos fins que justificam os meios da guerra fria, de que o golpe no Chile é o paradigma, parece estar a seguir-se um "expansionismo" da super-potência conscientemente exercido pela acção visível em alguns campos (económico, militar), e, talvez criteriosamente, omisso em relação a outras heranças, fundadas e/ou acicatadas durante a guerra fria (a questão israelo-palestiniana, o desequilíbrio económico mundial). Mudou a conjuntura internacional mas ressurge a supremacia inegociável do interesse do estado, onde, de novo, os fins parecem justificar os meios (pouco empenhamento na questão israelo-árabe, desprezo pela lógica do compromisso internacional no ambiente/economia/defesa). Uma cartilha que a actual administração tornou mais evidente ainda antes do 11 de Setembro.
Os riscos das velhas práticas e interpretações simplistas do passado têm no ataque de 2001 a prova da sua real dimensão hoje.
O poder da super-potência parece estar hoje mais em cheque que no mundo mais maniqueista do passado bipolar. E o que leio no Público, o que eu construo através da capa e de todo o jornal, no que se refere à relação entre as duas datas, é o alerta para o perigo de querer interpretar, de novo, este mundo com uma visão simplista dos bons e dos maus, não percebendo que é vital um saldo positivo entre os que se eliminam e os que se semeiam; pressentindo-se que não é solução imitar Ariel Sharon e Arafat para resolver o mundo. Somos frágeis, o símbolo da força foi ferido, não basta mandar os aviões e substituir o incomodo pelo fantoche. Quão diferente é o mundo entre aqueles dois momentos, quão diferentes terão de ser as soluções, diz-me o Público.
Lamento os que manipulam por dentro e por fora, as notícias que lemos.

Contra esses o único caminho seguro é o combate à ignorância.

Espero sentado pela sua resposta, ou comentário, JPP, como é costume. Ou melhor, deitado. Boas noites!
Rui MC Branco

Para memória futura:

11 DE SETEMBRO

Alguém do Público anda a ler os blogues e encontrou aqui a inspiração para fazer uma capa do jornal com uma mensagem política inadmissível: a equivalência do 11 de Setembro de 1973, o golpe de Pinochet, e o 11 de Setembro de 2001, os ataques da Al Qaeda aos EUA. A mera colocação, no mesmo plano de uma capa, das duas datas, ligando acontecimentos de natureza muito diversa, que nada une, cujo significado político actual não é confundível, que remetem para realidades políticas estruturalmente distintas, é todo um programa.

Na TSF, José Manuel Pureza explicou aquilo que a capa do Público diz: tinha sentido associar os dois onze de Setembro pois estes estavam unidos pelo “expansionismo americano”. Está tudo esclarecido. É uma forma de pensar próxima do negacionismo do holocausto. E campos de concentração será que houve?

in ABRUPTO

Quinta-feira, Setembro 11, 2003

11 de Setembro de 2003 em Lisboa

São 21h30m e lá fora, no passeio desta rua de sentido único, a miudagem diverte-se endiabrada cavalgando as trotinetes em corridas que terminam sempre em gargalhadas e novos despiques.
Os pais estão na esplanada saboreando a noite morna, trocando palavras, tomando café. Ou então descansam à janela, namoriscando na penumbra, como nós.
Apenas pelo rumor sabemos que um avião se aproxima preparando-se para aterrar.
Mal se vêem as estrelas lá no alto...
A espaços passa vagarosamente um carro que procura onde poisar.
Lá mais ao fundo, no fim da rua, o João cambaleia contando as moedas, adivinhando a próxima dose.
E eles aí vão de novo, mais uma corrida, mais uma vitória, mais um dia em que serão sempre crianças.
Liberty Enlightening the World

Uma estátua que pretende retratar o espírito da liberdade no mundo. Oferecida por um estado soberano (França) a outro (EUA). Porque é que há quem tenha ficado incomodado com a imagem do post anterior quando entrou neste blogue? Não se trata sequer do Empire State Building.
Esta estátua é, para mim, um dos mais belos símbolos humanos da América. E, na sua génese, traduzia o caminho que a América tinha de seguir. Que a América e o mundo rico têm de seguir. Que temos de seguir.

Desejo que as palavras pragmáticas que se seguem abandonem boa parte do carácter metafórico que entretanto adquiriram. Não para se transformarem em ironia ou cinismo, mas em pragmatismo de novo.

The New Colossus

Not like the brazen giant of Greek fame,
with conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
a mighty woman with a torch, whose flame
is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame,
"Keep, ancient lands, your storied pomp!" cries she
with silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore,
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"

Emma Lazarus (1849-1887)

Quarta-feira, Setembro 10, 2003

A Caminho de Gata (Integral)

O sargento Federico Gracias era o comandante do pelotão. Trinta e muitos anos, um metro e setenta, vozeirão à sargento. "Sou a voz da morte", dizia, em tom excepcionalmente cavernoso, ao ouvido da beldade de serviço numa qualquer taberna. Olhava-a então bem fundo, enigmático, primeiro, e completamente ameaçador, por fim. Fazia isto, sempre que estava bêbado de mais para querer folia. Depois, ria-se que nem um tolo até perder os sentidos. “A voz da morte”, balbuciava no dia seguinte, quando acordava na sua tenda.

Em regra, o comandante do pelotão oferecia ironia e humor negro, mantinha a moral irrealmente elevada. Mas, às vezes, afogava-se em álcool ou em lágrimas, consoante primeiro lhe chegasse um copo ou uma companhia paciente. Achava-se melhor quando estava com alguém, quase sempre em silêncio, sentado à mesa de uma tasca diferente da do dia anterior.

Nas noites em que conseguia adormecer, o último pensamento ia-lhe frequentemente para a deliciosa maçã que comera, há mais de trinta anos, encostado à vedação da casa dos seus avós maternos, na aldeia da Faia Grande, do outro lado da actual fronteira. Lembrava-se do estalar da maçã rija entre os dentes e do cheiro a feno vindo do palheiro monumental. O calor subtropical em que entrava ao mergulhar nos cobertores, lembrava-lhe a brisa morna que anunciou o fim daquela tarde de verão; era então que adormecia.

*

À saida do rancho:
- Sargento Gracias! Reuna já os seus homens. Hoje ainda têm serviço. Há muito desertor cá em Vila Rodrigo! O nosso general quer o serviço feito antes do arrear da bandeira. E isso limpinho, nada de dramas! Amanhã, antes do alvor, já devem ir a caminho de Gata. Entendido?
- Sim, meu major!

Ninguém quer o pelotão de fuzilamento mais famoso da península no seu quartel. Sempre em bolandas como um circo itenerante, sempre as mesmas caras trombudas pela frente. Asco, eram disso, as caras.
Na tenda do sargento:
- Meu sargento!
- O que é que queres?
- Que o meu sargento me dê um tiro nos cornos! Pois já era tempo de saber!
- Hoje não estou com paciência para brincadeiras, Lombriga...
Lombriga correspondia, na medida do quase impossível, à sua alcunha. Era magríssimo, alto, muito branco e tinha uma enorme boca oval cheia de dentes retorcidos, desproporcionados para o crânio tão reduzido. A sua frase de marca era responder que: “As lombrigas têm duas bossas e eu, como não tenho nenhuma, só posso ser uma ténia, camelo!”. O Lombriga tentava também (e de forma muito dedicada) cumprir o papel de aguarrás, atazanando tudo e todos, mas, geralmente, só agravava o mal estar eternamente latente entre os colegas. Era muito óbvio na sua tentativa de proporcionar uma realidade alternativa. Sempre que o caldo ameaçava entornar-se para o seu lado, tinha de se refugiar na exploração da figura anormal. Mas não se ficava por aqui o espírito missionário do Lombriga. Secretamente, tentava evitar que os colegas tivessem motivos para lhe chamarem parasita; razões além das evidentes. No fundo, ansiava sentir-se útil e querido pelos colegas.
- Sabia que hoje vamos consumar um poeta, meu sargento?
- Irra!
- Pronto, desculpe. Sabia que hoje vamos fuzilar um poeta? Não me diga que não leu a lista do...
- Toda a gente sabe que não gosto de poesia...
- Ah! Então, finalmente, vamos fazer alguma coisa do agrado do meu sargento!
- ...mas sempre gostei de poetas.
- Ó diabo!
- Quem chamou? (berra alguém do lado de fora da tenda)
- Não é contigo, Diabrete de Alcântara! E se a gente puser o indivíduo a declamar na hora da ordem? Sempre se torna mais fácil, meu sargento!
- Lombriga, és um anjo! Depois do que se passou ontem em Rigremoz eu pensava que não só seria incapaz de ordenar fogo, como eu próprio nunca mais seria capaz de disparar um tiro... Mas... Hoje, vou fazer a vontade a alguém e não vai ser só ao general. Lombriga?
- Meu sargento?
Pum!
- Que foi isso, meu sargento? (pergunta um soldado que se assoma à entrada da tenda)
- O Lombriga levou com um tiro meu nos cornos.
- Pois já não era sem tempo, meu sargento!
- Reune os homens Diabrete. Está quase na hora.
- Está tudo pronto, meu sargento!
- Então o que é que tu estás aqui a fazer? Mexe-te!
Os homens, que andavam já algo preocupados com o semblante teimosamente sorumbático do sargento, respiraram de alívio assim que lhe viram o sorriso sardónico (com que se havia despedido do defunto Lombriga), acompanhá-lo quando saiu da tenda. O velho sargento, comandante do pelotão, estava de volta!
Ajeitou o bivaque, acomodou o bigode (como se o tivesse) agarrou o cinto com as duas mãos, puxou as calças para cima, pôs as mãos atrás das costas, cuspiu, deu dois passos em frente e berrou:
- Poontar- ahr! ...Fogo!
Pum!

(Proto - Blogue de 1996)
Language is a virus!

*Laurie Anderson
Retalhos da vida de um

Há uma tese de mestrado para fazer e um vício a conter.
Até já blogoesfera ou como se diz aqui digitália.


A beleza da flor como um raio de luz, cintilou até ao outro lado do mar. Que sinto agora? ... perfume?
Venha a flauta juntar-se sempre ao adufe enquanto houver beleza intrínseca neste mundo!
As palavras dos outros

Esta mulher pressentia que a sua morte seria um problema para a sociedade.

Assim se compreende que se tenha fechado em casa, com todas as portas trancadas com grandes trancas de madeira, que tenha fechado todas as portas interiores à chave, que tenha incendiado todos os cortinados dos quartos e se tenha deitado sossegadamente à espera da morte e da carbonização, para desaparecer deste mundo em cinzas.

Consta que um dia antes (como é habitual nos suicidas, procurarem alguma ajuda na véspera) foi encomendar-se a Fátima.

Eu vou dormir mergulhado na hipocrisia desta sociedade!

