Dá cá aquela palha, se faz favor.
O INE acaba de divulgar uma breve análise sobre a Divorcialidade tendo por base os dados definitivos para as estatísticas demográficas de 2002 neste artigo.
Entre os dados mais significativos destaco a elevada taxa de divorcialidade portuguesa no contexto da União Europeia - estamos entre os países com maiores taxas - e o facto de cerca de 91% dos divórcios se fazerem por mútuo consentimento. Entre 1975 e 1979 a percentagem dominante era a dos litigiosos com 48% dos divórcios. Outro facto interessante é a diminuição da taxa de divorcialidade entre os indivíduos com menos de 40 anos em ambos os sexos, entre 1993 e 2002. Por outras, são os indivíduos com mais de 40 anos que têm feito disparar os índices de divorcialidade. Por outro lado, é nos casamentos com 5 a 9 anos de duração que se registam as maiores taxas de conversão em divórcio. Talvez a famosa crise dos 7 anos sempre exista, afinal... Ah! E quanto mais filhos, menor a probabilidade de divórcio... Ou será o oposto?
Estamos mais exigentes do que há 30 anos e menos capazes de encontrar entendimentos com o outro. Mas não consigo acreditar na inevitabilidade do fracasso implícita na dimensão de tamanha incompatibilidade.
Aos meus amigos peço-lhes, por favor, passem a pôr a roupa suja no cesto da roupa suja. É demasiado ridículo pedirem-nos (aos amigos, os que vos ouvem e acarinham) para encontrar espírito de entendimento para um divórcio baseado na roupa suja que ele ou ela nunca punha no respectivo cesto.
segunda-feira, agosto 11, 2003
Carta Aberta ao Ministro Paulo Portas
O Público de hoje publica uma carta aberta ao ministro Paulo Portas escrita por um leitor identificado que se apresenta como um oficial superior do Exército no activo.
Parece-me um contributo equilibrado e sério para melhor percebermos o estado de alma que vai na tropa. Acho o texto particularmente interessante por sublinhar o que é que é relevante para um militar relativamente a tudo o que se tem passado nos últimos anos. Muitas vezes o que é relevante e o que se passa “lá dentro”, não é propriamente o que surge com grande destaque nos jornais. É também um exemplo raro e sintomático vindo de um oficial no activo, a quem, relembro, este tipo de opinião poderá acarretar sanções disciplinares graves caso venha a ser identificado. Pelos motivo já enunciados e para auxiliar no debate em que o Adufe tem participado transcrevo na integra a epístola.
Carta Aberta ao Ministro Paulo Portas
Segunda-feira, 11 de Agosto de 2003
Sou oficial superior (major) do Exército Português, no activo.
Os militares conhecem as ideias estereotipadas e pouco abonatórias sobre o nível de inteligência e o perfil psicológico que a maioria dos cidadãos dedica a quem escolheu esta forma de vida.
Resignados, aguardamos pacientemente que estes preconceitos imerecidos caiam em desuso, como muitos outros que foram sendo destruídos pela força do tempo e do exemplo. Basta-nos saber que não reflectem a realidade e que os exemplares a quem se possam aplicar com propriedade, que os há, reflectem a qualidade do povo a que pertencemos e podem ser encontrados com a mesma facilidade em qualquer outro grupo profissional, incluindo governantes.
Também é verdade que a instituição militar está esclerosada mas não mais que as restantes instituições públicas ou outras instituições centenárias.
Por estas e por outras, muitos cidadãos, incluindo alguns com responsabilidades governativas, abusando do dever de obediência e de silêncio a que os militares se obrigam e sabendo que estes nunca se insurgirão, rebaixam-nos, pensando que os submetem.
Os militares aceitam e cumprem voluntariamente as regras do jogo e as imposições disciplinares a que estão sujeitos por entenderem que estas são essenciais ao funcionamento do tipo especial de organização a que pertencem. Por isso, perante a hierarquia, salvo situações excepcionais, calam sem esforço o que sentem e pensam, levando terceiros a interpretar a submissão a estes valores como aceitação acrítica, genética e patética, do princípio da autoridade.
Não é assim. Os militares pensam e, quando se torna necessário, agem. O exemplo do último Chefe do Estado Maior do Exército prova-o. Mas ele não está só e a sua atitude não pode ficar isolada. O espírito do seu gesto terá de multiplicar-se se os militares quiserem manter o respeito por si próprios e ganhar o dos outros.
É já público que foram ultrapassados os limiares razoáveis do comportamento que se pode tolerar a um Ministro da Defesa. Perante a situação extraordinária em que nos encontramos, na ausência de sensatez dos responsáveis, impõem-se medidas extraordinárias como a desobediência à lei do silêncio e o delito de oposição.
