terça-feira, setembro 09, 2003

Porque me lembrei de Fernando Alves, António Jorge Branco, José Feliciano e de uma história que ouvi contar pela primeira vez há mais de 10 anos assomado a um postigo na rádio .

A parede que fala e tira o sono


Lenura, Beira Baixa, 1957

Na praça do Cruzeiro apenas um galo madrugador quebrava a imobilidade e o silêncio. Nas restantes ruas não havia quem notasse a falta do som das carroças e ninguém ficara apeado quando a carreira das seis não veio. O dia nascia calmo e propício à indolência como convinha aos finais do mês de Agosto.
Perto da novíssima torre do posto de alta tensão, bem no centro da aldeia, o canto do galo e o toque do sino às meias horas rivalizavam com o chilrear crescente das andorinhas que se empoleiravam às centenas nos cabos eléctricos que dali partiam.

Em toda a aldeia, apenas a Ti Chitas vira nascer a estrela da manhã e apenas ela tinha o burro alimentado e o terço rezado quando o Toninho “Baratas” apareceu de mãozitas nos bolsos das calças, pé descalço, cabelo em desalinho e ainda bastante estremunhado na praça do Cruzeiro.
Quem visse o petiz àquelas horas da manhã de domingo, especado a olhar seriamente para a parede lisa e bem caiada da Casa do Povo, ora de frente, ora de meio fio, de perto, depois de mais longe e chegando até a encostar-se a ela e a raspar pedacitos de caliça branca que mereciam exame atento e demorado com todos os sentidos – e que amargo era o petisco! – quem o visse naqueles preparos, dizia, tomá-lo-ia por doido ou por possuído pelos maus espíritos que põem as pessoas a fazer coisas levadas do diabo em pleno santo sono. O que é certo é que não havia quem ali estivesse para apreciar a peça e muito menos havia espíritos malignos que o atentassem.

Achando um mocho encostado ao chafariz do Cruzeiro, o Toninho “Baratas” – alcunha que ganhara nesse mesmo ano por se demorar sempre no recreio a amestrar baratas, bichos-clérigos e demais insectos rastejantes que apanhasse à mão – agarrou-o, pô-lo ao centro da praça e de frente para a parede da Casa do Povo sentou-se, continuando a mirar a parede. Não satisfeito com a posição, levantou-se e tendo chegado junto à parede virou-lhe as costas e contou um número determinado de passos, marcando o local com os olhos e colocando sobre ele o mocho de verga e pau. Sentou-se a si no assento e à sua cabeça de oito anos nas palmas das mãos que acabavam nos cotovelos fincando os joelhos. Assim esteve largos minutos de olhos já bem vivos e cheios de sonhos, a olhar a parede.

O galo que passeava ali perto, voltou a cantar a alvorada sem resultado aparente e topando com o “Baratas” interessou-se e aproximou-se sempre desconfiado. Cantou de novo. Aproximou-se um pouco mais , emproou-se um pouco melhor arrebitando a crista e passeou-se bem na frente do “Baratas” maneando a cabeça discretamente, o suficiente para se assegurar de que não seria surpreendido por alguma reacção; como esta não veio, o bicho enfadou-se e regressou à capoeira mantendo a pose.

Ao bater meia hora, uma brisa mais forte carregou até ao pé descalço da criança um dos folhetos escritos em letras grandes e liláses que encheram as ruas da terra na sexta-feira e no sábado. Sem lhe pegar leu-o devagar, letra a letra, sílaba a sílaba, apesar de já o saber de cor. Depois, sorriu, pôs as mãos atrás da cabeça, olhou as últimas estrelas e soube que elas eram como a máquina de luz que estivera ali ontem onde ele estava agora. Soube então que era mesmo dela que vinham as imagens e os sons que encheram a parede e a praça. O filme que vinha das estrelas era o sol que nascia e o cantar dos pássaros e ele e todas as coisas que há no mundo.

O galo tornou a cantar e o “Baratas” pulou do assento, correu para a parede, parou bem perto, virou-se para a praça e começou uma série de gestos e acrobacias salpicadas por palavras soltas, berros, urros e demais efeitos sonoros que tão depressa pareciam imitar um cavalo a relinchar como um comboio a vapor. Pulou e espalhou cabriolas por toda a praça, fez do mocho o centro da sua coreografia: disparou sobre ele as suas pistolas fumarentas; lançou-lhe um laço levantando muito pó; fugiu dele abrigando-se junto à parede e abraçou-o como se na despedida antes da grande aventura.

A chinfrineira cinéfila acordou o Zé “Taberneiro” que tinha o boteco ali na praça. Chegando-se à porta, despejou a má disposição da ressaca que trazia da noite anterior num imediatamente contido berro de «Caluda!». Com a cabeça a latejar e ainda meio zonzo foi à praça agarrar no mocho que de seguida desfez atirando contra a parede da Casa do Povo e errando largamente o alvo palrador que não desarmou. O Toninho “Baratas” - «Alma do diabo!» - correu a cavalgar acenando um dos folhetos com letras liláses pela Rua Direita a baixo, imensamente feliz, e a gritar espantando gentes e andorinhas: «Não percam o cinema itenerante de José Feliciano em Lenura sábado e domingo! No sábado as aventuras do oeste americano entre cowboys e índios no mais empolgante filme do ano com John Waine: Rio Vermelho! No domingo, o melhor filme de desenhos animados alguma vez produzido: Fantasia de Walt Disney, deixem-se maravilhar com a cor e o som do espectáculo do cinema! Sábado e domingo em Lenura na Praça do Cruzeiro às nove horas da noite! Tragam assentos!».
Portugal - Para Memória Futura (substituto da bengala "alegadamente")

As pontes que caiem só são mesmo notí­cia se cairem ao rio?
As pontes que caiem só são mesmo notí­cia se matarem gente?
As pontes que caiem só são mesmo notí­cia se houver o espectáculo das Forças Armadas (mergulhadores da marinha ou outros)?
Já temos título: "O país das pontes que caiem": Quem escreve o romance? Quem descreve a tragédia?

segunda-feira, setembro 08, 2003

Você decide!

Dentro de momentos vai surgir aqui um texto escrito há seis anos. Um proto-blogue.
Avalie onde o fui buscar:
1. Ao baú?
2. À dispensa?

Para 1. escreva "relíquia" na caixa de comentários
Para 2. escreva "enlatado" na caixa de comentários.
Obrigado.
Enlatado é uma trade mark da Catarina
Em leituras

A ler as últimas lérias do dia.
Íntima

Ponto prévio: leiam a sugestão do Jiminy Cricket nos comentários do post anterior.
Sugestão alternativa: E que tal mandar este link à direcção da TSF?
Queremos assegurar que a Íntima Fracção continua a ter espaço na TSF porque gostamos de a ouvir. Então, além das cópias de outros programas que lhes venham a chegar por correio - à direcção da TSF - com o objectivo de os pôr a ouvir a IF, julgo que o mais importante é fazer acompanhar o tal link com alguma palavras sobre o porquê de não querermos que o programa acabe. Não é spam pois não ganhamos nada em encher a caixa de correio electrónico com bytes - o que aconteceria se enviassemos a cópia do programa - e é algo genuino e pessoal, a opinião dos ouvintes.
Esperemos que nem tudo o que tenha Íntimo(a) no rótulo seja banido, por lei, deste país.
Façam rufar os adufes!

Divulgando o apelo / campanha sugerido pela Cristina Fernandes da Janela Indiscreta ainda sobre a Íntima Fracção.

Será que a nova direcção da TSF já ouviu a Íntima Fracção?
A dúvida ocorreu-me e, francamente, instalou-se. Pelo sim pelo não resolvi gravar o próximo programa e enviar a cassete para o gabinete da direcção. Mas talvez eles precisem de muitas audições para perceberem de que falamos quando falamos da Íntima Fracção, por isso aqui fica o desafio aos ouvintes da IF: gravem a próxima emissão da Íntima Fracção e enviem-na para a TSF. Passem a palavra.


Bolas... Não tenho gravador... Mas há outras formas educadas de fazer ouvir a nossa opinião e tentar convencer a actual direcção do valor acrescentado que estas excepções na grelha da TSF (e da rádio portuguesa) têm para quem as apadrinha. Durante muito tempo desarmei críticos da TSF ("É só notícias e anúncios. Uma seca!") com exemplos como a Íntima Fracção. Sei de alguns que ficaram ouvintes. Se houver quem tenha ouvidos na direcção, se não estiver já tudo decidido, pode ser que tudo corra pelo melhor. Vamos tentar!
Ficam os contactos da TSF presentes na página on-line:

Rádio Notícias, Produções e Publicidade, SA
Edifício Altejo - Rua 3, 3º piso, sala 301
Matinha 1900-823 Lisboa
Telefone Geral: +351 21 861 25 00
Fax Agenda: +351 21 861 25 07 / 8
Fax Redacção: +351 21 861 25 10
E-mail Geral: tsf@tsf.pt

Direcção Editorial:
José Fragoso (Director) jose.fragoso@tsf.pt
Luis Proença (Director Adjunto) luis.proenca@tsf.pt
A Blogoesfera já tem!!
Seja benvindo à Barraquinha das Farturas

Alguém já se questionou sobre como surgiu o Bibelot?
Qual a verdadeira história desse omnipresente artefacto que é uma das formas de divulgação cultural mais populares em todos os continentes? Deixemo-nos por uns momentos de pensar em casas pouco pias, em diáfanas pontes ou viadutos, em auto-comiserações patrocinadas pelas inglórias desportivas, ou mesmo nas dificuldades em fazer o dinheiro esticar até ao fim do mês. Atentem neste... educativo texto do Hyde-Park-dos-pobrezinhos.