Miséria Humana ou Coisas Que Uma Certidão de Óbito Esconde
e

Último ponto: obviamente que se o Governo fosse consequente tinha que proibir também o “Gostas pouco gostas” da SIC/Radical. E garantir que as quecas do BB permaneçam para todo o sempre debaixo do edredon onde têm tido lugar. Estão a ver o problema? A questão é sempre a mesma: quando se começa onde se acaba? O que vão proibir a seguir? Ou estamos a regressar aos tempos das grandes indignações de direita com o “Je vous salue Marie” e com “O Império dos Sentidos”?
Isto é mais sério do que parece.

Não tenho opinião formada...

... sobre qual será a melhor solução para a reforma do sistema político mas gostei do grito do Rui da Catalaxia.
Como de liberais e de conservadores todos temos um pouco estou curioso por ver as reacções dos mais politizados a este desafio. Vou acompanhar. Será que a blogoesfera vai sair à rua?
Bom
D A Parede que Tira o Sono
I Reciclagem II
A Crónicas Sobre Tansos (proto-blogue)
! Shadow of a Doubt
Shadow of a doubt

Todos temos algo de sinistro.
Hoje segui o conselho da Janela Indiscreta e fui-me a um Hitchcock que acabou de passar no Hollywood. A terminar o filme dizia-se algo do género:
O mundo não é essencialmente mau mas temos de estar atentos. Por vezes fica ensandecido.
Já se adivinhará o sol em Jerusalem?
Salem! Shalom!

Terça-feira, Setembro 09, 2003

Proto-blogue da colectânea "Crónica Sobre Tansos!"

Criancinha

Eu deitei fogo aos armazens do Chiado, confesso. Naturalmente, assino sob pseudónimo, por isso, não se apoquentem...
Por que aqui trago esta? Porque ninguém acreditará que é verdadeira e porque sou um criminoso sentimentalista! Para os mais distraidos, lembro que no dia 25 de Agosto passou outro aniversário sobre o dia da Obra.
Revelo-vos a causa sobre a forma de uma pequena história. Desde já sublinho que não procuro absolvição pública, no máximo, justifico-me com os meus motivos.

*

Não se enganem pela minha morada! Lá em baixo, no fim do texto, escreve-se que sou de Mem Martins, suburbano, concluirão os mais avisados, fa-lo-ão erradamente, excelências!

O que eu sou é Saloio, duplamente! Sou Saloio dos arrabaldes de Sintra, terra de antigas tradições e gente pitoresca que ainda se mostra por ai fora (basta frequentar as feiras e mercados que vão autorizando nesta normalizada União Europeia), mas sou também saloio de tipo corrente, daqueles que se topam à distância na grande cidade. Bem,... talvez já não tanto como naquela altura.

Vivo numa casinha térrea, modesta e singela, deixada na família por meus bisavós, antigos caseiros da Quinta de Fanares de Baixo. Hoje, está entala entre dois caixotes de oito andares, na companhia das portas zincadas das respectivas garagens privativas; é a última sobrevivente de toda a rua. No outro dia, um rapazinho que por cá passava, perguntou ao seu pai porque se chamava esta rua de Rua das Hortas de Fanares e eu, que estava amanhando o torrãozito que ainda sobrou em frente à nossa casa, após o alargamento da via, não resisti, arranquei logo ali uma alface bem viçosa (de entre a mão cheia delas que lá vou plantando) e mostrei-a ao miúdo. É triste saber que daqui a uns anos, ou meses, talvez mesmo antes de morrerem as últimas alface cá na rua, o nome de um qualquer finório, conhecido por alguns gatos pingados da Junta, aqui veja cumprido um pretenso sonho de toda uma vida ao se acrescentar à toponímia nacional!

Onde isto já vai! Desculpem a divagação, mas têm de me conhecer minimamente para que façam proveito das minhas palavras.
Possuo alguns estudos, acabei o secundário em tempo razoável, conheço dos livros, da televisão e das comédias da vida que vão acontecendo a todos. Contudo, de horizontes viajados, tenho ainda poucos a contar e menos ainda tinha em Agosto de 88.

*

Para mim ir a Lisboa era um acontecimento, a começar pelo comboio. O mágico fascínio dos comboios foi revivido por mim tão fielmente como por aquele menino que ainda ontem vi com sua mãe, a caminho de Lisboa. Na grande cidade, os primeiros momentos eram extasiantes; outro mundo, bem vêem. Mas - cá está ele, o pequeno grande senão por que vos faço esperar - o que geralmente me levava a Lisboa era a mais chata, secante, sofrível e ingrata das tarefas que se podem exigir de uma criança, principalmente, aos rapazes mais simples e tapadinhos como eu: ir comprar roupa.

Com a cidade sedutora a envolver-me os sentidos de forma extenuante, lá tinha eu de andar atrás dos meus pais a galgar as ruas em passo de caracol. Mirar a montra de forma incrivelmente lenta, decidir se vale a pena entrar, entrar por fim, escolher, palpar, provar, escolher, palpar, vistoriar, provar, escolher, vezes sem conta, para se sair da loja de mãos vazias e repetir o rito na montra seguinte e, por vezes, recuar à montra anterior para reapreciar e comparar!... Um martírio.

Depressa a excitação dos primeiros momentos transformava-se em ansiedade, um mau estar desgraçado a crescer a cada passo. O encanto dos pombos era substituído pela barulheira e odor insuportável dos motores na Rua do Augusta - parabéns a quem de lá expulsou os carrinhos! A beleza da calçada desenhada não resistia às horas sucessivas que levava a pular de floreado em floreado numa desesperante tentativa criativa de matar o tédio. É, eu morria sempre que tinha de ir nesta procissão. Faltava-me o ar, faltava-me a água, embrulhava-se-me o estômago e, invariavelmente, tinha de irritar toda a comitiva pedinchando a satisfação de alguma destas necessidades vitais, ou então, reclamando igual lentidão em lojas de jogos electrónicos, em bancas com livros de banda desenhada - pequena vingançazinha pouco reconfortante, diga-se de passagem. Uma tarde inteira nisto. Com sorte, lá reanimava os sentidos quando convencia a comitiva a ir espreitar o rio mais de perto, mas era coisa rara “por causa do tempo que se gastava”, diziam.

Rua dos Fanqueiros, Rua da Prata, Rua Augusta, Rua do Ouro e respectivas transversais, Praça da Figueira e outras envolventes, era este o calvário, sempre em busca de um par de calças, de sapatos, de sapatos de ténis - até isto eu detestava comprar, contrariando a maioria dos meus pares de geração -, de camisas, ou até mesmo - supremo dos martírios- de pijamas, chinelos, cuecas, peúgas, roupões, lenços e outros trocados.

Há um cantinho da cidade de que ainda não falei: o Chiado e, principalmente, a dissimulada Rua do Carmo. Linda rua aquela, de aparência agradável, subida (ou descida) ligeira, menos transitada por veículos... Escondia o meu maior inferno. Entrando nos Armazéns, estavam garantidas horas de tédio e sufoco repartidos pelos variados pisos da torre. Só tinha um aspecto a favor: como é que entravamos por uma porta, fartava-mo-nos de descer degraus e depois saia-mos por outra, directamente para a rua sem subir um palmo? Mistério insignificante perante o sacrifício que exigiam!

Passado um dia de cão - como eu invejava os pombos! - ainda tinha de ser submetido àquela última provação?! Depois das promessas que sempre se adivinham numa novidade (bem embrulhadinha na deliciosa viagem de comboio) faziam-me uma traição daquelas!

*

Os anos passaram sem alterações de monta no ritual, agravado apenas pela acrescida dificuldade em caber nas roupas, provocada por esta rasquíssima característica nossa de termos em média mais um palmo do que a média da população. Finalmente, um dia, na volta de uma noitada no BA - não foi propriamente uma noitada, foi a primeira e única, até à data - acossado pela lembrança da ameaça da minha namorada de então - uma lisboeta chatérrima (conhecimento das praias de Sintra) que vim a descartar em três tempos -, cometi o crime. A rapariga vivia de gelados e de maratonas à caça de roupas, exigia que gastássemos o Sábado que se seguia numa dessas provas, em tudo semelhante às minhas anteriores provações. Não resisti à louca desinibição nocturna e deitei fogo aos armazéns com o auxílio de uma meia garrafa de vodka, uma mecha acesa e um lançamento perfeito. Liberdade!

*

Cá em casa, sou conhecido como o T.G.V., por duas razões: uma é a de que ninguém se consegue vestir e despir mais depressa do que eu - há sempre coisas mais interessantes a fazer antes e depois desses breves instantes- e a outra é a de que, agora, ninguém é capaz de comprar roupa adequada mais depressa do que eu! Em abono da verdade, também não tenho muita escolha, pois com os meus dois metros - há cá muitos assim em Mem Martins, por isso, não pensem que me apanham com esta “desatenção”- não há assim muitas lojas e marcas por onde escolher.

Quando penso que o que fiz foi um crime, regozijo-me de ver o fervilhar de tanta gente na realização de recriar o antigo coração da cidade; vejam o Siza Vieira que ganhou assim tão rara oportunidade de mostrar talento aos seus ignorantes compatriotas lisboetas! Só me custa é ver aquela gente que ficou sem emprego e todo o imbróglio que inventaram antes que reconstruíssem a zona. Mas o principal está feito, por portas e travessas garanti que os armazéns passassem à história. Agora, é só dar um pulinho às Amoreiras ou ao Cascais Shopping para comprar Benneton, Façonable, Maximo Dutti, -já foram ver os saldos à Zara?- e que tais, ou então, é ir ali à praça.

*

Digamos que fui um curto circuito saloio em 25 de Agosto de 1988 rodeado de muita carga térmica inflamável. Já lá vão oito anos de carga térmica a consumir-se. Haja pachorra! Mas nem assim me arrependo! Deitava o fogo outra vez. Palavra!

Assinado: T.G.V.
27 anos, Trolha, Mem Martins
(1996)
Extra! Extra!

Depois de bonitas história retiradas do fundo do coração, o Adufe continua a saga de limpar a poeira ao arquivo e vai hoje apresentar, com atraso é certo, mas em quase primeira mão, a confissão de um criminoso. Um informativo depoimento sobre o cérebro por detrás de um dos maiores crimes que vitimou a capital deste país no final do século XX. Não perca, depois das 22 horas no Adufe!
Correndo o risco e tendo bem presente que "Se não receio o erro é porque estou sempre disposto a corrigi-lo" cá vai disto.

A Reciclagem II (mega post – um pouco mais 1000 palavras!)

«Reciclagem em balanço: SPV recicla 116 mil toneladas, mas...
62% dos Portugueses ainda não separam as embalagens usadas» in SPV

O Jornal de Negócios publica hoje dois artigos sobre as próximas novidades que envolvem a Sociedade Ponto Verde (SPV). Refere-se (1.) o processo de atribuição de uma nova licença de funcionamento como entidade dinamizadora da recolha selectiva e reciclagem em Portugal, bem como, (2.) as iniciativas práticas cuja implementação se adivinha para breve.

(1.) Quanto ao primeiro assunto o Jornal de Negócios adianta que:
A grande mudança na próxima fase de vida das SPV será ao nível da proporção entre as receitas por kg (que determina o valor de “ponto verde”) e os custos por kg (o valor da contrapartida). Apesar de ainda não estar definido o valor final que os embaladores passarão a pagar, a única certeza “é que é preciso aumentar este valor dramaticamente, ou então a SPV não é viável financeiramente”, explica Henrique Agostinho, salientendo que “apesar de sermos uma empresa não lucrativa precisamos de receitas para financiar a actividade a que nos propomos”.

Retomando a discussão a que aqui aludi num post anterior destaco que além da então referida taxa de saneamento básico, o custo directo do nosso lixo é já em certa proporção pago no acto da compra. A SPV conclui agora que se paga pouco. Porquê?
Conhecer as razões que fundamentam esta conclusão seria muito útil. Julgo adivinhas uma delas no próprio artigo do jornal. O actual dirigente da SPV aponta que será muito difícil, atendendo – depreendo - à dimensão do nosso mercado, que surja um concorrente neste mercado pois é uma actividade que depende da “escala e que não dá lucros”. Quando fala de escala fico com uma dúvida que julgo determinante: a escala a que se refere é potencial (produção máxima de lixo se todos reciclássemos) ou a real do momento (produção histórica recente de lixo separado para reciclagem)? Atendendo à necessidade de se aumentar a taxa que reverte para a SPV para assegurar a sua viabilidade, presumo que a quantidade de lixo recolhida – e que sabemos ser apenas uma pequena fracção do “disponível” – é insuficiente para o eficiente funcionamento do sistema de que a SPV é parte. O problema da pouca eficácia na recolha é, portanto, premente e as suas consequências estão patentes no aumento do preço.

Quanto ao facto da actividade de uma empresa como a SPV não dar lucros já é outra conversa, depende seguramente da tal valorização do lixo de que falei no outro post; do seu tratamento; do enquadramento legal criado, e da própria definição de lucro que adoptamos. Na matéria em apreço, o lucro empresarial puro e duro não é determinante e se calhar nem é desejável. Mas este ponto ficará para outra ocasião.

Resumindo, depreende-se que a capacidade instalada suporta volumes muito maiores de lixo separado devendo registar maior eficiência - ser mais barato tratar cada quilograma de lixo - se "vencermos" a batalha da reciclagem.

Note-se que no post anterior em que falei deste assunto me esqueci que havia uma componente do preço dos produtos justificada pela reciclagem da embalagem. Mas quantos se lembram desse facto quando vão às compras? Qual é a percentagem do preço afecta a esse fim? Quando a contribuição para a SPV aumentar, o mais provável é que ninguém se aperceba disso não estabelecendo uma relação entre o comportamento da sociedade face à reciclagem e o impacto no seu bolso. O preço que poderia ser também visto e publicitado como o custo que de facto é, surge escondido à boa moda de um imposto indirecto plenamente inapto para ser entendido e dominado pelo comum dos mortais. Aumenta-se o preço, não para condicionar as opções do consumidor no sentido de que este se aperceba que está a comprar um bem cujo interesse não se esgota no seu consumo, mas apenas com o objectivo de garantir o saneamento da empresa SPV.

(2.) Como escrevi no início, o Jornal de Negócio foca ainda o aspecto prático da SPV anunciando as próximas medidas:

Até ao final do ano, os consumidores vão encontrar os baldes para a separação de lixo doméstico à venda em todos os supermercados, sob a chancela da Sociedade Ponto Verde (SPV). Com um custo aproximado de 10 euros por unidade, os novos ecopontos domésticos da SPV são fabricados pela Plastival – associação de recicladores de plásticos, accionistas indirectos da SPV. Em paralelo, a SPV está a trabalhar no lançamento de sacos de cores diferenciadas “cujo objectivo é fazer com as pessoas que têm condutas, não tenham de acumular o lixo em casa, separado, à espera para despejar nos dias previstos”, adianta Henrique Agostinho.
A SPV vai ainda avançar com um projecto especial com as escolas primárias, cujo objectivo é envolver as crianças e os pais. Para já, o projecto vai ser desenvolvido nas regiões de Leiria e Viseu. As crianças vão ser estimuladas a levar o lixo separado para os ecopontos que estão junto das escolas. Cada ecoponto vale pontos que dão direito a prémios. A ideia da SPV é despertar os miúdos para a reciclagem e ensiná-los a separar o lixo, de maneira a que se torne um hábito. “E assim, também os pais são envolvidos”, acrescenta.


Tudo isto me parece muito bem mas continuo a ter sérias dúvidas da eficácia destas medidas em contribuírem para um aumento rápido do volume de lixo que entra no processo de reciclagem. Porque não dar também um prémio aos “pais” quando estes reciclam? Um prémio permanente. No fundo, os consumidores iriam reaver, caso reciclassem, uma caução que seria parte da taxa paga no acto da compra da embalagem. Tudo seria mais fácil independentemente do nível de consciencialização de cada um.
Ao contrário, pede-se que se pague voluntariamente um novo caixote do lixo, novos sacos… Se as campanhas de sensibilização forem bem sucedidas tudo bem, mas não tem sido essa a experiência passada.

A única esperança que tenho de que algo de novo e substancial possa surgir com as alterações referidas nas notícias do Jornal de Negócios é que o aumento da taxa Ponto Verde sobre as embalagens não retornáveis – juntamente com mais umas eventuais achegas do legislador - torne apetecível para o embalador fabricar embalagens retornáveis, um conceito mais ambicioso de reciclagem. Onde o princípio de “prémio” ao agente que liga a produção/consumo à reciclagem está presente.

A não perder!

Aviz sobre Religião e Direita.
Porque me lembrei de Fernando Alves, António Jorge Branco, José Feliciano e de uma história que ouvi contar pela primeira vez há mais de 10 anos assomado a um postigo na rádio .

A parede que fala e tira o sono


Lenura, Beira Baixa, 1957

Na praça do Cruzeiro apenas um galo madrugador quebrava a imobilidade e o silêncio. Nas restantes ruas não havia quem notasse a falta do som das carroças e ninguém ficara apeado quando a carreira das seis não veio. O dia nascia calmo e propício à indolência como convinha aos finais do mês de Agosto.
Perto da novíssima torre do posto de alta tensão, bem no centro da aldeia, o canto do galo e o toque do sino às meias horas rivalizavam com o chilrear crescente das andorinhas que se empoleiravam às centenas nos cabos eléctricos que dali partiam.

Em toda a aldeia, apenas a Ti Chitas vira nascer a estrela da manhã e apenas ela tinha o burro alimentado e o terço rezado quando o Toninho “Baratas” apareceu de mãozitas nos bolsos das calças, pé descalço, cabelo em desalinho e ainda bastante estremunhado na praça do Cruzeiro.
Quem visse o petiz àquelas horas da manhã de domingo, especado a olhar seriamente para a parede lisa e bem caiada da Casa do Povo, ora de frente, ora de meio fio, de perto, depois de mais longe e chegando até a encostar-se a ela e a raspar pedacitos de caliça branca que mereciam exame atento e demorado com todos os sentidos – e que amargo era o petisco! – quem o visse naqueles preparos, dizia, tomá-lo-ia por doido ou por possuído pelos maus espíritos que põem as pessoas a fazer coisas levadas do diabo em pleno santo sono. O que é certo é que não havia quem ali estivesse para apreciar a peça e muito menos havia espíritos malignos que o atentassem.

Achando um mocho encostado ao chafariz do Cruzeiro, o Toninho “Baratas” – alcunha que ganhara nesse mesmo ano por se demorar sempre no recreio a amestrar baratas, bichos-clérigos e demais insectos rastejantes que apanhasse à mão – agarrou-o, pô-lo ao centro da praça e de frente para a parede da Casa do Povo sentou-se, continuando a mirar a parede. Não satisfeito com a posição, levantou-se e tendo chegado junto à parede virou-lhe as costas e contou um número determinado de passos, marcando o local com os olhos e colocando sobre ele o mocho de verga e pau. Sentou-se a si no assento e à sua cabeça de oito anos nas palmas das mãos que acabavam nos cotovelos fincando os joelhos. Assim esteve largos minutos de olhos já bem vivos e cheios de sonhos, a olhar a parede.

O galo que passeava ali perto, voltou a cantar a alvorada sem resultado aparente e topando com o “Baratas” interessou-se e aproximou-se sempre desconfiado. Cantou de novo. Aproximou-se um pouco mais , emproou-se um pouco melhor arrebitando a crista e passeou-se bem na frente do “Baratas” maneando a cabeça discretamente, o suficiente para se assegurar de que não seria surpreendido por alguma reacção; como esta não veio, o bicho enfadou-se e regressou à capoeira mantendo a pose.

Ao bater meia hora, uma brisa mais forte carregou até ao pé descalço da criança um dos folhetos escritos em letras grandes e liláses que encheram as ruas da terra na sexta-feira e no sábado. Sem lhe pegar leu-o devagar, letra a letra, sílaba a sílaba, apesar de já o saber de cor. Depois, sorriu, pôs as mãos atrás da cabeça, olhou as últimas estrelas e soube que elas eram como a máquina de luz que estivera ali ontem onde ele estava agora. Soube então que era mesmo dela que vinham as imagens e os sons que encheram a parede e a praça. O filme que vinha das estrelas era o sol que nascia e o cantar dos pássaros e ele e todas as coisas que há no mundo.

O galo tornou a cantar e o “Baratas” pulou do assento, correu para a parede, parou bem perto, virou-se para a praça e começou uma série de gestos e acrobacias salpicadas por palavras soltas, berros, urros e demais efeitos sonoros que tão depressa pareciam imitar um cavalo a relinchar como um comboio a vapor. Pulou e espalhou cabriolas por toda a praça, fez do mocho o centro da sua coreografia: disparou sobre ele as suas pistolas fumarentas; lançou-lhe um laço levantando muito pó; fugiu dele abrigando-se junto à parede e abraçou-o como se na despedida antes da grande aventura.

A chinfrineira cinéfila acordou o Zé “Taberneiro” que tinha o boteco ali na praça. Chegando-se à porta, despejou a má disposição da ressaca que trazia da noite anterior num imediatamente contido berro de «Caluda!». Com a cabeça a latejar e ainda meio zonzo foi à praça agarrar no mocho que de seguida desfez atirando contra a parede da Casa do Povo e errando largamente o alvo palrador que não desarmou. O Toninho “Baratas” - «Alma do diabo!» - correu a cavalgar acenando um dos folhetos com letras liláses pela Rua Direita a baixo, imensamente feliz, e a gritar espantando gentes e andorinhas: «Não percam o cinema itenerante de José Feliciano em Lenura sábado e domingo! No sábado as aventuras do oeste americano entre cowboys e índios no mais empolgante filme do ano com John Waine: Rio Vermelho! No domingo, o melhor filme de desenhos animados alguma vez produzido: Fantasia de Walt Disney, deixem-se maravilhar com a cor e o som do espectáculo do cinema! Sábado e domingo em Lenura na Praça do Cruzeiro às nove horas da noite! Tragam assentos!».
Portugal - Para Memória Futura (substituto da bengala "alegadamente")

As pontes que caiem só são mesmo notí­cia se cairem ao rio?
As pontes que caiem só são mesmo notí­cia se matarem gente?
As pontes que caiem só são mesmo notí­cia se houver o espectáculo das Forças Armadas (mergulhadores da marinha ou outros)?
Já temos título: "O país das pontes que caiem": Quem escreve o romance? Quem descreve a tragédia?