«(...)Absolutamente extenuado, o nosso hominídeo apresenta um ar mais fatigado que o padre Vitor Melícias depois de cortar a meta das Quinhentas Novenas de Indianápolis. Num último esforço, arremessa para o chão da caverna a gigantesca presa que acabara de caçar. Um diálogo surreal segue dentro de momentos:

"-Seu, seu...selvagem (começa a chorar)!!! Achas que é aí que vais deixar isso?!! No chão da sala!!?? Bruto!! A minha mãe bem me disse para casar com o vizinho da tribo do lado. Pode não ter essa história do polegar oponível, mas pelo menos é arrumadinho e tem a tanga de pele de leopardo sempre num brinquinho. Já tu...Qualquer dia, vais ver nascer-te na fronte um par de cornos maior que o desse auroque..."
(...)
Finda a refeição, e chupadinho até ao tutano o pobre herbívoro, a discussão recomeça:

"-Mas...ó amorzinho...onde é que eu meto isto?!"
"OLHA, METE ESSE ESQUELETO NO C... Espera lá...com um toquezinho aqui e um arranjinho ali...será...? Quem sabe...Humm...Já sei, vai ficar ali ao pé do sofá, para dar um toque mais acolhedor à sala. Dou-lhe uma traulitada bem dada e fica logo com outro aspecto!! Sim!!! Isto do toque feminino é outra coisa, sem dúvida."
Meus senhores e minhas senhoras, acabara de ser criada a primeira escultura rupestre. Uma singela marretada para esta senhora, um gigantesco salto para a Arte.
»

Se alguém disser que eu conheço o Paulo André (autor do Hyde-park-dos-pobrezinhos) desde os 13 (?) anos eu não nego.
É bom "rever-te" ainda que só em palavras. Um grande abraço.
Algumas adufadas de Domingo, 7 de Setembro

Boa
N Ontem ou Um pedaço de intimidade
O For the record
I O «Pechêgo» (Proto-Blog)
T Morrer
E Pouco para dizer... (act)

domingo, setembro 07, 2003

Pouco para dizer... (act II)
A Íntima Fracção é para ser ouvida com atenção. Não serve: a escuta dentro de carros em movimento que não sejam muito silenciosos; a escuta em rádios colocados sobre os balcões de restaurantes de bitoques; a escuta em balcões de roulottes de venda de cachorros ou farturas; a escuta em pequenos rádios a pilhas sem qualidade aúdio; a escuta em salas de jogos electrónicos. Não serve, mas aceita-se.
A Íntima Fracção é feita para ser ouvida com headphones no quarto; na sala, em boas aparelhagens; nos carros parados ou a andar lentamente; em rádios portáteis na praia (à noite) ou no meio do campo; num quarto escondido e perdido no meio da cidade; sózinho, a olhar para a janela; com as lágrimas ou a esperança a rebentar. A Íntima Fracção é para ser gravada e ouvida quando se quiser. A IF serve para desenhar com os ouvidos.

Francisco Amaral - Íntima Fracção

Mais texto e um pouco da história da Íntima Fracção numa excelente iniciativa da Janela Indiscreta e amplificada na Retorta.

A primeira vez que passei palavra sobre a IF andava eu na faculdade, escrevendo no boletim da Associação de Estudantes e logo aí me cruzei com alguns ouvintes que quiseram partilhar a cumplicidade, o segredo, o encantamento.

Pela minha parte prefiro "num quarto escondido e perdido no meio da cidade", às escuras, deitado na cama, de olhos bem abertos. Como ontem, mesmo que apenas pouco mais de meia hora.
Tudo acaba, tudo recomeça. Espero que o Francisco Amaral continue a ter espaço na rádio portuguesa, comigo a poder ouvi-lo, já agora. Espero que fique na TSF mas se por lá não o quiserem, estou disposto a ir atrás! Já não seria a primeira vez ("Sexo dos Anjos" de Julio Machado Vaz e Aurélio Gomes).
Morrer

Li algures na blogoesfera alguém queixar-se de não se falar muito do que se passa nas nossas estradas por aqui.
Hoje o insólito ajuda.
Hoje quase se morreu debaixo de uma ponte que desabou em cima do IC 19. Uma ponte que tinha sido abalroada por um camião há coisa de um mês e que havia sido reparada na noite de Sábado para Domingo.
Mais uma para juntar à  lista de potenciais causas de óbito... Podia ter sido hoje. Arricámos duas vezes, eu e a M.
De manhã reparei nuns entendidos de colete luminoso à beira da estrada que encerravam os trabalhos. No iní­cio da tarde lembro-me de termos escapado a um ou outro encosto de soberbos As-nos-volantes.
Como nota o Nelson, a ví­tima mais grave tem 28 anos... Assim como nós. Dá para reforçar a identificação e para estimular os neurónios.
Se tiver tempo hei-de voltar a este assunto...
O «Pechêgo»

Ele era a figura da aldeia. Se tivessem de escolher um autóctone para se sentar numa cadeira de verga, bem à sombra da placa toponímica, certamente escolhê-lo-iam a ele, ao Ti Jaquim «Pechêgo».
Estatura média, ligeiramente curvado pelos seus mais de 80 anos, olhava por detrás de uns óculos quadrangulares, largos, que escondiam, ao mais desatento, uns olhos pequeninos sempre muito brilhantes. Nunca abandonava o seu chapéu castanho nem a boa disposição, e se o fizesse, por um dia que fosse, o assunto chegaria seguramente ao café, bem como às conversas de serão. Aliás, a última vez que o recordavam triste remontava já ao falecimento de sua esposa quando tinha então os seus setenta e picos.

Era o velhote mais rijo e alegre daquelas ruas, afinal, quem lhe desse a salvação habituara-se já a levar um sorriso nos lábios, fruto duma chalaça sempre pronta. A sua adega era de longe a mais frequentada e todos lhe gabavam o bom vinho e restante hospitalidade. Dizem-me que, desde que montou a adega, não houve um único dia em que esta não acolhesse convidados e era mesmo uma espécie de ponto de romagem obrigatório a todos os visitantes da aldeia de Benquerença. Tudo lhe parecia dar um ar bonacheirão. Das suas faces permanentemente rosadas veio-lhe a alcunha; dizia-se que não havia sobre a Terra coisa mais parecida com um pêssego que as maçãs do rosto das gentes da sua família.

O Ti Jaquim «Pechêgo» era um caminhante. Adorava passear e fê-lo todos os dias, desde que se lembrava. Conhecia palmo a palmo todas as terras do vale e de todas parecia conhecer “uma parte”, fosse a tragédia de uma disputa por uma certa courela, o segredo de tesouros enterrados durante as invasões francesas em determinado covão, ou os dizeres sobre paixões proibidas que fizeram história, nesta ou naquela choça, bem perto de um qualquer bardo desocupado. Ao longo de oito décadas de casamentos, festejos, provações e mortes a cruzarem vidas por aquelas terras, juntara, nas sua memória, toda a história da aldeia e de boa parte do vale

Imaginem-se agora a seu lado, num dos longos passeios primaveris que fazia pelos caminhos e quelhas do vale, em redor da ribeira, ou então, sob a sombra do arvoredo nos arrabaldes da serra, entre a água de fontes e regatos. Ou ainda, sob o alpendre de cantaria bem à porta da fresca loja de sua casa, durante uma escaldante tarde de verão.
Fiquemo-nos pelo último cenário para apreciarmos uma das artes onde melhor se revelava a sua mestria. Imaginem-se a ouvir algumas das suas longas narrativas...

Sobre um cepo, que já fora, por ventura, encosto para muitas desmanchaduras do porco e para muitos rachões, oferecer-nos-ia um copo de vinho beirão ou de água serrana, ambos bem frescos pelas bilhas de barro. A acompanhar: um naco de pão com queijo ou um apetitoso chouriço caseiro.
Ah! Mas a história! A arte de a contar! Mil vezes a repetisse outras tantas vezes nos deleitaríamos. Primeiro a sugestão. Vinha no meio da conversa sempre a propósito e quase sempre sem nos apercebermos. Quando dávamos por ela, estávamos a esforçar o ouvido para não perdermos pitada. Seguia-se um minucioso enquadramento de toda a acção. Umas histórias passavam-se durante a época das bandeiras negras (a fome), outras quando o padre Álvaro ainda era o pároco da aldeia, mas também as havia da altura em que os filhos da Ti Marques foram apanhados pelos carabineiros com os sacos do minério às costas! Depois, a surpresa era total. Poderíamos ter uma história do anedotário da aldeia, onde não raras vezes dominavam as falas inevitavelmente hilariantes dos intervenientes; poderíamos ter um conto fantástico sobre a origem do nome de um qualquer lugar do vale, como o Terreiro das Bruxas ou o Cú do Lobo; poderíamos ouvir a história da tragédia de uma paixão arrebatadora que percorreu séculos na oralidade da aldeia. Enfim, podíamos esperar qualquer aventura e experimentar as inúmeras sensações que se desencantam e insinuam num conto.
Mas o que fica mais marcado na memória, é todo o ritual que o Ti Jaquim seguia e toda a magia e encanto que fazia desprender de cada passagem duma história. A cada vez que usasse o canivete para cortar um pedaço de chouriço ou parasse para beber um trago de vinho, quase recomeçava a história do início. Seria isso consequência da idade ou matreirice de quem se sabendo com um público que lhe bebia as palavras, aproveitava para prolongar o seu momento de glória, acrescentando aqui e ali um pormenor de que se “esquecera”? Não sei bem, mas sei que fazer uma pergunta tinha invariavelmente o efeito de beber um trago de vinho ou de cortar um naco de chouriço, e sei também que bastas vezes havia quem o interpelasse, saborosamente.

O Ti Jaquim «Pechêgo» já morreu e fê-lo de surpresa, sem dizer a ninguém o que fazer às suas histórias. Um dia devo ter-lhe perguntado se as criava ou se alguém lhas contara e ele ter-me-á dito, com um sorriso largo e encolhendo os ombros, que simplesmente lhe vinham à memória. Provavelmente, algumas contara-lhas o seu pai, outras os seus irmãos, os seus amigos e outras contara-lhas a vida. Mas como vêem não vos posso dar o número da sua porta nem sequer o nome da sua rua, garanto-vos, contudo, que ele ainda por aí anda a contar histórias e a lançar chalaças certeiras a quem lhe dá a salvação numa qualquer rua deste país. «Bom dia, Ti Jaquim! Que tal vão esses ossos?»

.................
O «Pechêgo» é uma personagem, mas é, acima de tudo, o meu bisavô, recordo-o aqui como contador de histórias e como um dos “velhotes” mais populares de uma aldeia. Para mim, é gente com história e com histórias, que está a morrer todos os dias por esse país fora, ainda à espera de ser “entrevistado”. (É mais um proto-blog enviado para o DNJ em 1995)
For the record
From: "Grupo_dos_Amigos_de_Olivenca" | This is spam | Add to Address Book
To: "Rui Branco"
Subject: RE: Bloco de Esquerda recebeu GAO
Date: Sun, 7 Sep 2003 17:27:04 +0100

Já retirámos o seu endereço da nossa lista. Lamentamos o incómodo.
Caso torne a receber algum correio, pedimos que no-lo informe.
Com os melhores cumprimentos,
GAO
Mozambique
Pela primeira vez reparei em alguém que veio visitar o Adufe proveniente de um servidor Africano (Moçambicano).
Se houver blogues em Moçambique digam coisas que eu sou ignorante nesse assunto!
Mais um...
...Cão de Guarda.
Esquerda marche!
Bloguitica Nacional
Ontem
ou
Um pedaço de intimidade

(o filme está no intervalo)

Ontem várias pessoas que só conheço daqui, pessoas que de alguma forma me encantaram ou seduziram por palavras escritas em folhas de livro, páginas de blog ou ondas da rádio, disseram ou fizeram algumas coisas bonitas que me deram um bocadinho de felicidade. Não me queixo de grandes tristezas por estes dias. Já houve tempos mais agros como os da terrível e deliciosa adolescência que poderão tranparecer em alguns textos de proto-blog que aqui tenho deixado (ou vier a deixar). Mas todos os mimos, palavras sábias ou simples registos de atenção ("olá, estou aqui e sei que estás aí") têm um valor intrínseco, imune a relativizações conjunturais próprias da flutuação do amor próprio. Pode até ser que um dia, com ou sem pins identificadores na lapela, os destinos se cruzem de modo a permitir trocar de olhar, conhecer o sorriso, o grão da voz. Há algo de divertido e de estimulante nessa possibilidade. Ainda bem que gostamos de estar com os outros.