Segunda-feira, Setembro 08, 2003

Você decide!

Dentro de momentos vai surgir aqui um texto escrito há seis anos. Um proto-blogue.
Avalie onde o fui buscar:
1. Ao baú?
2. À dispensa?

Para 1. escreva "relíquia" na caixa de comentários
Para 2. escreva "enlatado" na caixa de comentários.
Obrigado.
Enlatado é uma trade mark da Catarina
Em leituras

A ler as últimas lérias do dia.
Íntima

Ponto prévio: leiam a sugestão do Jiminy Cricket nos comentários do post anterior.
Sugestão alternativa: E que tal mandar este link à direcção da TSF?
Queremos assegurar que a Íntima Fracção continua a ter espaço na TSF porque gostamos de a ouvir. Então, além das cópias de outros programas que lhes venham a chegar por correio - à direcção da TSF - com o objectivo de os pôr a ouvir a IF, julgo que o mais importante é fazer acompanhar o tal link com alguma palavras sobre o porquê de não querermos que o programa acabe. Não é spam pois não ganhamos nada em encher a caixa de correio electrónico com bytes - o que aconteceria se enviassemos a cópia do programa - e é algo genuino e pessoal, a opinião dos ouvintes.
Esperemos que nem tudo o que tenha Íntimo(a) no rótulo seja banido, por lei, deste país.
Façam rufar os adufes!

Divulgando o apelo / campanha sugerido pela Cristina Fernandes da Janela Indiscreta ainda sobre a Íntima Fracção.

Será que a nova direcção da TSF já ouviu a Íntima Fracção?
A dúvida ocorreu-me e, francamente, instalou-se. Pelo sim pelo não resolvi gravar o próximo programa e enviar a cassete para o gabinete da direcção. Mas talvez eles precisem de muitas audições para perceberem de que falamos quando falamos da Íntima Fracção, por isso aqui fica o desafio aos ouvintes da IF: gravem a próxima emissão da Íntima Fracção e enviem-na para a TSF. Passem a palavra.


Bolas... Não tenho gravador... Mas há outras formas educadas de fazer ouvir a nossa opinião e tentar convencer a actual direcção do valor acrescentado que estas excepções na grelha da TSF (e da rádio portuguesa) têm para quem as apadrinha. Durante muito tempo desarmei críticos da TSF ("É só notícias e anúncios. Uma seca!") com exemplos como a Íntima Fracção. Sei de alguns que ficaram ouvintes. Se houver quem tenha ouvidos na direcção, se não estiver já tudo decidido, pode ser que tudo corra pelo melhor. Vamos tentar!
Ficam os contactos da TSF presentes na página on-line:

Rádio Notícias, Produções e Publicidade, SA
Edifício Altejo - Rua 3, 3º piso, sala 301
Matinha 1900-823 Lisboa
Telefone Geral: +351 21 861 25 00
Fax Agenda: +351 21 861 25 07 / 8
Fax Redacção: +351 21 861 25 10
E-mail Geral: tsf@tsf.pt

Direcção Editorial:
José Fragoso (Director) jose.fragoso@tsf.pt
Luis Proença (Director Adjunto) luis.proenca@tsf.pt
A Blogoesfera já tem!!
Seja benvindo à Barraquinha das Farturas

Alguém já se questionou sobre como surgiu o Bibelot?
Qual a verdadeira história desse omnipresente artefacto que é uma das formas de divulgação cultural mais populares em todos os continentes? Deixemo-nos por uns momentos de pensar em casas pouco pias, em diáfanas pontes ou viadutos, em auto-comiserações patrocinadas pelas inglórias desportivas, ou mesmo nas dificuldades em fazer o dinheiro esticar até ao fim do mês. Atentem neste... educativo texto do Hyde-Park-dos-pobrezinhos.

«(...)Absolutamente extenuado, o nosso hominídeo apresenta um ar mais fatigado que o padre Vitor Melícias depois de cortar a meta das Quinhentas Novenas de Indianápolis. Num último esforço, arremessa para o chão da caverna a gigantesca presa que acabara de caçar. Um diálogo surreal segue dentro de momentos:

"-Seu, seu...selvagem (começa a chorar)!!! Achas que é aí que vais deixar isso?!! No chão da sala!!?? Bruto!! A minha mãe bem me disse para casar com o vizinho da tribo do lado. Pode não ter essa história do polegar oponível, mas pelo menos é arrumadinho e tem a tanga de pele de leopardo sempre num brinquinho. Já tu...Qualquer dia, vais ver nascer-te na fronte um par de cornos maior que o desse auroque..."
(...)
Finda a refeição, e chupadinho até ao tutano o pobre herbívoro, a discussão recomeça:

"-Mas...ó amorzinho...onde é que eu meto isto?!"
"OLHA, METE ESSE ESQUELETO NO C... Espera lá...com um toquezinho aqui e um arranjinho ali...será...? Quem sabe...Humm...Já sei, vai ficar ali ao pé do sofá, para dar um toque mais acolhedor à sala. Dou-lhe uma traulitada bem dada e fica logo com outro aspecto!! Sim!!! Isto do toque feminino é outra coisa, sem dúvida."
Meus senhores e minhas senhoras, acabara de ser criada a primeira escultura rupestre. Uma singela marretada para esta senhora, um gigantesco salto para a Arte.
»

Se alguém disser que eu conheço o Paulo André (autor do Hyde-park-dos-pobrezinhos) desde os 13 (?) anos eu não nego.
É bom "rever-te" ainda que só em palavras. Um grande abraço.
Algumas adufadas de Domingo, 7 de Setembro

Boa
N Ontem ou Um pedaço de intimidade
O For the record
I O «Pechêgo» (Proto-Blog)
T Morrer
E Pouco para dizer... (act)

Domingo, Setembro 07, 2003

Pouco para dizer... (act II)
A Íntima Fracção é para ser ouvida com atenção. Não serve: a escuta dentro de carros em movimento que não sejam muito silenciosos; a escuta em rádios colocados sobre os balcões de restaurantes de bitoques; a escuta em balcões de roulottes de venda de cachorros ou farturas; a escuta em pequenos rádios a pilhas sem qualidade aúdio; a escuta em salas de jogos electrónicos. Não serve, mas aceita-se.
A Íntima Fracção é feita para ser ouvida com headphones no quarto; na sala, em boas aparelhagens; nos carros parados ou a andar lentamente; em rádios portáteis na praia (à noite) ou no meio do campo; num quarto escondido e perdido no meio da cidade; sózinho, a olhar para a janela; com as lágrimas ou a esperança a rebentar. A Íntima Fracção é para ser gravada e ouvida quando se quiser. A IF serve para desenhar com os ouvidos.

Francisco Amaral - Íntima Fracção

Mais texto e um pouco da história da Íntima Fracção numa excelente iniciativa da Janela Indiscreta e amplificada na Retorta.

A primeira vez que passei palavra sobre a IF andava eu na faculdade, escrevendo no boletim da Associação de Estudantes e logo aí me cruzei com alguns ouvintes que quiseram partilhar a cumplicidade, o segredo, o encantamento.

Pela minha parte prefiro "num quarto escondido e perdido no meio da cidade", às escuras, deitado na cama, de olhos bem abertos. Como ontem, mesmo que apenas pouco mais de meia hora.
Tudo acaba, tudo recomeça. Espero que o Francisco Amaral continue a ter espaço na rádio portuguesa, comigo a poder ouvi-lo, já agora. Espero que fique na TSF mas se por lá não o quiserem, estou disposto a ir atrás! Já não seria a primeira vez ("Sexo dos Anjos" de Julio Machado Vaz e Aurélio Gomes).
Morrer

Li algures na blogoesfera alguém queixar-se de não se falar muito do que se passa nas nossas estradas por aqui.
Hoje o insólito ajuda.
Hoje quase se morreu debaixo de uma ponte que desabou em cima do IC 19. Uma ponte que tinha sido abalroada por um camião há coisa de um mês e que havia sido reparada na noite de Sábado para Domingo.
Mais uma para juntar à  lista de potenciais causas de óbito... Podia ter sido hoje. Arricámos duas vezes, eu e a M.
De manhã reparei nuns entendidos de colete luminoso à beira da estrada que encerravam os trabalhos. No iní­cio da tarde lembro-me de termos escapado a um ou outro encosto de soberbos As-nos-volantes.
Como nota o Nelson, a ví­tima mais grave tem 28 anos... Assim como nós. Dá para reforçar a identificação e para estimular os neurónios.
Se tiver tempo hei-de voltar a este assunto...
O «Pechêgo»

Ele era a figura da aldeia. Se tivessem de escolher um autóctone para se sentar numa cadeira de verga, bem à sombra da placa toponímica, certamente escolhê-lo-iam a ele, ao Ti Jaquim «Pechêgo».
Estatura média, ligeiramente curvado pelos seus mais de 80 anos, olhava por detrás de uns óculos quadrangulares, largos, que escondiam, ao mais desatento, uns olhos pequeninos sempre muito brilhantes. Nunca abandonava o seu chapéu castanho nem a boa disposição, e se o fizesse, por um dia que fosse, o assunto chegaria seguramente ao café, bem como às conversas de serão. Aliás, a última vez que o recordavam triste remontava já ao falecimento de sua esposa quando tinha então os seus setenta e picos.

Era o velhote mais rijo e alegre daquelas ruas, afinal, quem lhe desse a salvação habituara-se já a levar um sorriso nos lábios, fruto duma chalaça sempre pronta. A sua adega era de longe a mais frequentada e todos lhe gabavam o bom vinho e restante hospitalidade. Dizem-me que, desde que montou a adega, não houve um único dia em que esta não acolhesse convidados e era mesmo uma espécie de ponto de romagem obrigatório a todos os visitantes da aldeia de Benquerença. Tudo lhe parecia dar um ar bonacheirão. Das suas faces permanentemente rosadas veio-lhe a alcunha; dizia-se que não havia sobre a Terra coisa mais parecida com um pêssego que as maçãs do rosto das gentes da sua família.

O Ti Jaquim «Pechêgo» era um caminhante. Adorava passear e fê-lo todos os dias, desde que se lembrava. Conhecia palmo a palmo todas as terras do vale e de todas parecia conhecer “uma parte”, fosse a tragédia de uma disputa por uma certa courela, o segredo de tesouros enterrados durante as invasões francesas em determinado covão, ou os dizeres sobre paixões proibidas que fizeram história, nesta ou naquela choça, bem perto de um qualquer bardo desocupado. Ao longo de oito décadas de casamentos, festejos, provações e mortes a cruzarem vidas por aquelas terras, juntara, nas sua memória, toda a história da aldeia e de boa parte do vale

Imaginem-se agora a seu lado, num dos longos passeios primaveris que fazia pelos caminhos e quelhas do vale, em redor da ribeira, ou então, sob a sombra do arvoredo nos arrabaldes da serra, entre a água de fontes e regatos. Ou ainda, sob o alpendre de cantaria bem à porta da fresca loja de sua casa, durante uma escaldante tarde de verão.
Fiquemo-nos pelo último cenário para apreciarmos uma das artes onde melhor se revelava a sua mestria. Imaginem-se a ouvir algumas das suas longas narrativas...

Sobre um cepo, que já fora, por ventura, encosto para muitas desmanchaduras do porco e para muitos rachões, oferecer-nos-ia um copo de vinho beirão ou de água serrana, ambos bem frescos pelas bilhas de barro. A acompanhar: um naco de pão com queijo ou um apetitoso chouriço caseiro.
Ah! Mas a história! A arte de a contar! Mil vezes a repetisse outras tantas vezes nos deleitaríamos. Primeiro a sugestão. Vinha no meio da conversa sempre a propósito e quase sempre sem nos apercebermos. Quando dávamos por ela, estávamos a esforçar o ouvido para não perdermos pitada. Seguia-se um minucioso enquadramento de toda a acção. Umas histórias passavam-se durante a época das bandeiras negras (a fome), outras quando o padre Álvaro ainda era o pároco da aldeia, mas também as havia da altura em que os filhos da Ti Marques foram apanhados pelos carabineiros com os sacos do minério às costas! Depois, a surpresa era total. Poderíamos ter uma história do anedotário da aldeia, onde não raras vezes dominavam as falas inevitavelmente hilariantes dos intervenientes; poderíamos ter um conto fantástico sobre a origem do nome de um qualquer lugar do vale, como o Terreiro das Bruxas ou o Cú do Lobo; poderíamos ouvir a história da tragédia de uma paixão arrebatadora que percorreu séculos na oralidade da aldeia. Enfim, podíamos esperar qualquer aventura e experimentar as inúmeras sensações que se desencantam e insinuam num conto.
Mas o que fica mais marcado na memória, é todo o ritual que o Ti Jaquim seguia e toda a magia e encanto que fazia desprender de cada passagem duma história. A cada vez que usasse o canivete para cortar um pedaço de chouriço ou parasse para beber um trago de vinho, quase recomeçava a história do início. Seria isso consequência da idade ou matreirice de quem se sabendo com um público que lhe bebia as palavras, aproveitava para prolongar o seu momento de glória, acrescentando aqui e ali um pormenor de que se “esquecera”? Não sei bem, mas sei que fazer uma pergunta tinha invariavelmente o efeito de beber um trago de vinho ou de cortar um naco de chouriço, e sei também que bastas vezes havia quem o interpelasse, saborosamente.

O Ti Jaquim «Pechêgo» já morreu e fê-lo de surpresa, sem dizer a ninguém o que fazer às suas histórias. Um dia devo ter-lhe perguntado se as criava ou se alguém lhas contara e ele ter-me-á dito, com um sorriso largo e encolhendo os ombros, que simplesmente lhe vinham à memória. Provavelmente, algumas contara-lhas o seu pai, outras os seus irmãos, os seus amigos e outras contara-lhas a vida. Mas como vêem não vos posso dar o número da sua porta nem sequer o nome da sua rua, garanto-vos, contudo, que ele ainda por aí anda a contar histórias e a lançar chalaças certeiras a quem lhe dá a salvação numa qualquer rua deste país. «Bom dia, Ti Jaquim! Que tal vão esses ossos?»

.................
O «Pechêgo» é uma personagem, mas é, acima de tudo, o meu bisavô, recordo-o aqui como contador de histórias e como um dos “velhotes” mais populares de uma aldeia. Para mim, é gente com história e com histórias, que está a morrer todos os dias por esse país fora, ainda à espera de ser “entrevistado”. (É mais um proto-blog enviado para o DNJ em 1995)
For the record
From: "Grupo_dos_Amigos_de_Olivenca" | This is spam | Add to Address Book
To: "Rui Branco"
Subject: RE: Bloco de Esquerda recebeu GAO
Date: Sun, 7 Sep 2003 17:27:04 +0100

Já retirámos o seu endereço da nossa lista. Lamentamos o incómodo.
Caso torne a receber algum correio, pedimos que no-lo informe.
Com os melhores cumprimentos,
GAO
Mozambique
Pela primeira vez reparei em alguém que veio visitar o Adufe proveniente de um servidor Africano (Moçambicano).
Se houver blogues em Moçambique digam coisas que eu sou ignorante nesse assunto!
Mais um...
...Cão de Guarda.
Esquerda marche!
Bloguitica Nacional
Ontem
ou
Um pedaço de intimidade

(o filme está no intervalo)

Ontem várias pessoas que só conheço daqui, pessoas que de alguma forma me encantaram ou seduziram por palavras escritas em folhas de livro, páginas de blog ou ondas da rádio, disseram ou fizeram algumas coisas bonitas que me deram um bocadinho de felicidade. Não me queixo de grandes tristezas por estes dias. Já houve tempos mais agros como os da terrível e deliciosa adolescência que poderão tranparecer em alguns textos de proto-blog que aqui tenho deixado (ou vier a deixar). Mas todos os mimos, palavras sábias ou simples registos de atenção ("olá, estou aqui e sei que estás aí") têm um valor intrínseco, imune a relativizações conjunturais próprias da flutuação do amor próprio. Pode até ser que um dia, com ou sem pins identificadores na lapela, os destinos se cruzem de modo a permitir trocar de olhar, conhecer o sorriso, o grão da voz. Há algo de divertido e de estimulante nessa possibilidade. Ainda bem que gostamos de estar com os outros.

(já temos filme outra vez)

Vou aninhar-me no meu amor.
Bem hajam e fiquem bem
A ressureição...

"Blogger and Blog*Spot are currently experiencing a denial-of-service attack. We are very sad about this, but working hard to get it under control. Thank you for your patience."

...Patience...
Viram o remake do Porto-Sporting hoje na TV? (suspiro)
Vou ver o Clint na RTP 1... Espero que tenha final feliz, o filme.
Fiquem bem.

Sábado, Setembro 06, 2003

Remédio para a gripe? Ofereça-o ao Blogger.
Escrita a sério há aqui. Abram os Olhos!!
Via Não esperem nada de mim.
Moscas no pára brisas

Este dia não existe. Tudo parece incomum, caótico, incompreensí­vel. Surreal.
Onde estou? Num centro comercial em meio de semana, à  hora da matiné. Amoreiras... No átrio de acesso a algumas salas de cinema.
Sentados nos poucos degraus, meia duzia de jovens aguardam a próxima sessão em estranho silêncio; rapazes e raparigas um pouco mais novos do que eu. Neste momento, parece-me impossí­vel imitá-los. Dobrar as pernas está definitivamente fora de questão. Estranho efeito produzido pelo intenso cheiro a pipocas e pela inebriante voz de Chet Baker que completa o ambiente. O que vim aqui fazer?
Desço os degraus, quase tropeçando, e fico junto à  porta de mãos nos bolsos, observando as gentes. Assim estou como que acendendo um cigaro em dia ventoso, espreitando por debaixo da aba de um chapéu. Se me visse ao espelho tinha de estar vestido de gabardine e com um chapéu clássico, completamente cinzento.
À esquerda, a uma velocidade incrivelmente lenta, aproxima-se uma senhora, seguramente octogenária, de braço dado a um rapaz de fato que a ajuda a arrastar-se até à  sala. Ela traz uma peruca castanha com um penteado de há mais de meio século, fazendo-o acompanhar da correspondente maquilhagem. Veste cores claras, castanhos e amarelos, destaca-se o xaile que surge bem ní­tido no conjunto. Todos os gestos lhe denunciam a idade. A peruca afigura-se mais com uma coroa genuí­na, de decano, do que com uma máscara de fantasia. É vaidosa, ainda. O rapaz não a guia, serve-lhe apenas de apoio, permite-lhe a determinação.
Vindo das escadas rolantes surge mais um grupo de jovens, este muito ruidoso, exclusivamente composto de raparigas. Olha ali, diz uma apontando, aquela senhora não é uma atriz dos filmes a preto e branco? A senhora não ouve; observa atentamente uma montra.

*
As portas das salas abrem-se finalmente. Zeno Saint-Lear Da Costa, eu, o fumador imaginário, regresso ao atrio. Espero um pouco curioso por descobrir qual o filme que a senhora da peruca vem ver. Entretanto, o homem da lanterna, que por acaso era uma simpática jovem, vendo-me com o bilhete na mão e com um ar meio perdido, pergunta se não quero entrar. Atiro-lhe um sorri e estendo o bilhete. Certamente, a senhora da peruca vem ver este filme, vem ver o cinema português de hoje. Deve ser.
Ocupo o meu lugar central na penúltima fila e descanso os olhos. Estou aqui para me abstrair de tudo por uma horas. Principalmente da última briga, a definitiva... O grande melodrama: gritos histéricos, choros de mansinho, escandalo com direito a expulsão do restaurante... Relaxa, Zeno.
A música ambiente subiu de volume, Masquerade berrava um corro de vozes. Fantasma da Ópera. Seguiu-se outro excerto de uma opera-rock, uma vozinha angelical afirmava I Don´t Know How to Love Him. Jesus Christ!... Superstar. Solta-se-me um enorme bocejo e volto a fechar os olhos. Está a resultar.
Um momento de silêncio, mas não é ainda o início da publicidade, começou outra selecção. A voz, aquela voz... A mesma voz... Ouço com atenção e com o coração aos pulos... I don't care who I hurt, I don't care who I do wrong... As I cuddled the porcupine, he said I had none to blame, but me. Held my heart, deep in hair, time to shave, shave it off. No time for romantic escape, when your fluffy heart is ready for rape. No!...No time... Que raio de ironia era esta? Aquela voz tão parecida com a da música inesquecí­vel, a «nossa música»! Your fluffy heart is ready for rape?! Senti-me o personagem de uma trama irreal, duma teia feita em plena febre. Eu era um pour boy handkinding thru'the blues. Raios! Diabo de cinema, merda de música. Porque é que não resisti à  normalidade de ter uma música romãntica, a «nossa música»? Saí­ da sala, mas fiquei. Vi um filme e não vi. Nunca fechei os olhos nem chorei. As lágrimas rasgaram-me a garganta e acumularam-se pastosas à  porta do estômago comprimido. Detestava-me impavidamente. Que estranha revelaço se escondia nesta ironia? She is looking at me? Talvez. Rindo.

Nota: excerto de Back in N.Y.C., Genesis, álbum The lamb lies down on Broadway, 1974

(proto-blog do meu ano de mais febril paixão pela rádio - até ao momento 1996)

Sexta-feira, Setembro 05, 2003

Miguel Sousa Tavares
"Há sempre um exército de crentes disponíveis para legitimar as grandes mentiras da história."

Não é fácil evitar ser um dos "felizes" que acreditam.
Elevador (act.)


É para o 15º, por favor.

I

Ting!