(já temos filme outra vez)

Vou aninhar-me no meu amor.
Bem hajam e fiquem bem
A ressureição...

"Blogger and Blog*Spot are currently experiencing a denial-of-service attack. We are very sad about this, but working hard to get it under control. Thank you for your patience."

...Patience...
Viram o remake do Porto-Sporting hoje na TV? (suspiro)
Vou ver o Clint na RTP 1... Espero que tenha final feliz, o filme.
Fiquem bem.

sábado, setembro 06, 2003

Remédio para a gripe? Ofereça-o ao Blogger.
Escrita a sério há aqui. Abram os Olhos!!
Via Não esperem nada de mim.
Moscas no pára brisas

Este dia não existe. Tudo parece incomum, caótico, incompreensí­vel. Surreal.
Onde estou? Num centro comercial em meio de semana, à  hora da matiné. Amoreiras... No átrio de acesso a algumas salas de cinema.
Sentados nos poucos degraus, meia duzia de jovens aguardam a próxima sessão em estranho silêncio; rapazes e raparigas um pouco mais novos do que eu. Neste momento, parece-me impossí­vel imitá-los. Dobrar as pernas está definitivamente fora de questão. Estranho efeito produzido pelo intenso cheiro a pipocas e pela inebriante voz de Chet Baker que completa o ambiente. O que vim aqui fazer?
Desço os degraus, quase tropeçando, e fico junto à  porta de mãos nos bolsos, observando as gentes. Assim estou como que acendendo um cigaro em dia ventoso, espreitando por debaixo da aba de um chapéu. Se me visse ao espelho tinha de estar vestido de gabardine e com um chapéu clássico, completamente cinzento.
À esquerda, a uma velocidade incrivelmente lenta, aproxima-se uma senhora, seguramente octogenária, de braço dado a um rapaz de fato que a ajuda a arrastar-se até à  sala. Ela traz uma peruca castanha com um penteado de há mais de meio século, fazendo-o acompanhar da correspondente maquilhagem. Veste cores claras, castanhos e amarelos, destaca-se o xaile que surge bem ní­tido no conjunto. Todos os gestos lhe denunciam a idade. A peruca afigura-se mais com uma coroa genuí­na, de decano, do que com uma máscara de fantasia. É vaidosa, ainda. O rapaz não a guia, serve-lhe apenas de apoio, permite-lhe a determinação.
Vindo das escadas rolantes surge mais um grupo de jovens, este muito ruidoso, exclusivamente composto de raparigas. Olha ali, diz uma apontando, aquela senhora não é uma atriz dos filmes a preto e branco? A senhora não ouve; observa atentamente uma montra.

*
As portas das salas abrem-se finalmente. Zeno Saint-Lear Da Costa, eu, o fumador imaginário, regresso ao atrio. Espero um pouco curioso por descobrir qual o filme que a senhora da peruca vem ver. Entretanto, o homem da lanterna, que por acaso era uma simpática jovem, vendo-me com o bilhete na mão e com um ar meio perdido, pergunta se não quero entrar. Atiro-lhe um sorri e estendo o bilhete. Certamente, a senhora da peruca vem ver este filme, vem ver o cinema português de hoje. Deve ser.
Ocupo o meu lugar central na penúltima fila e descanso os olhos. Estou aqui para me abstrair de tudo por uma horas. Principalmente da última briga, a definitiva... O grande melodrama: gritos histéricos, choros de mansinho, escandalo com direito a expulsão do restaurante... Relaxa, Zeno.
A música ambiente subiu de volume, Masquerade berrava um corro de vozes. Fantasma da Ópera. Seguiu-se outro excerto de uma opera-rock, uma vozinha angelical afirmava I Don´t Know How to Love Him. Jesus Christ!... Superstar. Solta-se-me um enorme bocejo e volto a fechar os olhos. Está a resultar.
Um momento de silêncio, mas não é ainda o início da publicidade, começou outra selecção. A voz, aquela voz... A mesma voz... Ouço com atenção e com o coração aos pulos... I don't care who I hurt, I don't care who I do wrong... As I cuddled the porcupine, he said I had none to blame, but me. Held my heart, deep in hair, time to shave, shave it off. No time for romantic escape, when your fluffy heart is ready for rape. No!...No time... Que raio de ironia era esta? Aquela voz tão parecida com a da música inesquecí­vel, a «nossa música»! Your fluffy heart is ready for rape?! Senti-me o personagem de uma trama irreal, duma teia feita em plena febre. Eu era um pour boy handkinding thru'the blues. Raios! Diabo de cinema, merda de música. Porque é que não resisti à  normalidade de ter uma música romãntica, a «nossa música»? Saí­ da sala, mas fiquei. Vi um filme e não vi. Nunca fechei os olhos nem chorei. As lágrimas rasgaram-me a garganta e acumularam-se pastosas à  porta do estômago comprimido. Detestava-me impavidamente. Que estranha revelaço se escondia nesta ironia? She is looking at me? Talvez. Rindo.

Nota: excerto de Back in N.Y.C., Genesis, álbum The lamb lies down on Broadway, 1974

(proto-blog do meu ano de mais febril paixão pela rádio - até ao momento 1996)

sexta-feira, setembro 05, 2003

Miguel Sousa Tavares
"Há sempre um exército de crentes disponíveis para legitimar as grandes mentiras da história."

Não é fácil evitar ser um dos "felizes" que acreditam.
Elevador (act.)


É para o 15º, por favor.

I

Ting!

De tantos serem os sítios e situações de encruzilhada que existem neste mundo, todos os dias acontecem pequenos milagres, autênticas aberrações estatísticas.
Como é possível serem dez para as duas da tarde de uma quinta feira e o elevador da torre um das amoreiras disparar para o alto saíndo do rés-do-chão com apenas duas pessoas lá dentro?
Testemunhas do milagre apenas os intervenientes: uma rapariga e um rapaz, ambos na casa dos vinte, ambos auditores em multinacionais rivais e vizinhas.
Ela chegou perto do hall dos elevadores e realizou mecanicamente os poucos passos necessários para chamar a máquina: primido o botão, o primeiro com seta para cima que abrisse as portas era o seu. Não demorou meio minuto até que chegasse e ela entrou. Só reparou que ninguém a seguia, que estava sozinha, quando a noção de espaço foi ampliada pelo espelho que ocupava a toda a altura o interior do elevador. Naquele momento era normal que estivesse a ser condicionada, apertada para os fundos, provavelmente pisada e empurrada. A rapariga despertou do turpor mecanizado e deitou a cabeça para fora, incrédula, espreitou ainda a seta luminosa e confirmou que não havia engano... Ia subir.
Ele entrou de supetão quando as pesadas portas já se fechavam e quase levou os joelhos ao chão com o arranque violento da aparelhagem elevatória em direcção ao sétimo piso, destino pré-programado pela moça.
Não fora a traição do espelho do elevador e nem um olhar teriam trocado. Ela ajeita uma madeixa aqui, um bricozinho acolá; ele vai de endireitar a gravata e de carregar no botão que "já me esquecia".
É o rapaz a pôr o indicador em acção e o elevador a estacar bruscamente entre o 3º e o 4º andar.
Salta um susto do peito da moça que depressa se recompõe dardejando, de seguida, olhares assassinos em direcção ao inocente desaventurado. Ela carrega de novo no botão que diz sétimo piso e depois em outros, mas o elevador não se mexe.

II
Priiiiiii. Priiiiiii.
Nada.
Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Nicles.
A rapariga sopra às madeixas não poupando os pulmões.
Já vai! Ouve-se distante a voz do zelador.
Priiiiiiiiii.
Já vai ! Porra! Tenho de esperar pelo outro elevador para aí chegar!
Só faltava agora o homem ficar preso no outro! desabafa a rapariga para as portas fechadas.
Dizem que havendo companhia, a maioria das pessoas não aguenta estar 8 segundos num elevador em silêncio total... Quando as palavras dela ditas para as portas casmurras ameaçaram pisar a referida distância temporal, o rapaz desenrola a seguinte história, olhando também as portas e pondo as mãos atrás das costas, quase em sentido.
Um dia fiquei preso num elevador na Madeira. Fui fazer uma auditoria na Electricidade da Madeira e ficámos três presos no elevador: eu, o meu manager e o director financeiro da empresa... Era sexta-feira, já passava das sete e o prédio estava vazio. Segundo o director financeiro os seguranças da empresa não faziam rondas durante os fins de semana. Dizia-nos com o seu madeirense macarrónico e com ar preocupado que eram "fortes as probabilidades de termos de passar ali dois dias e meio!"
A ideia de imitar a pronúncia madeirense ainda passou pela cabeça do rapaz mas o sentido do ridículo deu-lhe outros conselhos.
Estávamos enfiados num elevador minúsculo onde mal cabiamos de pé... Tinha para aí um quarto do tamanho deste! O elevador dava para três pessoas e marcava um máximo de 250 quilos. Eu confesso que nessa altura já pesava bem uns 80... O director e o meu manager pesavam juntos, à vontadinha, 250 quilos! Com envergadura a condizer!
Perante a ausência de sinais de enfado, o rapaz a esta altura já fazia gestos largos com as mãos e deixara de olhar as portas...
Passou-se a primeira meia hora e já pensava em água e na comida! Num assomo de esperança... Num quê? Perguntou ela. Assomo, replicou ele sorrindo. Visto não ter havido vestígios de paternalismo no sorriso dele, ela concedeu e sorriu também, moderadamente.
O que eu queria dizer é que me lembrei de usar o telemóvel mas não tinha rede! E estava a ficar... aflitinho.
O rapaz resolveu mostrar um sorriso a apelar à cumplicidade e fez uma pausa no discurso. Ela olhava-o inexpressiva, talvez expectante, talvez não... Vai-se a ver e se calhar aquele tipo de lembranças não estavam com nada num momento como aquele!
Continuou: Ainda não tinha passado uma hora quando a maquineta se pôs a andar. Tinha havido uma falha de corrente eléctrica na Electricidade da Madeira!!
Ela riu-se, ou melhor, sorriu, talvez da anedota, talvez do jeito meio tonto e trapalhão com que o rapaz foi contando a história. E deixou ficar o sorriso nos lábios enquanto se virou de novo para a campainha de alarme.
Priiiiiiiii.
O elevador retomou a sua marcha quase de imediato e parou no 4º andar.
Esperava-os o zelador:
Já está em ordem, arranjámos a avaria. Aliás, não houve avaria, desligámos... foi um circuito, sem querer... e o elevador ficou sem corrente. E vai de coçar a cabeça, fazer um ar traquina e atirar umas desculpas gagejadas. Está como novo!
Não chegaram a sair. Fecharam-se as portas e ela perguntou: Vai para qual?
É para o 15º, por favor.
Perfect strangers ou Ah My Unfair lady!

Nunca mais vou fazer linkes para este blog. Nem eu nem o Terras do Nunca.
Com que então pandilha! A fazer carneirinhos em mar alto... a espuma!
...and yet... I've grown accostumed to her trace!

quinta-feira, setembro 04, 2003

Bom-Bom!

Bom mesmo é este endereço sugerido pelo Jiminy Cricket do Ter Voz

Criámos um espaço de divulgação de temas relacionados com a cultura tradicional de Portugal e do Mundo, através da publicação de notícias, eventos, textos e opiniões sobre a música e dança tradicional. At-tambur.com - Músicas do Mundo é o primeiro espaço na Internet portuguesa com actualização diária inteiramente dedicado à Música e Dança Tradicional de Portugal e do Mundo.

O espaço At-Tambur na Internet é realizado sem fins lucrativos, com total independência relativa às várias associações, cooperativas e empresas referidas em notícias, eventos, discografias e outros assuntos abordados.


Toca a rufar!
O bom:
O Grupo dos Amigos de Olivença já não me melga há dois dias, estou quase a deitar os foguetes (se os bombeiros deixarem)...

O mau:
Ou é técnica de marketing da empresa do anti-virus que tenho instalado ou então estou a ser bombardeado por ataques ao meu computador. Neste caso talvez tenho sido o visitante 2000 deste blogue - curioso! A firewall está aos pinotes! O atacante foi um tal de 81.193.39.109
Deixe-me em paz! Bem haja!

O vilão:
Eu não sou!
Olha! Olha!
1.
Então não é que o Público faz manchete hoje com a resposta à pergunta que deixei no Adufe ontem!

Os primeiros parágrafos são esclarecedores dos factos:

«Ministra das Finanças reduz défice com expediente que criticou ao PS
Rita Siza

A solução de transferência do Fundo de Pensões dos CTT para a Caixa Geral de Aposentações (CGA) para efeitos de redução do défice público recupera uma fórmula utilizada no primeiro governo de Guterres pela então secretária de Estado do Orçamento, Manuela Arcanjo, com a contabilização da integração do fundo de pensões do BNU nas receitas do Estado - uma operação que mereceu, na altura, fortes críticas da actual ministra das Finanças.

Manuela Ferreira Leite acusou os socialistas de estarem a maquilhar as contas públicas com receitas que não conseguiam arrecadar por via fiscal. "Há dinheiros em que nenhum Governo deve em tempo algum mexer", considerava à época.»


Mais adiante além das críticas e pedido de coerência do PS vem uma explicação do PSD via Jorge Neto nos seguintes termos:

«(...)assinala a diferença das "circunstâncias exógenas da conjuntura económica" que caracterizam as duas operações. "As situações não são comparáveis porque nessa altura [1997] o que se colocava era uma questão de mera engenharia orçamental", esclarece, acrescentando que "nesse momento, dar o aval político a essa solução era ser cúmplice de uma estratégia irracional de desvario no controlo das contas públicas". »

Se lermos a citação da Ministra com atenção, na altura em que fez a crítica ao governo PS, não admitia validade ao argumento justificativo agora apresentado pelo seu colega: "Há dinheiros em que nenhum Governo deve em tempo algum mexer". Enfim...

2.
E antes de terminar uma achega ao Abrupto, ainda com base no artigo de hoje do Público. Desta vez a propósito do post do Abrupto que aqui transcrevi ontem.
Atente caro JPP na barbaridade implícita no pensamento do seu colega Jorge Neto na seguinte frase citada pelo Público:
«"Ao contrário de outros como a Alemanha e a França, que não são países da coesão, Portugal não se pode dar ao luxo de falhar e violar as regras do PEC", considera, reputando como "essencial para o prestígio do país e para a retoma da economia" a tomada de toda e qualquer medida extraordinária. "É uma exigência patriótica", sublinha. »
Depois do que lhe li, caro Abrupto, também concorda com esta da "Exigência patriótica"?

E pronto por agora é tudo. Se alguém conhecer outras justificações que não estas aqui relatadas continuo disponível para que me elucidem. Para já a informação disponível permite-me formar uma primeira opinião: não encontro nenhuma bondade, repito nenhuma bondade, mais a mais numa altura em que já todos interiorizamos a necessidade de equilibrar as contas públicas (com ou sem PEC), em seguir cega e habilidosamente um suposto desígnio nacional que acumula sucessivamente graves danos para a economia do pais. Querem exemplos: como é que passa pela cabeça de alguém cortar despesa na vigilância da floresta? E manter essa decisão mesmo depois de entidades avisadas sobre a conjuntura da floresta (lembro-me de ter ouvido os bombeiros na TSF bem antes dos fogos) alertarem para o elevado risco neste ano devido à acumulação anormal de matéria orgânica nas florestas causada por um inverno muito longo e húmido? O pior é que não são precisos muitos erros causados pela tal cegueira - que se calhar, como diz o Abrupto Franceses e Alemães nos vão esfregar na cara - para causarem grandes danos. Mas quem governa não pensa na Lei de Murphy não é caro JPP (lembro-me aqui do seu artigo na última Grande Reportagem).
É a tal história dos custos indirectos e das más decisões políticas.

quarta-feira, setembro 03, 2003

Desculpem voltar tão depressa ao Chinezinho Limpó-pó ali debaixo (a questão do cumprimento do Pacto de Estabilidade) mas...

Mas reparei agora que o Abrupto trata do assunto no seu último post. E como é curto transcrevo na integra deixando um breve comentário de seguida:

A VIOLAÇÃO DO PACTO DE ESTABILIDADE PELA FRANÇA E ALEMANHA

é algo que deve ser seguido com muita atenção, porque pode mostrar como são as relações de poder na UE nos dias de hoje, marcados por uma grande retórica europeísta .

A França, que é um dos países que quer ir mais para a frente com a Constituição, de que se considera pai e mãe com a Alemanha, tem, a propósito da violação do Pacto de Estabilidade, com os seu déficit previsto e reincidente de 4% ,um discurso interno de absoluto desprezo pelo Pacto e de afirmação unilateral dos interesses franceses. O Pacto foi proposto pela Alemanha e pela França com o objectivo de condicionar os pequenos países do Sul, Portugal inclusive, que tinham imagem de "gastadores", e podiam pôr em causa a estabilidade do euro. O Pacto prevê sanções e pesadas. Portugal foi ameaçado com elas ainda bem recentemente. Ora, não se vê que a Comissão mostre grande vontade de as aplicar à França e à Alemanha...
Isto é inadmissível. Espera-se que Portugal tenha a máxima firmeza, exigindo que, o que se aplica a Portugal, se aplica à França e à Alemanha. Se se admite a duplicidade numa matéria que não oferece qualquer ambiguidade, aceita-se a humilhação.


O preconceito que me assalta com os dados que tenho é que a solução do incumprimento português para 2003 (tal como o foi para 2002) é extraordinária, provavelmente irrepetível. Pegando no post do JPP pergunto(lhe):
Será assim tão edificante moralizar, em nome do exemplo português, perante a Alemanha e a França se estes não forem penalizados pela prevaricação que se adivinha?
Eu gostava de estar numa posição mais inequívoca de superioridade moral, com o cumprimento sustentado do PEC, antes de atirar a primeira pedra.

Quanto ao resto das contas que JPP tenta acertar com o seu post escuso-me a comentar sob pena de não ter uma resposta condigna a esta questão mais restrita que coloco. E mesmo assim aguardo com expectativa...
Uma grande adufada para a A Aba de Heisenberg neste post.

Só um parágrafo que já aqui escrevi por outras palavras mas que assim me soa muito melhor:

Irrita-me este debate simplista pica-esquerda, pica-direita, como se as pessoas vissem a realidade apenas com o olho esquerdo ou com o olho direito, como se o mundo fosse um pisca-pisca. Poupem-me, eu tenho esquerda e direita ao mesmo tempo e não me revejo em nenhum dos lados isoladamente. Para analisar este mundo é preciso ver a realidade toda, objectivamente, procurando compreender a complexidade do todo mas tendo em conta a importância de certos pormenores, destrinçando a informação da desinformação sempre que possível. É obra. Por isso, dispenso visões parciais com pala no olho ou enviesadas sempre para o mesmo lado.

Por isso ficaria muito feliz que a ter respostas aos dois posts imediatamente em baixo não começassem a conversa com palas nos olhos.
What happend to Chinezinho Limpó-pó (a)?

O governo vai contabilizar como receitas extraordinárias a dinheirama do fundo de pensões dos CTT arcando com as responsabilidades inerentes (transferindo-as com o respectivo o dinheiro para a Caixa Geral de Aposentações).
Imaginem por um momento que eu sou apenas um cidadão crente na boa fé e na inteligência de quem nos governa. Um cidadão que tem respeitosamente considerado o que nos tem dito o actual governo. É então natural que não perceba a bondade da decisão em apreço. Depois das portagens e afins do ano passado, o défice (talvez) venha a ficar abaixo dos 3% (talvez venha a ser “salvo” como li, por exemplo, na TSf sem as aspas) com esta receita extraordinária. E isso é bom? Melhorámos face ao que fez o anterior governo? Em que medida?
Volto a repetir: agradeço a alguém que se digne ao esforço de me explicar, evitando o preconceito de pensar que já tenho opinião formada, que deve ser um “gajo” do PS ou simpatizante que esta só a mandar postas de pescada...
Alguém se digna pregar a este peixinho com uma explicação se não tão erudita pelo menos tão razoável ao entendimento quanto o famoso sermão do saudosos Padre?
Fico antecipadamente agradecido.
É que não vejo razão nenhuma para auto-censurar estas dúvidas... nem que fosse militante de algum partido da oposição. E já que temos blogues pode ser que tenha sorte.
Bem hajam.

O outro défice
ou
Por que raio hei-de pôr o lixo no Eco-Ponto?

Os produtos reciclados tem valor económico directo – são matéria prima para fazer papel reciclado, vidro, metal, combustível, etc - além de um valor dificilmente quantificado pelos prejuízos que se evitam pelo seu processamento (mais) eficiente.
Mas quem quantifica esta última parcela do custo sabendo que a unidade de medida tem de ser monetária? Este passo é fundamental para implementar o princípio do poluidor-pagador por exemplo… Aparte o apoio técnico que um grupo de engenheiros, economistas e afins pudessem dar, a tarefa no final é iminentemente política. E como sabemos há quem faça escola no governo de grandes países (grandes poluidores) em desprezar esse custo na factura da administração do planeta. O paradigma mais popular desta opção política é sem dúvida o presidente dos Estados Unidos da América mas tem muita companhia. Provavelmente para estes lideres o valor económico directo é desprezável (quando comparado com o apurado na produção de futuro lixo) e o “indirecto” não se enquadra nas premissas dos estabilizadores automáticos providenciados pela estreita lógica de omnipotência do mercado.