De tantos serem os sítios e situações de encruzilhada que existem neste mundo, todos os dias acontecem pequenos milagres, autênticas aberrações estatísticas.
Como é possível serem dez para as duas da tarde de uma quinta feira e o elevador da torre um das amoreiras disparar para o alto saíndo do rés-do-chão com apenas duas pessoas lá dentro?
Testemunhas do milagre apenas os intervenientes: uma rapariga e um rapaz, ambos na casa dos vinte, ambos auditores em multinacionais rivais e vizinhas.
Ela chegou perto do hall dos elevadores e realizou mecanicamente os poucos passos necessários para chamar a máquina: primido o botão, o primeiro com seta para cima que abrisse as portas era o seu. Não demorou meio minuto até que chegasse e ela entrou. Só reparou que ninguém a seguia, que estava sozinha, quando a noção de espaço foi ampliada pelo espelho que ocupava a toda a altura o interior do elevador. Naquele momento era normal que estivesse a ser condicionada, apertada para os fundos, provavelmente pisada e empurrada. A rapariga despertou do turpor mecanizado e deitou a cabeça para fora, incrédula, espreitou ainda a seta luminosa e confirmou que não havia engano... Ia subir.
Ele entrou de supetão quando as pesadas portas já se fechavam e quase levou os joelhos ao chão com o arranque violento da aparelhagem elevatória em direcção ao sétimo piso, destino pré-programado pela moça.
Não fora a traição do espelho do elevador e nem um olhar teriam trocado. Ela ajeita uma madeixa aqui, um bricozinho acolá; ele vai de endireitar a gravata e de carregar no botão que "já me esquecia".
É o rapaz a pôr o indicador em acção e o elevador a estacar bruscamente entre o 3º e o 4º andar.
Salta um susto do peito da moça que depressa se recompõe dardejando, de seguida, olhares assassinos em direcção ao inocente desaventurado. Ela carrega de novo no botão que diz sétimo piso e depois em outros, mas o elevador não se mexe.

II
Priiiiiii. Priiiiiii.
Nada.
Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Nicles.
A rapariga sopra às madeixas não poupando os pulmões.
Já vai! Ouve-se distante a voz do zelador.
Priiiiiiiiii.
Já vai ! Porra! Tenho de esperar pelo outro elevador para aí chegar!
Só faltava agora o homem ficar preso no outro! desabafa a rapariga para as portas fechadas.
Dizem que havendo companhia, a maioria das pessoas não aguenta estar 8 segundos num elevador em silêncio total... Quando as palavras dela ditas para as portas casmurras ameaçaram pisar a referida distância temporal, o rapaz desenrola a seguinte história, olhando também as portas e pondo as mãos atrás das costas, quase em sentido.
Um dia fiquei preso num elevador na Madeira. Fui fazer uma auditoria na Electricidade da Madeira e ficámos três presos no elevador: eu, o meu manager e o director financeiro da empresa... Era sexta-feira, já passava das sete e o prédio estava vazio. Segundo o director financeiro os seguranças da empresa não faziam rondas durante os fins de semana. Dizia-nos com o seu madeirense macarrónico e com ar preocupado que eram "fortes as probabilidades de termos de passar ali dois dias e meio!"
A ideia de imitar a pronúncia madeirense ainda passou pela cabeça do rapaz mas o sentido do ridículo deu-lhe outros conselhos.
Estávamos enfiados num elevador minúsculo onde mal cabiamos de pé... Tinha para aí um quarto do tamanho deste! O elevador dava para três pessoas e marcava um máximo de 250 quilos. Eu confesso que nessa altura já pesava bem uns 80... O director e o meu manager pesavam juntos, à vontadinha, 250 quilos! Com envergadura a condizer!
Perante a ausência de sinais de enfado, o rapaz a esta altura já fazia gestos largos com as mãos e deixara de olhar as portas...
Passou-se a primeira meia hora e já pensava em água e na comida! Num assomo de esperança... Num quê? Perguntou ela. Assomo, replicou ele sorrindo. Visto não ter havido vestígios de paternalismo no sorriso dele, ela concedeu e sorriu também, moderadamente.
O que eu queria dizer é que me lembrei de usar o telemóvel mas não tinha rede! E estava a ficar... aflitinho.
O rapaz resolveu mostrar um sorriso a apelar à cumplicidade e fez uma pausa no discurso. Ela olhava-o inexpressiva, talvez expectante, talvez não... Vai-se a ver e se calhar aquele tipo de lembranças não estavam com nada num momento como aquele!
Continuou: Ainda não tinha passado uma hora quando a maquineta se pôs a andar. Tinha havido uma falha de corrente eléctrica na Electricidade da Madeira!!
Ela riu-se, ou melhor, sorriu, talvez da anedota, talvez do jeito meio tonto e trapalhão com que o rapaz foi contando a história. E deixou ficar o sorriso nos lábios enquanto se virou de novo para a campainha de alarme.
Priiiiiiiii.
O elevador retomou a sua marcha quase de imediato e parou no 4º andar.
Esperava-os o zelador:
Já está em ordem, arranjámos a avaria. Aliás, não houve avaria, desligámos... foi um circuito, sem querer... e o elevador ficou sem corrente. E vai de coçar a cabeça, fazer um ar traquina e atirar umas desculpas gagejadas. Está como novo!
Não chegaram a sair. Fecharam-se as portas e ela perguntou: Vai para qual?
É para o 15º, por favor.
Perfect strangers ou Ah My Unfair lady!

Nunca mais vou fazer linkes para este blog. Nem eu nem o Terras do Nunca.
Com que então pandilha! A fazer carneirinhos em mar alto... a espuma!
...and yet... I've grown accostumed to her trace!

Quinta-feira, Setembro 04, 2003

Bom-Bom!

Bom mesmo é este endereço sugerido pelo Jiminy Cricket do Ter Voz

Criámos um espaço de divulgação de temas relacionados com a cultura tradicional de Portugal e do Mundo, através da publicação de notícias, eventos, textos e opiniões sobre a música e dança tradicional. At-tambur.com - Músicas do Mundo é o primeiro espaço na Internet portuguesa com actualização diária inteiramente dedicado à Música e Dança Tradicional de Portugal e do Mundo.

O espaço At-Tambur na Internet é realizado sem fins lucrativos, com total independência relativa às várias associações, cooperativas e empresas referidas em notícias, eventos, discografias e outros assuntos abordados.


Toca a rufar!
O bom:
O Grupo dos Amigos de Olivença já não me melga há dois dias, estou quase a deitar os foguetes (se os bombeiros deixarem)...

O mau:
Ou é técnica de marketing da empresa do anti-virus que tenho instalado ou então estou a ser bombardeado por ataques ao meu computador. Neste caso talvez tenho sido o visitante 2000 deste blogue - curioso! A firewall está aos pinotes! O atacante foi um tal de 81.193.39.109
Deixe-me em paz! Bem haja!

O vilão:
Eu não sou!
Olha! Olha!
1.
Então não é que o Público faz manchete hoje com a resposta à pergunta que deixei no Adufe ontem!

Os primeiros parágrafos são esclarecedores dos factos:

«Ministra das Finanças reduz défice com expediente que criticou ao PS
Rita Siza

A solução de transferência do Fundo de Pensões dos CTT para a Caixa Geral de Aposentações (CGA) para efeitos de redução do défice público recupera uma fórmula utilizada no primeiro governo de Guterres pela então secretária de Estado do Orçamento, Manuela Arcanjo, com a contabilização da integração do fundo de pensões do BNU nas receitas do Estado - uma operação que mereceu, na altura, fortes críticas da actual ministra das Finanças.

Manuela Ferreira Leite acusou os socialistas de estarem a maquilhar as contas públicas com receitas que não conseguiam arrecadar por via fiscal. "Há dinheiros em que nenhum Governo deve em tempo algum mexer", considerava à época.»


Mais adiante além das críticas e pedido de coerência do PS vem uma explicação do PSD via Jorge Neto nos seguintes termos:

«(...)assinala a diferença das "circunstâncias exógenas da conjuntura económica" que caracterizam as duas operações. "As situações não são comparáveis porque nessa altura [1997] o que se colocava era uma questão de mera engenharia orçamental", esclarece, acrescentando que "nesse momento, dar o aval político a essa solução era ser cúmplice de uma estratégia irracional de desvario no controlo das contas públicas". »

Se lermos a citação da Ministra com atenção, na altura em que fez a crítica ao governo PS, não admitia validade ao argumento justificativo agora apresentado pelo seu colega: "Há dinheiros em que nenhum Governo deve em tempo algum mexer". Enfim...

2.
E antes de terminar uma achega ao Abrupto, ainda com base no artigo de hoje do Público. Desta vez a propósito do post do Abrupto que aqui transcrevi ontem.
Atente caro JPP na barbaridade implícita no pensamento do seu colega Jorge Neto na seguinte frase citada pelo Público:
«"Ao contrário de outros como a Alemanha e a França, que não são países da coesão, Portugal não se pode dar ao luxo de falhar e violar as regras do PEC", considera, reputando como "essencial para o prestígio do país e para a retoma da economia" a tomada de toda e qualquer medida extraordinária. "É uma exigência patriótica", sublinha. »
Depois do que lhe li, caro Abrupto, também concorda com esta da "Exigência patriótica"?

E pronto por agora é tudo. Se alguém conhecer outras justificações que não estas aqui relatadas continuo disponível para que me elucidem. Para já a informação disponível permite-me formar uma primeira opinião: não encontro nenhuma bondade, repito nenhuma bondade, mais a mais numa altura em que já todos interiorizamos a necessidade de equilibrar as contas públicas (com ou sem PEC), em seguir cega e habilidosamente um suposto desígnio nacional que acumula sucessivamente graves danos para a economia do pais. Querem exemplos: como é que passa pela cabeça de alguém cortar despesa na vigilância da floresta? E manter essa decisão mesmo depois de entidades avisadas sobre a conjuntura da floresta (lembro-me de ter ouvido os bombeiros na TSF bem antes dos fogos) alertarem para o elevado risco neste ano devido à acumulação anormal de matéria orgânica nas florestas causada por um inverno muito longo e húmido? O pior é que não são precisos muitos erros causados pela tal cegueira - que se calhar, como diz o Abrupto Franceses e Alemães nos vão esfregar na cara - para causarem grandes danos. Mas quem governa não pensa na Lei de Murphy não é caro JPP (lembro-me aqui do seu artigo na última Grande Reportagem).
É a tal história dos custos indirectos e das más decisões políticas.

Quarta-feira, Setembro 03, 2003

Desculpem voltar tão depressa ao Chinezinho Limpó-pó ali debaixo (a questão do cumprimento do Pacto de Estabilidade) mas...

Mas reparei agora que o Abrupto trata do assunto no seu último post. E como é curto transcrevo na integra deixando um breve comentário de seguida:

A VIOLAÇÃO DO PACTO DE ESTABILIDADE PELA FRANÇA E ALEMANHA

é algo que deve ser seguido com muita atenção, porque pode mostrar como são as relações de poder na UE nos dias de hoje, marcados por uma grande retórica europeísta .