Ora bem, pagar já nós pagamos, quer directamente (através da taxa de saneamento básico de cada Câmara, através dos impostos), quer indirectamente (cof cof, infecções, cancros, intoxicações, perda de beleza do meio ambiente, etc, etc) e ainda assim o problema não se resolve, agrava-se. Em Portugal, dizem as estatísticas, o número daqueles que recicla é mínimo… Mesmo com democracia, mesmo com o mercado a funcionar. Algo está a falhar…
De certeza que há solução, ou mesmo soluções…
A indústria da reciclagem já existe, mas o bem lixo não respeita (ou parece não respeitar) as premissas de uma qualquer matéria prima. Este é oferecido, não sem esforço, por quem o produz a um intermediário que o vende. Quanto vale um quilo de papel, um litro de óleo alimentar queimado?…
Sem pensar o estado destas coisas, o que poderíamos fazer para resolver as falhas?
Por exemplo, pagar ainda mais de taxa resolve o problema do não processamento para reciclagem? Que certeza temos em que um aumento na taxa municipal me vai estimular a separar o lixo? Se o vizinho não reciclar a taxa sobe na mesma… Não identifico uma relação directa, tenho de racionalizar a coisa e muitos de nós não estamos para isso, limitamo-nos à sensibilidade imediata para avaliarmos e escolhermos as nossas rotinas do dia-a-dia.

Uma amiga meio a brincar, meio a sério disse-me que se recusava separar gratuitamente o lixo e posteriormente colocá-lo no respectivo ponto de recolha a custo zero. “Não há gajos que ganham dinheiro com o meu lixo? Se me pagassem uma parte do seu valor eu investia tempo e dedicação em seleccionar, acondicionar e entregar o lixo. Porque o meu lixo tem retorno, como pode ter retorno a garrafa e algumas outras embalagens”. Ainda argumentei “Então e a tua preocupação com o meio ambiente, esse seria um teu contributo activo para teres um mundo melhor”…. Está bom de ver que a moça me atirou à cara o vizinho free rider que dá cabo do esquema.

E de facto, pensando bem, porque não consideramos esta hipótese? Se além de campanhas de sensibilização (úteis para que todos percebamos o que está em jogo, que todos “lucramos” com a interiorização do princípio do não desperdício e nos consciencializamos dos custos do nosso lixo) houvesse uma retribuição equivalente a uma percentagem do valor directo do lixo depositado talvez fosse mais fácil e seguro derrotar as lixeiras e reduzir a pressão sobre o planeta. Seguramente que não seria lucrativo produzir lixo para depois ganhar o valor da reciclagem mas seria confortante perceber que o custo de não reciclar é bem maior do que o de sermos os nossos próprios lixeiros.
Carta Aberta ao Grupo de Amigos de Olivença (a propósito de mais um mail, desta vez intitulado “Bloco de Esquerda recebeu GAO”)

Obrigado pela informação que têm prestado.
O que se passou com Olivença faz prova da palavra do estado Espanhol. Contudo, o período de recurso, o apelo pelo não cumprimento da sentença que transitou em julgado já acabou. Por isso registemos a estória na História, sejamos previdentes se houver outra situação parecida no futuro e encerremos a história fechando a delimitação fronteiriça.
Há tantas boas causa que precisam de energia para levarmos este país para a frente...
Agradeço que me retirem da mailing list na qual não me recordo ter feito inscrição. Respeitem a minha decisão e provem a vossa boa educação como bons portugueses. Com os melhores cumprimentos,
Rui MC Branco

Já me ri a valer esta manhã.

Ora espreitem lá este ping pong...
Fui ver a Lua e gostei!
Para fechar a noite: um tipo bom de medo

«(...) Como quando no escuro do teatro tememos ser atravessados pelo olhar de um actor, isolados da multidão, revelados, puxados para o palco. (...)»
Fernanda Câncio in “Comprar, vender, homem, mulher”, Notícias Magazine nº 269, 20 Julho 1997, p. 47.
Tenebroso é o estado de espírito de um Sportinguista nesta noite... Tomem lá disto (uma Proto-posta de há uns anos)

Caso Esquisito (quase) Verídico

Gaspar era um rapaz decidido: gostava de salada de pepinos, de pimentos assados e de beringelas fritas em cobertura de ovo enfarinhado em trigo. No bolso, raras vezes o apanhavam sem uma alfarroba meio trincada.
Gaspar era ainda pequenino.

O Gaspar está preso num sítio muito branco e muito negro; é mesmo um daqueles pardais-de-prisão.
Entrou pela primeira vez na cela com um «Estou frito!» no pensamento e, desde então, não deixou de pensar a uma velocidade alucinante, como nem sequer se sabia capaz.
A imagem dele e do seu pai fazendo de almas penadas nas noites estreladas de fim de Verão, prescutando as oliveiras à caça de pardais, ele com a laterna e o pai com a pressão de ar, tem-no perseguido em muitas noites mal dormidas no cárcere. «Pardais fritos, estaladiços, humm...Bem bom!» aventava ele aos colegas de escola em conversa de meninice, a armar em grande caçador e apreciador de iguarias exóticas.

Um dia...
Gaspar era já rapazote, de barba bem formada, sempre amigo dos seus amigos de paródia: «Vamos pregar uma partida à Soraia?» e foram.
A Soraia estava na escola, no balneário das raparigas com mais três cachopas - e cachopas assentava-lhes na perfeição...
Num abrir e fechar de olhos viram-se trancadas lá dentro com um balde de pimentos vermelhos bem queimosos a arder. Com o reboliço espalharam-se os pimentos em brasa pelo chão enquanto o balde ardeu, a um canto, libertando um fumo negro e sufocante que depressa encheu o pequeno balneário. Noutro abrir e fechar de olhos... morreram.
Gaspar riu-se que nem um perdido com o resto da malta e que nem um perdido ficou quando a algazarra no balneário amainou e, por fim, se extinguiu.
Então, acabou-se a poesia popular ao castiço.

Hoje Gaspar já não gosta de pepinos, pimentos, beringelas e alfarrobas; é mais alpista e hospício. «Estaladiços, humm!... Bem bom!» repete em voz alta entre dois pensamentos insondáveis para quem o não está a ouvir.


terça-feira, setembro 02, 2003

Gostei de ler agorinha
O Crime de ignorar do Migalhas.

Citando...
Todos nós provavelmente já experimentámos a desagradável sensação de que podemos um dia morrer estupidamente. Seja num acidente automóvel que evitámos à última hora, numa pontada de dor no peito, nas imagens de um atentado terrorista. Nesses momentos, alguns de nós, pensámos que não era ainda a hora de morrer. Que tal antecipação era injusta. Faltam-nos ler tantos livros, procurar e atingir objectivos, fazer novos amigos, beijar futuros filhos. Sentimos a ténue linha imprevisível que nos sustenta entre o existir e o deixar de ser. Esse medo, receio, é saudável. Mantém-nos agarrados à vontade de ser, aprender, pensar, crescer, interrogar, afirmar, envelhecer, amar e viver.

Um recente estudo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada revela que "Com base num questionário feito a 234 estudantes do ensino secundário da cidade de Lisboa, de ambos os sexos e com idades entre os 15 e os 21 anos, a investigação revela que 48,2 por cento das inquiridas já desejaram estar mortas, enquanto 35,6 por cento pensaram em suicidar-se.
Quanto aos rapazes que pensaram em pôr termo à vida, foram 19,1 por cento, embora já tenham desejado estar mortos 25,3 por cento."

Andamos preocupados com tudo e, ao mesmo tempo, andamos cegos. Discutimos o terrorismo, a casa pia, o bigbrother (minúsculas propositadas), o M.E.C, o calor, o fogo, as músicas de verão, este blog, aquele blog, o outro blog. Acusamos o umbiguismo, o Prado Coelho e o Luís Delgado. Veneramos uns, atacamos outros, ignoramos muitos. Ignoramos aqueles que nos rodeiam, ignorando assim um grave problema invisível: Aqueles que não vêm nas notícias e acabam por transformar-se numa das notícias mais tristes do nosso país.


Salto para o hiper-espaço aqui.
Botou fogo!

O dia em que o meu Sporting ficou em picadinho nas Antas... 2 de Setembro de 2003. Uma grande Adufada para o Porto.

Já que fomos comidos o melhor é beber um porto para afogar as mágoas!
«(...) Tivemos 7 tamagotchis e fomos felizes para sempre, que fica, como sabem, em parte nenhuma»
Sarah Adamopoulos, Ciberia, TSF, 1996(?)


As cerejas
A primeira:
«E se bem viveram, melhor morreram.»

As outras:
Um dia lí ou ouvi, já não sei bem, um escritor dizendo que o primeiro passo para escrever um romance é encontrar um final, um final mesmo antes de se construir o resto. Sei que franzi o sobrolho e cocei a cabeça; apesar de adorar sobremesas.
Lembrei-me do dito do escritor quando, num espantoso documentário em filme de curta-metragem sobre o país Basco, realizado por Orson Welles no imediato pós-II Guerra Mundial (exibido na RTP 2), fiquei a saber que as estórias de encantar bascas têm este fim: «E se bem viveram, melhor morreram» - assombradoramente diferente do nosso conhecido «E viveram felizes para sempre».
Podem-me chamar maluco, mas, assim que acabou o documentário, veio-me à cabeça um verso do «Fim» de Mário de Sá Carneiro e fiquei com uma vontade enorme de saber como é que um burro ajaezado à andaluza se distingue de um outro ajaezado de outra forma. Queria que alguém me contasse, em palavras fresquinhas... Para a troca tenho pelo menos um «Bem haja» guardado...

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(As linhas ali de cima são mais um prot-blogue de 1996 que traz ainda outro excerto desse outro Rui de então:
Estou a ouvir o primeiro «Cyberia» na TSF - e estaria a ouvi-lo na XFM se... - e digo-vos que é uma coisinha danadinha de boa: é original, delirante, arrepiante e, a espaços, hilariante: faz cocegas!!!...Virtuais.)

E agora num blogue perto de si.
For the record...

Dificilmente poderia estar mais de acordo com o que têm dito nos últimos dias estes dois blogues Catalaxia e Matamouros sobre o caso Casa Pia.

O debate ontem na Sic Notícias foi... estimulante. Começa também a ser aos poucos responsabilidade da minha geração (a mesma do Juiz Rui Teixeira - praticamente) melhorar este país. Impregnar o aparelho judicial dos fundamentos de um estado de direito (democrático) é preciso.
Aconselho-os vivamente a não irem a este blogue.

Não passa de um chorrilho de mentiras e calúnias!
Acusação de congressista americano
Administração Bush acusada de distorcer a ciência para favorecer as suas posições

in
Público de 2 de Setembro de 2003.

O que há de bom na administração Bush?
Memórias de um Proto-Blogue VIII

Escrito há sete anos e agora ressuscitado. O espanto de me espantar comigo! Amen.

Programa «Última Carta» Anotado

I

...Registo Final - Capítulo VIII
...Última semana de condicionamento
...Programa Última Carta
...Gatilho específico para o programa na série 414 de clonskização em neo-alga mais:
«Hello Dolly» (a melodia suprema)

...Conteúdo moral psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu sou feliz.
Pertenço ao grupo de inteligência máxima.
Sou diferente e melhor do que os sub-neo-alga mais.
Sou fiel depositário da segurança da espécie.
Replico exactamente os «Perfeitos» escolhidos nos primórdios do tempo da Grande Ovelha.

(Pausa)

Cumpri.
Segui o caminho para ajudar no Fim Superior da Espécie.
Fui Soldado Alguíssimo e destrui o Cancro.
Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] continuo para sempre.
Serei a espécie de amanhã.
Em nome da Grande Ovelha: Hello Dolly!»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] devo ajoelhar-me.
Erguer os braços perpendicularmente ao solo.
Devo juntar as palmas das mãos sobre a cabeça entrelaçando os dedos e assim ficar até ouvir o Condicionador Supremo.»


...Conteúdo moral psico-induzido disparado ao terminar o último acorde ou quando a melodia seja interrompida:
«A voz que ouves é a do Condicionador Supremo.
Presta atenção e cumpre.
Presta atenção e cumpre.
Deixa que continue o fim do fim.
Hello Dolly, [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky], Hello Dolly»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado no momento do fim da melodia suprema ou quando esta seja interrompida:

«Devo assumir a posição fetal.
Devo entrar em atrofia total de funcionamento cognitivo consciente.»


...Repetir programa «Última Carta» cem vezes, durante a semana de condicionamento.


...Programa Borracha Atómica para branqueamento do condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais
...Gatilho descondicionador geral: «This isn’t Luis!»


...Fim do processo global de condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais.

...Director Geral para o programa «Última Carta»
...Alf Joca Novsky

...Sumo Ovino da Série VIII
...Nostradamos Fédon Memé

...Hello Dolly!

...Clonecity-in-bocanovsky, Oitava Ovelha (740,34).


NOTA: Paródias incidentais ao livro «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley


II

Se morresse hoje, não deixava carta nenhuma.
Não tenho absolutamente nada a dizer, tal como não tenho nada a dizer quando morre um amigo da minha idade (ou que ande lá perto). Nessas alturas demoram a vir as palavras.
No máximo praguejava, coisa que faço raramente, mas que, de tanto uso e abuso que tem por aí, não se traduziria em nada de significativo para quem me ouvisse à distância.

*
Não é preciso chegar à bocanovskização:
Imaginem-se no vosso leito de morte.
Imaginem que uma filha vossa se despede e promete que irá ter um filho exactamente igual a vocês.
O momento da morte será o momento da recriação de um ser fisicamente idêntico.
Exemplo: outras fotografias com um corpo e cara igual à vossa surgirão muito depois de terdes desaparecido.
«Vós» sereis o vosso neto; haverá uma paragem genética naquele ponto.
Qual seria a vossa última carta para essa filha?

*

Mais perto do início do que agora, havia seres unicelulares (ainda há!) que não se reproduziam através do sexo; um limitava-se a dividir-se em dois. Um que exista não será filho do um inicial, pois o um inicial nunca morre de facto enquanto houver um que resulte de uma divisão de outro que não desapareceu no processo - nem sequer haverá um «mais inicial» do que o outro pois esse será seu irmão de divisão. Não há vida e morte, há vida e (talvez) crescimento, há outra espécie de imortalidade, menos poética e mais física.
Hoje sabemos que esses seres não mudaram tanto como os que surgiram mais tardiamente com sexo. Em princípio têm também menos hipóteses de resistir a mudanças ambientais, pois jogam menos vezes no totoloto, ou seja, não fazem as apostas multiplas que resultam do cruzamento de dois seres diferentes, de sexos diferentes que produzirão um outro diferente de todos os outros anteriores e que, portanto, apresenta uma nova chave no jogo da sobrevivência.
O caminho natural (obra do acaso das mutações genéticas) inventou o «It takes two, baby» para fazer um bébé. Agora regredimos e substituimo-nos à manipulação genética natural.
Para começar paramo-la (clonagem), qualquer dia substitui-la-emos - refiro-me aos seres humanos, pois com outras espécie é pratica frequente - e talvez surja o «it takes three or four, why not une million, baby?».
Teremos mais um brinquedo para atingir a perfeição, sem acto sexual natural a estorvar - não demorará muito o orgasmómetro de Allen [Woody] para satisfazer os humanos e para não complicar mais a perfeição. Mas a perfeição segundo quem? E que diabo é isso de perfeição no mundo não metafísico? Chamem-me maluco, mas isto faz-me lembrar algumas passagens da discussão sobre o aborto (noutro dia eu explico-me).
No Direito há uma coisinha chamada o abuso do direito que avisa para a existência de limites sobre o exercício de um direito apesar de este ser geralmente aplicável. Será que não deve haver abuso da ciência? Mas quem é que vai responder a estas perguntas? Primeiro era preciso haver políticos generalistas que aconselhados por técnicos (e não mais do que isso) estivessem em condições de começar o processo de discussão.


Quando tiver mais um tempinho gostava de tentar escrever umas coisinhas assim bem reflectidas e sabiamente desgarradas. É que esta semana descobri o menos mau dos métodos para se tomar decisões... Ainda não fiz todos os teste necessários por isso não o divulgo (ainda) aqui na Nature. Talvez haja musa, também para as coisas aparentemente mais denotativas ela é necessária. Por agora, antes de pôr as celulazinhas cinzentas a trabalhar, quase desejo a solução mais fácil: que os clones morram todos de cancro!
Ainda somos muito pouco crianças.
Tenho dito (mas só um bocadinho).

John Doe Rosebud
21 anos, Caipira irritadiço, Grã-Lisboa
E que tal um saltinho aqui? Just a sec.

segunda-feira, setembro 01, 2003

O dinheiro

Ofereceram-me Os Tribalistas
Convidaram-me para jantar.
Comprei pela primeira vez a Grande Reportagem.
E ofereci-me a mim mesmo um Equador para ler.

Dia raro, com mais de 24 horas este.
Cof cof

Já não estava habituado a esta porcaria de atmosfera lisboeta.

domingo, agosto 31, 2003

Ter uma religião é um anacronismo pré-histórico ou ainda somos demasiado imperfeitos para compreender Deus?

A pergunta ali de cima é quase irrelevante, ou melhor, a sua resposta. Há um desabafo que tenho de aqui deixar nas linhas que seguem.

Que vê um agnóstico, ateu e/ou herege à sua volta que lhe leve a desejar uma aproximação à religiosidade proposta por qualquer das religiões dominantes (Judaismo/Cristianismo/Islamismo, por exemplo)?

Fui educado e admiro muito do que me propõe o cristianismo. Pratico-o inconscientemente e conscientemente de diversas formas. Em larga medida não distingo o que sigo do que vou ouvindo de outras religiões monoteistas. Mas prefiro o desconforto de não imaginar um final seguro e compensador, um sentido certo para as minhas dúvidas )ainda que esta não seja condição existencial de muitos admiráveis convertidos, felizmente). Prefiro não ter certeza quanto a um céu para o qual o caminho se faz através de uma cartilha demasiado categórica e exclusivista. Uma cartilha que ainda assim poucos seguem e reconhecem na vida mundana, pelo que vejo e conheço.
É-me cada vez mais difícil distinguir os benefícios de partilhar um credo, um livro sagrado.

Quanto mais vejo o oposto do que se professa mais me revoltam os rituais. Quem não é contra alguém? Tu que tens religião, que segues um Deus, respeitas-me? De onde me olhas?
Pensa o que dizes, ouve o que lês no teu Livro e depois olha em volta. Espero poder pedir-te isso, pelo menos.

Respeitar a vida.
Reconhecer o Amor e vivê-lo, lutar por ele sempre.
Exigir o respeito, a integridade, a honestidade.
Procurar evitar o erro, limitá-lo com a emenda.
Questionar, tentar responder.

Imagino o mundo seguindo pouco mais do que isto. Quem me nega esse direito? Onde colido com as tuas crenças? Porque não nos entendemos? Porque não podemos duvidar em conjunto? E viver, discutir, sorrir, amar, morrer?

O medo e a estupidez são de facto o maior programa de destruição em massa promovido por seres vivos. Sempre foram e continuam a ser.

Enquanto durar e até melhor esclarecimento vou seguir o meu caminho.

Bem hajam! Dizer “bem hajam” é desejar-vos bem, que o bem esteja convosco, mas é também pedir-vos uma certa forma de agir, de estar, universal e irrenunciável. Como se houvesse algo além dos Deuses. Fiquem bem!
Bed time stories I

Era uma vez um lider religioso da tribo xiita. O líder falava para a multidão de crentes e apelava ao respeito pelas tropas americanas que haviam eliminado a máquina que oprimia os membros da tribo. Minutos depois perecia com mais 80 dezenas de concidadãos num atentado.
No dia seguinte, enquanto em procissão se chorava a perda, os enlutados afirmavam que não se subjugariam ao invasor, que não o tolerariam.

Quem pôs a bomba senhor Poirot e porquê?
Será que temos Íntima Fracção hoje?

O que é a Íntima Fracção? Talvez uma bela resposta ao que é a noite... Ou talvez não.
Férias II: Dia 29 de Agosto

Finalmente Monsanto. Depois de tantos anos de reverência a cada passagem entre Castelo Branco e Penamacor, finalmente Monsanto.
Sempre tive o granito por perto, mesmo aqui cerca de Lisboa. A Mãe estava lá, na figura de Sintra. Sempre gostei de escalar a serra: Santa Marta, Galeota (Sortelha a Velha), Sortelha, Estrela, São Macário, Montemuro, Penha Garcia, São Mamede, Marvão, Monchique, Monsanto...
A charneca de Namora, o rio Pônsul dos Romanos e da magnífica Egiditânea (Idanha-a-Velha), os contra fortes de Penha Garcia, as primeiras terras de Espanha, as planuras do Alentejo que de adivinham em direcção ao Rosmaninhal. A Gardunha, a Estrela. Tanto que se vê do alto de Monsanto.