A França, que é um dos países que quer ir mais para a frente com a Constituição, de que se considera pai e mãe com a Alemanha, tem, a propósito da violação do Pacto de Estabilidade, com os seu déficit previsto e reincidente de 4% ,um discurso interno de absoluto desprezo pelo Pacto e de afirmação unilateral dos interesses franceses. O Pacto foi proposto pela Alemanha e pela França com o objectivo de condicionar os pequenos países do Sul, Portugal inclusive, que tinham imagem de "gastadores", e podiam pôr em causa a estabilidade do euro. O Pacto prevê sanções e pesadas. Portugal foi ameaçado com elas ainda bem recentemente. Ora, não se vê que a Comissão mostre grande vontade de as aplicar à França e à Alemanha...
Isto é inadmissível. Espera-se que Portugal tenha a máxima firmeza, exigindo que, o que se aplica a Portugal, se aplica à França e à Alemanha. Se se admite a duplicidade numa matéria que não oferece qualquer ambiguidade, aceita-se a humilhação.


O preconceito que me assalta com os dados que tenho é que a solução do incumprimento português para 2003 (tal como o foi para 2002) é extraordinária, provavelmente irrepetível. Pegando no post do JPP pergunto(lhe):
Será assim tão edificante moralizar, em nome do exemplo português, perante a Alemanha e a França se estes não forem penalizados pela prevaricação que se adivinha?
Eu gostava de estar numa posição mais inequívoca de superioridade moral, com o cumprimento sustentado do PEC, antes de atirar a primeira pedra.

Quanto ao resto das contas que JPP tenta acertar com o seu post escuso-me a comentar sob pena de não ter uma resposta condigna a esta questão mais restrita que coloco. E mesmo assim aguardo com expectativa...
Uma grande adufada para a A Aba de Heisenberg neste post.

Só um parágrafo que já aqui escrevi por outras palavras mas que assim me soa muito melhor:

Irrita-me este debate simplista pica-esquerda, pica-direita, como se as pessoas vissem a realidade apenas com o olho esquerdo ou com o olho direito, como se o mundo fosse um pisca-pisca. Poupem-me, eu tenho esquerda e direita ao mesmo tempo e não me revejo em nenhum dos lados isoladamente. Para analisar este mundo é preciso ver a realidade toda, objectivamente, procurando compreender a complexidade do todo mas tendo em conta a importância de certos pormenores, destrinçando a informação da desinformação sempre que possível. É obra. Por isso, dispenso visões parciais com pala no olho ou enviesadas sempre para o mesmo lado.

Por isso ficaria muito feliz que a ter respostas aos dois posts imediatamente em baixo não começassem a conversa com palas nos olhos.
What happend to Chinezinho Limpó-pó (a)?

O governo vai contabilizar como receitas extraordinárias a dinheirama do fundo de pensões dos CTT arcando com as responsabilidades inerentes (transferindo-as com o respectivo o dinheiro para a Caixa Geral de Aposentações).
Imaginem por um momento que eu sou apenas um cidadão crente na boa fé e na inteligência de quem nos governa. Um cidadão que tem respeitosamente considerado o que nos tem dito o actual governo. É então natural que não perceba a bondade da decisão em apreço. Depois das portagens e afins do ano passado, o défice (talvez) venha a ficar abaixo dos 3% (talvez venha a ser “salvo” como li, por exemplo, na TSf sem as aspas) com esta receita extraordinária. E isso é bom? Melhorámos face ao que fez o anterior governo? Em que medida?
Volto a repetir: agradeço a alguém que se digne ao esforço de me explicar, evitando o preconceito de pensar que já tenho opinião formada, que deve ser um “gajo” do PS ou simpatizante que esta só a mandar postas de pescada...
Alguém se digna pregar a este peixinho com uma explicação se não tão erudita pelo menos tão razoável ao entendimento quanto o famoso sermão do saudosos Padre?
Fico antecipadamente agradecido.
É que não vejo razão nenhuma para auto-censurar estas dúvidas... nem que fosse militante de algum partido da oposição. E já que temos blogues pode ser que tenha sorte.
Bem hajam.

O outro défice
ou
Por que raio hei-de pôr o lixo no Eco-Ponto?

Os produtos reciclados tem valor económico directo – são matéria prima para fazer papel reciclado, vidro, metal, combustível, etc - além de um valor dificilmente quantificado pelos prejuízos que se evitam pelo seu processamento (mais) eficiente.
Mas quem quantifica esta última parcela do custo sabendo que a unidade de medida tem de ser monetária? Este passo é fundamental para implementar o princípio do poluidor-pagador por exemplo… Aparte o apoio técnico que um grupo de engenheiros, economistas e afins pudessem dar, a tarefa no final é iminentemente política. E como sabemos há quem faça escola no governo de grandes países (grandes poluidores) em desprezar esse custo na factura da administração do planeta. O paradigma mais popular desta opção política é sem dúvida o presidente dos Estados Unidos da América mas tem muita companhia. Provavelmente para estes lideres o valor económico directo é desprezável (quando comparado com o apurado na produção de futuro lixo) e o “indirecto” não se enquadra nas premissas dos estabilizadores automáticos providenciados pela estreita lógica de omnipotência do mercado.

Ora bem, pagar já nós pagamos, quer directamente (através da taxa de saneamento básico de cada Câmara, através dos impostos), quer indirectamente (cof cof, infecções, cancros, intoxicações, perda de beleza do meio ambiente, etc, etc) e ainda assim o problema não se resolve, agrava-se. Em Portugal, dizem as estatísticas, o número daqueles que recicla é mínimo… Mesmo com democracia, mesmo com o mercado a funcionar. Algo está a falhar…
De certeza que há solução, ou mesmo soluções…
A indústria da reciclagem já existe, mas o bem lixo não respeita (ou parece não respeitar) as premissas de uma qualquer matéria prima. Este é oferecido, não sem esforço, por quem o produz a um intermediário que o vende. Quanto vale um quilo de papel, um litro de óleo alimentar queimado?…
Sem pensar o estado destas coisas, o que poderíamos fazer para resolver as falhas?
Por exemplo, pagar ainda mais de taxa resolve o problema do não processamento para reciclagem? Que certeza temos em que um aumento na taxa municipal me vai estimular a separar o lixo? Se o vizinho não reciclar a taxa sobe na mesma… Não identifico uma relação directa, tenho de racionalizar a coisa e muitos de nós não estamos para isso, limitamo-nos à sensibilidade imediata para avaliarmos e escolhermos as nossas rotinas do dia-a-dia.

Uma amiga meio a brincar, meio a sério disse-me que se recusava separar gratuitamente o lixo e posteriormente colocá-lo no respectivo ponto de recolha a custo zero. “Não há gajos que ganham dinheiro com o meu lixo? Se me pagassem uma parte do seu valor eu investia tempo e dedicação em seleccionar, acondicionar e entregar o lixo. Porque o meu lixo tem retorno, como pode ter retorno a garrafa e algumas outras embalagens”. Ainda argumentei “Então e a tua preocupação com o meio ambiente, esse seria um teu contributo activo para teres um mundo melhor”…. Está bom de ver que a moça me atirou à cara o vizinho free rider que dá cabo do esquema.

E de facto, pensando bem, porque não consideramos esta hipótese? Se além de campanhas de sensibilização (úteis para que todos percebamos o que está em jogo, que todos “lucramos” com a interiorização do princípio do não desperdício e nos consciencializamos dos custos do nosso lixo) houvesse uma retribuição equivalente a uma percentagem do valor directo do lixo depositado talvez fosse mais fácil e seguro derrotar as lixeiras e reduzir a pressão sobre o planeta. Seguramente que não seria lucrativo produzir lixo para depois ganhar o valor da reciclagem mas seria confortante perceber que o custo de não reciclar é bem maior do que o de sermos os nossos próprios lixeiros.
Carta Aberta ao Grupo de Amigos de Olivença (a propósito de mais um mail, desta vez intitulado “Bloco de Esquerda recebeu GAO”)

Obrigado pela informação que têm prestado.
O que se passou com Olivença faz prova da palavra do estado Espanhol. Contudo, o período de recurso, o apelo pelo não cumprimento da sentença que transitou em julgado já acabou. Por isso registemos a estória na História, sejamos previdentes se houver outra situação parecida no futuro e encerremos a história fechando a delimitação fronteiriça.
Há tantas boas causa que precisam de energia para levarmos este país para a frente...
Agradeço que me retirem da mailing list na qual não me recordo ter feito inscrição. Respeitem a minha decisão e provem a vossa boa educação como bons portugueses. Com os melhores cumprimentos,
Rui MC Branco

Já me ri a valer esta manhã.

Ora espreitem lá este ping pong...
Fui ver a Lua e gostei!
Para fechar a noite: um tipo bom de medo

«(...) Como quando no escuro do teatro tememos ser atravessados pelo olhar de um actor, isolados da multidão, revelados, puxados para o palco. (...)»
Fernanda Câncio in “Comprar, vender, homem, mulher”, Notícias Magazine nº 269, 20 Julho 1997, p. 47.
Tenebroso é o estado de espírito de um Sportinguista nesta noite... Tomem lá disto (uma Proto-posta de há uns anos)

Caso Esquisito (quase) Verídico

Gaspar era um rapaz decidido: gostava de salada de pepinos, de pimentos assados e de beringelas fritas em cobertura de ovo enfarinhado em trigo. No bolso, raras vezes o apanhavam sem uma alfarroba meio trincada.
Gaspar era ainda pequenino.

O Gaspar está preso num sítio muito branco e muito negro; é mesmo um daqueles pardais-de-prisão.
Entrou pela primeira vez na cela com um «Estou frito!» no pensamento e, desde então, não deixou de pensar a uma velocidade alucinante, como nem sequer se sabia capaz.
A imagem dele e do seu pai fazendo de almas penadas nas noites estreladas de fim de Verão, prescutando as oliveiras à caça de pardais, ele com a laterna e o pai com a pressão de ar, tem-no perseguido em muitas noites mal dormidas no cárcere. «Pardais fritos, estaladiços, humm...Bem bom!» aventava ele aos colegas de escola em conversa de meninice, a armar em grande caçador e apreciador de iguarias exóticas.

Um dia...
Gaspar era já rapazote, de barba bem formada, sempre amigo dos seus amigos de paródia: «Vamos pregar uma partida à Soraia?» e foram.
A Soraia estava na escola, no balneário das raparigas com mais três cachopas - e cachopas assentava-lhes na perfeição...
Num abrir e fechar de olhos viram-se trancadas lá dentro com um balde de pimentos vermelhos bem queimosos a arder. Com o reboliço espalharam-se os pimentos em brasa pelo chão enquanto o balde ardeu, a um canto, libertando um fumo negro e sufocante que depressa encheu o pequeno balneário. Noutro abrir e fechar de olhos... morreram.
Gaspar riu-se que nem um perdido com o resto da malta e que nem um perdido ficou quando a algazarra no balneário amainou e, por fim, se extinguiu.
Então, acabou-se a poesia popular ao castiço.

Hoje Gaspar já não gosta de pepinos, pimentos, beringelas e alfarrobas; é mais alpista e hospício. «Estaladiços, humm!... Bem bom!» repete em voz alta entre dois pensamentos insondáveis para quem o não está a ouvir.