E que mais tem Monsanto (em duas horas de estadia) tem a história das pedras e dos homens contada como em poucos lugares. Tem gente que se espanta a cada esquina e tem gente que se envaidece com a "Sua rua". Senhoras de cabelos grisalhos, com ou sem Marafonas para vender, convidam-nos a descer pela sua rua. "Há que variar!", " Então a nossa rua não é também bonita?" perguntam-nos do alto balcão (festival de flores em pequenos canteiros) quando nos decidimos por aquela quelha. "É pois!" respondo como se o Turista fosse. O único e teimoso turista que todos os dias por ali se aventura.
Entre a Igreja e a casa de Fernando Namora ganho um Adufe, um dos autênticos de pele de porco esticada . Singelo, de poucos floreados, como sempre o imaginei e conheci desde menino. Tira verde a prender as peles, remates de trapo coloridos nos vértices, pedras e guizos no interior para convencer a bela raiana a virar costas a Castela. Soubera eu tocar! Para o ano há mais.
Férias I: Dia 19 de Agosto

Depois de uma curva apertada em direcção a Arouca na estrada Castro Daire - Castelo de Paiva:

Eucaliptos e mais eucaliptos, novas sementeiras. Ao longe imaginava vinhas novas, novos socalcos. Os perfumados da Austrália, afinal.

Outra curva apertada sempre subindo até chegar a uma curiosa terra por ter curioso nome: Pirraça:

A TSF vai avisando "as autoridade das Nações Unidas afirmam que Sérgio Vieira de Melo se encontra gravemente ferido"... De imediato lembro-me de Rabin. O baque foi parecido sem dúvida... Se fosse mais velho talvez então me lembrasse também de Sadat... Nem só o terror se alimenta de mártires.

Começa a descida, surgem as ravinas, as pontes mágicas, Arouca:

O que se vê em duas horas? Em Arouca está-se. Não a imaginava repouso dos guerreiros do Porto mas parece ser... Além de ser por si, com gente nos bancos das praças, conversando, mirando os estrangeiros. Cafezando a meio da tarde, passeando no Jardim. Onde se come um bom pão de ló? Mais além, já a sair, diz-nos a simpática funcionária dos correios que nos resolve a urgência que nos manda Lisboa.

Segue-se Castelo de Paiva, o Douro, um pulo a Entre os Rios e uma outra Marginal a juntar a tantas outras até Cinfães. Por fim, o regresso, até ao último sítio do mundo, o último a desaparecer no fim dos tempos, no alto da Serra do Montemuro. O regresso aos enigmas, às siglas misteriosas da Ermida românica do médio Paiva. O regresso à companhia das bogas, das trutas, libelinhas e alfaiates. Que belo Algarve como se entre Lagos e Sagres, sem a dúvida das ondas, com a constância da água entre o granito. Um beijo apaixonado. Uma teimosia em resgatar um momento feliz.

sábado, agosto 30, 2003

TSF

Registo de coisas más por um ouvinte:

O Flashback acabou.

O desporto em directo (no futebol) resume-se aos três grandes. Nem o Leiria na Europa entrou no orçamento...
Ora viva!

Estou a tentar pôr a escrita em dia. Foram 15 dias de ausência total destas lides (sempre por terras das Beiras).
Desde já peço desculpas pelo atraso no comentário aos comentário que foram aqui deixando mas foi por uma boa causa. Por umas serenas e bem desejadas férias saltitando de recanto em recanto junto de quem mais próximo me fala do coração. Desconfio que enchi mais um belo álbum de saborosas recordações que vão directas para a farmácia de medicamentos a usar em dias de necessidade.
Quanto ao blogue estou espantado com as visitas regulares em tempo de férias e julgo que nesse mesmo entretanto o Adufe foi referido por um bom punhado de bloggers - julgo porque o technorati depois de breves instantes onde mal entrevi as referências flipou. Lá chegaremos.
Agora se me dão licença, ainda antes de voltar às minhas palavras, vou espreitar um bocadinho das palavras dos outros. De que Agosto ou Agostos falaram?...
Até breve. E bem hajam.
Quack! I'm back!

Até mais logo à noite!

sábado, agosto 16, 2003

ESTOU DE FÉRIAS: Para se entreterem...

Além dos interessantíssimos posts que se amontoam lá mais em baixo [vou de férias atrás da humildade perdida :)] podem sempre estudar esta brilhante árvore pato-lógica!


Ultima nota

Só uma nota final para o Carimbo cujo regresso, depois de uma curta ausência, saúdo.
Ainda o General Silva Viegas (e para fechar da minha parte).
Julgo que os argumentos estão quase esgotados pois encontro resposta às últimas considerações do Carimbo no meu último post sobre a matéria e provavelmente o sentimento é mútuo. Mas... Por simpatia com os defeitos do Carimbo que partilho (o da teimosia) regresso à polémica General Silva Viegas (GSV) (d)enunciando hipóteses alternativas às conjecturadas pelo Carimbo. Espero que, apesar de tudo, esclareçam o que me levou a tomar a posição que tomei.

Imagine que o GSV foi de facto humilhado no exercício das suas funções. Imagine que o ministro da defesa lhe pediu favores às margens do exigível pelo regular exercício das funções do CEME (por exemplo, a história que GSV julgo ter confirmado da tentativa de atropelo no esquema de promoções de oficiais) e imagine que o PR conhece e reconhece estes factos.
Naturalmente, o PR sabe mais do que qualquer um de nós que nos envolvemos na polémica.
O PR não pode usar a bomba atómica forçando Durão Barroso a demitir um ministro da Defesa que é simultaneamente o garante de uma maioria absoluta. Ou melhor, poder pode, mas não quer, nem considera, apesar de tudo, justificado. O dano para o País seria demasiado grave, desproporcionado.
O PR pode, no entanto, fazer uma afirmação política elogiando o comportamento do GSV e desta forma rejeitando qualificar como injustificados os motivos da sua saída e limpar o Exército da humilhação a que foi sujeito na figura do CEME pelo Ministro da Defesa.
Se não o fizesse perderia o ascendente moral conquistado e que tem de manter sobre as tropas enquanto chefe supremo das mesmas. Por outro lado, estaria a corroborar integralmente o comportamento do Ministro da Defesa. E que eu saiba nada obriga o PR a imaginar um conflito entre políticos e militares no qual seja obrigado a tomar o partido dos primeiros, seus pares (?), sabendo que a asneira fôra destes.
Ou seja, o PR teria preferido a demissão de PP, mas o caso não foi suficientemente grave para se dissolver a Assembleia pois, poderá ter sido esse o cenário oferecido por Durão Barroso perante o hipotético pedido de exoneração do Ministro da Defesa que Jorge Sampaio tenha feito. Muito provavelmente Jorge Sampaio não terá chegado a colocar a proposta na mesa por saber de antemão a resposta... Hipóteses e mais hipóteses.

Mas a leitura que eu tiro dos elogios ao GSV é exactamente esta. O PR acompanha há quase uma década o relacionamento entre o poder político e os militares, sabe até onde se pode esticar a corda e sabe o que fazer para limitar avarias e repor a justiça com os meios que a constituição coloca ao seu dispor num regime semi-presidencialista. O PR colocou o ónus da culpa claramente no Ministro da Defesa, ele foi o infractor que promoveu a invulgar saída do CEME. Por outras, o CEME reagiu... E lembro que mesmo tendo-o feito como o fez, arrancou rasgados elogios do Ministro da Defesa(!). Se isto não é de pasmar... Claro que não é de pasmar. Não é porque PP já sabia o que o esperava. Sabia o que tinha feito e sabia o que o PR iria fazer. Em nenhum momento iria tomar as suas dores. Logo, toca de confundir tudo e todos ridicularizando-se em encómios e mais encómios ao demissionário Genral Silva Viegas. Enfim... Mais do que isto não sei dizer. Se quiser(em) continuar a catalogar o comportamento do PR como um favor ao PS... do presidente de todos os portugueses socialistas... É um direito que teimosamente lhe (vos) assiste :)

Até à próxima polémica que eu agora vou a banhos... fluviais!

Vou de férias...

Regresso em Setembro.
Hei-de trazer o som de um adufe pesaroso lá das terras da Senhora do Almortão. Mas ainda vou com a esperança de ver verdejante o último concelho do Distrito de Castelo Branco que não foi fortemente manchado de cinzas.

Deixo-vos mais um texto de um proto-blogue. Algo que escrevi de supetão há 5 ou 6 anos para o DN Jovem. Um resumo de uma pseudo emissão de uma TSF de há 500 anos.
Encerro por agora uma espécie de ciclo que me tem acompanhado (estranhamente) nas últimas semanas. Um ciclo sob o signo do judaísmo. Hei-de passar por terras de judeus nestas férias.

Subscrevo-me,
Um herege respeitador.
Fiquem bem e bem hajam.
PROGROM: Para mais detalhes sobre o texto ali em baixo dê um saltinho aqui. Um site de judeus do Brasil.
Memórias de um proto-blogue VII

Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional

«A Portugal FM apresenta:
Novos Mundos
Espaço de informação e debate com Gonçalo Cortez.

Gonçalo Cortez (GC): Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edição de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. À nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da graça de 1516. A azáfama visível na beira rio é bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capitão, sendo este, se não estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espaço de entrevista temos o grandioso Paço da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capitão. Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes. Sua majestade revelou um sorriso constante e apresentava um semblante calmo e um olhar confiante. Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.

Publicidade: Grande venda de escravos do Mestre André! Amanhã, na praça do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresentação machos e fêmeas provenientes da melhor terra de Africa. Você merece! A venda terá lugar de manhã, pelas dez horas. Não se arrependa depois, apareça! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...

GC: Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos são lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. À minha direita tenho Damião Vicente, de 26 anos. Damião foi antigo soldado na India com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e de momento é animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, não tem laço familiares. À minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra. Agradeço a vossa disponibilidade para estarem presentes nesta entrevista.
O assunto principal que pretendo abordar convosco é a “Matança de Pascoela” sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opinião e de fazermos o balanço da situação nestes dias, proponho que ouçamos uma peça preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...

AT: Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impotência. Os habitantes procuravam através de rituais e cerimónias sagradas manter a fé. Reforçavam-se os apelos à misericórdia divina.
No dia 8 desse mês, comemorou-se o Domingo de Pascoela, por toda a cidade se realizaram procissões e serviços religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doença e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida sã. Segundo mais tarde apuraram os conselheiros do rei e os nossos reporteres, no Mosteiro de São Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de cristão-novo. Em pleno serviço, aos gritos de “Milagre!”, entoados pela massa ávida por revelações e apoio divino, sobrepuseram-se as considerações de uma alma menos crédula. Uma luz ou um sinal? Um cristão-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multidão indignou-se perante a negação da sua visão e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o «Assassino de Jesus!». Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de cristãos-novos, às mãos de outros lisboeta, atiçados por ditos “puros” da fé cristã. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade. Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordenações sobre os cristãos-novos, puniu severamente os “puros” e mais 50 de Lisboa morreram em consequência; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores do rei e o país ou se calou por vergonha ou ficou num murmúrio cúmplice. Hoje, passados 10 anos, são ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa vivência entre todos os de Portugal.

GC: Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.
Já a seguir à publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.

Publicidade: Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade, se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente, se tem problemas com a digestão ou se a comida não lhe sabe bem, se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha à loja de António Pais de Açafrão, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na capital! Desde as especiarias mais raras da Asia, às mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa. Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de Açafrão, à Rua Nova dos Mercadores.

GC: Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da “Matança da Pascoela”?

Mafalda Capitoa (MC).: Eu não tenho nada contra essa gente. Eu não lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. São uns falsos! Mas isso é lá com eles, não tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus não é cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que não me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem. Agora, nesse dia da Matança, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma, depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfarçavam! Naquele dia, disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em São Domingos, eles fizeram chacota do Espirito Santo que apareceu no altar!! O que é que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos à praça e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros cristãos ele teria permitido tamanha perdição?

GC: Como interpretou a reacção do Rei?

MC: O rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e não foi bem informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte e assim sendo não é dificil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já eramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas é assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo do rei já passou há muito tempo! Não o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um poço de sorrisos e boa disposição, home!

GC: E você, Damião Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matança como a de há 10 anos?

Damião Vicente (DV): Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se o Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! Não traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no juizo final! Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles não morriam de peste como nós? Não traziam no olhar o desepero de quem tinha perdido meia família? E que história é essa de fazerem chacota do Espirito Santo que apareceu em São Domingos? Eu, com estes, já vi o tal “Espirito Santo” dezenas de vezes no Mosteiro de São Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela época! Era uma reflexo, sim senhor! E se não fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem fé? Quem nunca duvidou entre os cristãos? Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! Vêm do interior, vêm de além mar, têm cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que não sabemos, conhecemos ou não podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e união que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, à sua imagem e semelhança!

MC: Tanto que peleja por tão pouca gente, Damião Vicente animador de sua majestade!

DV: Tanto que se resolveu com a Matança de Pascoela peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?

MC: Porventura desapareceram todos os cristão-novos da nossa cidade?

DV: E não tem vossemecê nada contra “tal gente”!!

GC.: Bom, não me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opiniões, mas penso que os nossos ouvintes já têm dados suficiente para reflectir sobre o que dissesteis. Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressasseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostarieis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.

MC: Já não é para falar dos judeus?

GC: Não. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opinião. Pode ser que alguém nos ouça...

MC: Olhe o que está mal é que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que é um dó. Pois se veêm que temos cá escravos que cheguem e que não há quem lhes dê ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles vêm de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! O Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem. Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem braços havia para tocar o sino! Pois não estava um homem como convém em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crianças! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa à sorte melhor. E depois vê-mo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que têm no vinho ou no jogo, sempre à porrada... Isto é que está mal. O lugar deles não é aqui.

GC: Damião Vicente...

DV: Então e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia não incomodam tanto quanto essa miséria que não é escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armazéns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e até, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, não acha que isso é no mínimo igualmente chocante? Construa-se, digo eu, que são precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, paço e armazéns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa façanha. Mas não se ofusquem com vaidades e brilhos vãos os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco. Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, não se verá outro porto que o da largada. Connosco, aqui em Lisboa, o risco é o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abrão pelo seu vale fertil e para quê? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanhã só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estariamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá até quando, nestas naus que aqui temos à frente?

MC: Tanta palavra vossemecê diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que vê é bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe estão sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilibrio, o que interessa é o da balança da Casa da Índia: que se continuem a pôr muitas medidas para chegar à conta do ouro e da especiaria.

GC: Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana não haverá programa:s estaremos de viagem em direcção a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve. Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a «Farsa do Velho da Horta» da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Paço da Ribeira.»

Fim

Dados Estóricos Importantes:
- Álvaro Torres foi queimado num auto-de fé em 1541 acusado de heresia.
- Damião Vicente foi persseguido pela inquisição e crê-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade.
- Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-fé em 1541, acusadas de associação com o demónio e bruxaria.
- Gonçalo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país
- Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que é que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque é que o português que colocou na boca de personagens do século XVI resulta num linguajar tão arrevesado.

Mem Martins, 1998 (?)

quinta-feira, agosto 14, 2003

Memórias de um Proto-Blogue VI
O cão do meu vizinho

Lá esta ele encostado à sombra do muro do quintal, dormitando sob o calor da primeira tarde de verão. De há um par de anos para cá a vida deste cão castanho, tamanho médio em medida de cão, resume-se a uma rígida rotina.
Gastam-lhe os dias encurralando-o num pequeno espaço do quintal: uma parte elevada onde deveria ser o estendedal de roupa, aí coisa para 12 metros por metro e meio.
A um dos cantos, encostada ao muro, tem a sua barraca improvisada de dois andares: tijolos para as paredes, placa de contraplacado entre pisos e telhado de tábuas e alcatifa velha.
O muro em três lados do rectângulo e o abismo de mais de dois metros do outro, bem como, um resto de estrado de cama colocado ao cimo da escadaria que dá acesso a esta moradia do cão, impedem o animal de alargar horizontes.

Acorda bem cedo, dá uns pinotes para espreguiçar e aclara o latido, cada vez mais raramente. Depois, anima-se com alguma vida que surge na parte de baixo do quintal, aninha-se de olhos e orelhas atentos e assim fica até chegarem os restos do almoço. Nessa altura, mais uma sessão de pinotes e cabriolas se não for dia de estar encharcado pela chuva que entra por todos os cantos da sua casota sem portado.

Uma boa tarde para o animal deve ser bastante parecida com esta, esticado à sombra fazendo a sesta; falta talvez um gato.
Ocasionalmente, uma pequena reentrância do muro é utilizada pelos gatos das redondezas para atravessarem este quintal. O cão têm então a emoção da semana ladrando, saltanto, mas apenas cheirando o gato ligeiro que já há muito conhece as limitações dos pulos do cão. Em regra, ido o gato, segue-se sessão de latidos e perseguições ao próprio rabo, naquilo que parece ser uma imensa mistura de emoções, entre a ansiedade, a frustração e uma pontinha de alegria pelo breve sabor a vida. Certos dias, após a aparição do gato, há ainda mijadelas pelos cantos do rectângulo e cagadelas apressadas no extremo oposto à casota.

Ao sábado, ou ao domingo, é tempo de mangueirada à propriedade e ao seu residente; com sorte é verão, está calor e o dono vem com uma rara vontade de dar trela aos graçejos do bicho.

Após os restos do jantar o cão ruma à casota, 1º andar, e por ali fica com o focinho entre as patas, talvez à espera do embalo de uma lua nascente, talvez lembrando o pequeno companheiro, padrasto e amigo que morreu aproveitando-se da misericordiosa eutanásia realizada por um veterinário que lhe diagnosticou um cancro em fase terminal, há coisa de dois anos.
A casota está mais vazia, já não há guerras brincalhonas no rectângulo onde o cão grande, mais novo, se vencia perante o empertigado meia leca que o acolhera com pouco custo na propriedade. Já não há cenas gay quando o vento muda de direcção. Já não há desgarradas barulhentas. Restam os gatos, às vezes um pardal distraido, ou um pedaço de osso mais abaulado e saltitante.
Às vezes, o cão fica-se com se num pedestal de rabo e focinho bem esticados, orelhas em frente e olhos espectantes, mas o que sai pela porta do quintal raras vezes confirma a espectativa e o focinho volta ao meio das patas. Aos olhos regressa a tristeza e a língua perde-se numa pata dianteira, no enorme trambolho que lhe cresce rapidamente do corpo.
Tanto que eu adivinho desta vida de cão.

19 de Junho de 1998
Hummm...



Para onde irão tão apressados de férias... O semblante é suspeito... E aquele cabelo cor de laranja... Hummm.
Vamos de Férias Milu?

TSF
Quem quer murros no estômago?

Outro apontamento polémico e instrutivo do Guerra e Pas publicado há poucas horas...(aqui) Não me tomem como arrogante ao estar para aqui só a dar dicas. É boa música e eu gosto de sugerir bons tocadores de Adufe.
A seguir atentamente.

Quanto ao Abrupto, se bem o entendi, ao recuperar o diagnóstico e as perspectivas enunciadas num artigo de 2000, denuncia, na conjuntura actual, o governo como co-responsável pela extinção da TSF enquanto rádio noticiosa. Fica um excerto e a ligação para o texto integral (que já quase todos terão lido mas enfim). Termino no final com um breve considerando...

"(...)«Já ninguém é suficientemente ingénuo para pensar que a interferência do governo na comunicação social se faz por telefonemas directos dos ministros, embora ainda os haja. As formas são mais sofisticadas uma das quais são as "reestruturações" em nome da eficácia dos "negócios" que condicionam carreiras, postos, compromissos e o destino de jornais e rádios. Também aí há alguém a premiar quem se porta bem e quem se porta mal e esse alguém está no governo, ou depende do governo.»

Este foi o contexto da compra da Lusomundo pela PT e as consequências previsíveis para quem pensasse um pouco. Acrescento apenas que de há muito penso que um governo, qualquer governo, seja socialista ou social-democrata, não deve controlar órgãos de comunicação social, quer directa, quer indirectamente e que tendo meios para os controlar , usa-os sempre. É válido para a RTP, para a Lusa, para todo o sistema comunicacional ligado a empresas públicas.

Se hoje se vê, no fim da TSF como emissora noticiosa, um manobra grave contra o pluralismo informativo, convém ir atrás, à raiz do problema."


Aparentemente - será que algum dia deixaremos de necessitar deste advérbio? - não será fácil recriar uma nova TSF se houver essa necessidade. Mas esta é uma batalha como já aqui disse. A guerra pelo pluralismo informativo segue também aqui, na blogoesfera...
Este é um dos casos em que dava jeito que a racionalidade económica restringida a uma empresa prevalecesse sobre outros pardos valores.

Como se ganha e perde credibilidade nos média e qual a sua importância para o sucesso /sobrevivência de um orgão de comunicação social concreto?
Bob Hope citado na The Economist de 2 de Agosto

Asked where he wished to be buried, he said "Surprise me!"
Na mosca!! (TSF)

Do Guerra e Pas:

A única solução, a quadratura do círculo, passa por uma reformulação da política comercial da TSF, assumindo perante as agências e os anunciantes que aquele é um Media Vintage, um media onde só alguns podem anunciar e têm de pagar um valor premium por isso. Para tal, a administração tem de acreditar no excelente produto que tem, arregaçar as mangas e bater com o punho na mesa, nas suas reuniões com o mercado. Isso demora tempo, mas estou convencido que é possível.

Assino por baixo...
P.S.: Excelente descrição do mercado da publicidade que em tempos conheci com algum detalhe aqui, no Guerra e Pas.
Strange Angels (Laurie Anderson)

They say that heaven is like TV
A perfect little world
that doesn't really need you
And everything there
is made of light
And the days keep going by
Here they come Here they come
Here they come.

Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner
and they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator -
They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night

Strange angels - singing just for me
Old stories - they're haunting me
This is nothing
like I thought it would be.

Well I was out in my four door
with the top down.
And I looked up and there they were:
Millions of tiny teardrops
just sort of hanging there
And I didn't know whether to laugh or cry
And I said to myself:
What next big sky?

Strange angels - singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling Falling all over me
All over me
Strange angels - singing just for me
Old Stories - they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come.