Terça-feira, Setembro 02, 2003

Gostei de ler agorinha
O Crime de ignorar do Migalhas.

Citando...
Todos nós provavelmente já experimentámos a desagradável sensação de que podemos um dia morrer estupidamente. Seja num acidente automóvel que evitámos à última hora, numa pontada de dor no peito, nas imagens de um atentado terrorista. Nesses momentos, alguns de nós, pensámos que não era ainda a hora de morrer. Que tal antecipação era injusta. Faltam-nos ler tantos livros, procurar e atingir objectivos, fazer novos amigos, beijar futuros filhos. Sentimos a ténue linha imprevisível que nos sustenta entre o existir e o deixar de ser. Esse medo, receio, é saudável. Mantém-nos agarrados à vontade de ser, aprender, pensar, crescer, interrogar, afirmar, envelhecer, amar e viver.

Um recente estudo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada revela que "Com base num questionário feito a 234 estudantes do ensino secundário da cidade de Lisboa, de ambos os sexos e com idades entre os 15 e os 21 anos, a investigação revela que 48,2 por cento das inquiridas já desejaram estar mortas, enquanto 35,6 por cento pensaram em suicidar-se.
Quanto aos rapazes que pensaram em pôr termo à vida, foram 19,1 por cento, embora já tenham desejado estar mortos 25,3 por cento."

Andamos preocupados com tudo e, ao mesmo tempo, andamos cegos. Discutimos o terrorismo, a casa pia, o bigbrother (minúsculas propositadas), o M.E.C, o calor, o fogo, as músicas de verão, este blog, aquele blog, o outro blog. Acusamos o umbiguismo, o Prado Coelho e o Luís Delgado. Veneramos uns, atacamos outros, ignoramos muitos. Ignoramos aqueles que nos rodeiam, ignorando assim um grave problema invisível: Aqueles que não vêm nas notícias e acabam por transformar-se numa das notícias mais tristes do nosso país.


Salto para o hiper-espaço aqui.
Botou fogo!

O dia em que o meu Sporting ficou em picadinho nas Antas... 2 de Setembro de 2003. Uma grande Adufada para o Porto.

Já que fomos comidos o melhor é beber um porto para afogar as mágoas!
«(...) Tivemos 7 tamagotchis e fomos felizes para sempre, que fica, como sabem, em parte nenhuma»
Sarah Adamopoulos, Ciberia, TSF, 1996(?)


As cerejas
A primeira:
«E se bem viveram, melhor morreram.»

As outras:
Um dia lí ou ouvi, já não sei bem, um escritor dizendo que o primeiro passo para escrever um romance é encontrar um final, um final mesmo antes de se construir o resto. Sei que franzi o sobrolho e cocei a cabeça; apesar de adorar sobremesas.
Lembrei-me do dito do escritor quando, num espantoso documentário em filme de curta-metragem sobre o país Basco, realizado por Orson Welles no imediato pós-II Guerra Mundial (exibido na RTP 2), fiquei a saber que as estórias de encantar bascas têm este fim: «E se bem viveram, melhor morreram» - assombradoramente diferente do nosso conhecido «E viveram felizes para sempre».
Podem-me chamar maluco, mas, assim que acabou o documentário, veio-me à cabeça um verso do «Fim» de Mário de Sá Carneiro e fiquei com uma vontade enorme de saber como é que um burro ajaezado à andaluza se distingue de um outro ajaezado de outra forma. Queria que alguém me contasse, em palavras fresquinhas... Para a troca tenho pelo menos um «Bem haja» guardado...

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(As linhas ali de cima são mais um prot-blogue de 1996 que traz ainda outro excerto desse outro Rui de então:
Estou a ouvir o primeiro «Cyberia» na TSF - e estaria a ouvi-lo na XFM se... - e digo-vos que é uma coisinha danadinha de boa: é original, delirante, arrepiante e, a espaços, hilariante: faz cocegas!!!...Virtuais.)

E agora num blogue perto de si.
For the record...

Dificilmente poderia estar mais de acordo com o que têm dito nos últimos dias estes dois blogues Catalaxia e Matamouros sobre o caso Casa Pia.

O debate ontem na Sic Notícias foi... estimulante. Começa também a ser aos poucos responsabilidade da minha geração (a mesma do Juiz Rui Teixeira - praticamente) melhorar este país. Impregnar o aparelho judicial dos fundamentos de um estado de direito (democrático) é preciso.
Aconselho-os vivamente a não irem a este blogue.

Não passa de um chorrilho de mentiras e calúnias!
Acusação de congressista americano
Administração Bush acusada de distorcer a ciência para favorecer as suas posições

in
Público de 2 de Setembro de 2003.

O que há de bom na administração Bush?
Memórias de um Proto-Blogue VIII

Escrito há sete anos e agora ressuscitado. O espanto de me espantar comigo! Amen.

Programa «Última Carta» Anotado

I

...Registo Final - Capítulo VIII
...Última semana de condicionamento
...Programa Última Carta
...Gatilho específico para o programa na série 414 de clonskização em neo-alga mais:
«Hello Dolly» (a melodia suprema)

...Conteúdo moral psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu sou feliz.
Pertenço ao grupo de inteligência máxima.
Sou diferente e melhor do que os sub-neo-alga mais.
Sou fiel depositário da segurança da espécie.
Replico exactamente os «Perfeitos» escolhidos nos primórdios do tempo da Grande Ovelha.

(Pausa)

Cumpri.
Segui o caminho para ajudar no Fim Superior da Espécie.
Fui Soldado Alguíssimo e destrui o Cancro.
Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] continuo para sempre.
Serei a espécie de amanhã.
Em nome da Grande Ovelha: Hello Dolly!»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] devo ajoelhar-me.
Erguer os braços perpendicularmente ao solo.
Devo juntar as palmas das mãos sobre a cabeça entrelaçando os dedos e assim ficar até ouvir o Condicionador Supremo.»


...Conteúdo moral psico-induzido disparado ao terminar o último acorde ou quando a melodia seja interrompida:
«A voz que ouves é a do Condicionador Supremo.
Presta atenção e cumpre.
Presta atenção e cumpre.
Deixa que continue o fim do fim.
Hello Dolly, [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky], Hello Dolly»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado no momento do fim da melodia suprema ou quando esta seja interrompida:

«Devo assumir a posição fetal.
Devo entrar em atrofia total de funcionamento cognitivo consciente.»


...Repetir programa «Última Carta» cem vezes, durante a semana de condicionamento.


...Programa Borracha Atómica para branqueamento do condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais
...Gatilho descondicionador geral: «This isn’t Luis!»


...Fim do processo global de condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais.

...Director Geral para o programa «Última Carta»
...Alf Joca Novsky

...Sumo Ovino da Série VIII
...Nostradamos Fédon Memé

...Hello Dolly!

...Clonecity-in-bocanovsky, Oitava Ovelha (740,34).


NOTA: Paródias incidentais ao livro «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley


II

Se morresse hoje, não deixava carta nenhuma.
Não tenho absolutamente nada a dizer, tal como não tenho nada a dizer quando morre um amigo da minha idade (ou que ande lá perto). Nessas alturas demoram a vir as palavras.
No máximo praguejava, coisa que faço raramente, mas que, de tanto uso e abuso que tem por aí, não se traduziria em nada de significativo para quem me ouvisse à distância.

*
Não é preciso chegar à bocanovskização:
Imaginem-se no vosso leito de morte.
Imaginem que uma filha vossa se despede e promete que irá ter um filho exactamente igual a vocês.
O momento da morte será o momento da recriação de um ser fisicamente idêntico.
Exemplo: outras fotografias com um corpo e cara igual à vossa surgirão muito depois de terdes desaparecido.
«Vós» sereis o vosso neto; haverá uma paragem genética naquele ponto.
Qual seria a vossa última carta para essa filha?

*

Mais perto do início do que agora, havia seres unicelulares (ainda há!) que não se reproduziam através do sexo; um limitava-se a dividir-se em dois. Um que exista não será filho do um inicial, pois o um inicial nunca morre de facto enquanto houver um que resulte de uma divisão de outro que não desapareceu no processo - nem sequer haverá um «mais inicial» do que o outro pois esse será seu irmão de divisão. Não há vida e morte, há vida e (talvez) crescimento, há outra espécie de imortalidade, menos poética e mais física.
Hoje sabemos que esses seres não mudaram tanto como os que surgiram mais tardiamente com sexo. Em princípio têm também menos hipóteses de resistir a mudanças ambientais, pois jogam menos vezes no totoloto, ou seja, não fazem as apostas multiplas que resultam do cruzamento de dois seres diferentes, de sexos diferentes que produzirão um outro diferente de todos os outros anteriores e que, portanto, apresenta uma nova chave no jogo da sobrevivência.
O caminho natural (obra do acaso das mutações genéticas) inventou o «It takes two, baby» para fazer um bébé. Agora regredimos e substituimo-nos à manipulação genética natural.
Para começar paramo-la (clonagem), qualquer dia substitui-la-emos - refiro-me aos seres humanos, pois com outras espécie é pratica frequente - e talvez surja o «it takes three or four, why not une million, baby?».
Teremos mais um brinquedo para atingir a perfeição, sem acto sexual natural a estorvar - não demorará muito o orgasmómetro de Allen [Woody] para satisfazer os humanos e para não complicar mais a perfeição. Mas a perfeição segundo quem? E que diabo é isso de perfeição no mundo não metafísico? Chamem-me maluco, mas isto faz-me lembrar algumas passagens da discussão sobre o aborto (noutro dia eu explico-me).
No Direito há uma coisinha chamada o abuso do direito que avisa para a existência de limites sobre o exercício de um direito apesar de este ser geralmente aplicável. Será que não deve haver abuso da ciência? Mas quem é que vai responder a estas perguntas? Primeiro era preciso haver políticos generalistas que aconselhados por técnicos (e não mais do que isso) estivessem em condições de começar o processo de discussão.


Quando tiver mais um tempinho gostava de tentar escrever umas coisinhas assim bem reflectidas e sabiamente desgarradas. É que esta semana descobri o menos mau dos métodos para se tomar decisões... Ainda não fiz todos os teste necessários por isso não o divulgo (ainda) aqui na Nature. Talvez haja musa, também para as coisas aparentemente mais denotativas ela é necessária. Por agora, antes de pôr as celulazinhas cinzentas a trabalhar, quase desejo a solução mais fácil: que os clones morram todos de cancro!
Ainda somos muito pouco crianças.
Tenho dito (mas só um bocadinho).

John Doe Rosebud
21 anos, Caipira irritadiço, Grã-Lisboa
E que tal um saltinho aqui? Just a sec.

Segunda-feira, Setembro 01, 2003

O dinheiro

Ofereceram-me Os Tribalistas
Convidaram-me para jantar.
Comprei pela primeira vez a Grande Reportagem.
E ofereci-me a mim mesmo um Equador para ler.

Dia raro, com mais de 24 horas este.
Cof cof

Já não estava habituado a esta porcaria de atmosfera lisboeta.