Tem sido dito por jornalistas e analistas que os militares sentem um desprezo visceral pelo ministro da tutela, que não lhe reconhecem carácter ou qualidades para os liderar e que vêem com preocupação o instável rumo da sua governação. Na qualidade de militar no activo venho confirmar o que tem sido calado: é mesmo verdade.
E, a propósito, desmontar as manobras de diversão e de desinformação que pretendem escamotear o real motivo do nosso descontentamento:
1. Não é verdade que nos movam razões de ordem material. Sentimos diariamente a asfixia financeira das Forças Armadas mas percebemos a nossa realidade e já estamos habituados a sobreviver numa instituição tão descapitalizada como tantas outras. De facto, o que nos move são motivos de ordem ética e que se prendem essencialmente com a forma como temos vindo a ser liderados pelo poder político. A maior parte de nós tem uma cultura democrática sólida e aceita sem hesitações a subordinação ao poder político mas não pode ver com bons olhos que esta se vá transformando em humilhação pelo poder político.
2. Também não é verdade que a contestação actual resulte do facto de o ministro pretender diminuir o número de generais. Infelizmente, o descontentamento é mais generalizado, não se restringe aos generais nem a essa questão verdadeiramente irrelevante quando comparada com as causas do nosso desconforto.
3. Também não é honesto desculpabilizar o Ministro da Defesa dizendo que o Chefe de Estado Maior do Exército foi vítima de si próprio ao ter aceite o lugar nas condições em que o aceitou. A ter feito mal, o erro foi cometido pelo militar que desempenhava o cargo mas foi corrigido ao ter deixado de pactuar com situações menos dignas. Acontece que as desconsiderações do senhor ministro foram feitas ao Chefe de Estado Maior do Exército, independentemente de se chamar A ou B e, desse modo, a todo o Exército.
4. Não é senão meia verdade e demagógico o argumento do sentido unidireccional de um sentimento que tem dois sentidos, como o da confiança. Tal como o entende o comum dos mortais e os militares por força da sua missão é tão importante ter confiança nos subordinados como a confiança destes nos seus superiores. Não ter confiança no actual Ministro da Defesa não nos desmoraliza porque um dia deixará de o ser mas deixa-nos apreensivos enquanto lá permanecer. Porque já perdemos quase tudo o que poderia compensar essa ausência de confiança, porque a nossa auto-estima já não é grande e porque receamos os estragos que possa vir a causar pela amostra dos que já causou.
Em resumo, o senhor ministro, apesar do seu apregoado patriotismo, não reúne as condições mínimas necessárias para liderar uma instituição que se obriga a respeitar princípios que o próprio desrespeita. Actualmente, a autoridade de que goza é simplesmente de natureza formal, a que corresponde um respeito de etiqueta, também meramente formal, dirigido à figura do Ministro da Defesa mas não de quem desempenha o cargo. O que não é de menor importância.
Desdramatizando, sabe-se que ele, o país, a instituição e nós sobreviveremos ao ministro. Mas a culpa não deve morrer solteira nas mãos do actual ministro. A outra e não menos importante questão que se coloca é que regime é este que permite que um homem transforme um ministério na sua coutada pessoal e que não preste contas públicas de erros grosseiros que foram tornados públicos. O actual Ministro da Defesa não é o poder político. É apenas uma extensão dele. Algo está mal quando o poder político permite que continue a agir ao sabor do seu estilo muito pessoal sem qualquer tipo de consequências. Mesmo em política, mesmo no sentido estrito do termo, nem todos os fins justificam todos os meios.
Impõe-se que se diga que esta atitude não traduz nenhum posicionamento de natureza político-partidária. De facto, veríamos com bons olhos a deslocação do actual Ministro da Defesa para outro ministério e/ou a sua substituição por alguém do seu próprio partido. Sabemos de antemão que, tão cedo, qualquer outro pouco mais poderá fazer por nós, para além de nos respeitar com a dignidade que qualquer grupo profissional merece. Para esse efeito, qualquer delegado partidário bem intencionado poderá ocupar o lugar. Somos homens e mulheres vulgares que padecem das fraquezas da natureza humana como quaisquer outros. O Ministro não tem de ser perfeito. Nos tempos que correm já nem precisa de ser um homem sério a tempo inteiro. Basta-nos que o seja no exercício das suas funções e que nos considere. Para continuar a dispor da nossa interminável paciência e "incondicional" subordinação.
Leitor Identificado
O Público de hoje publica uma carta aberta ao ministro Paulo Portas escrita por um leitor identificado que se apresenta como um oficial superior do Exército no activo.
Parece-me um contributo equilibrado e sério para melhor percebermos o estado de alma que vai na tropa. Acho o texto particularmente interessante por sublinhar o que é que é relevante para um militar relativamente a tudo o que se tem passado nos últimos anos. Muitas vezes o que é relevante e o que se passa “lá dentro”, não é propriamente o que surge com grande destaque nos jornais. É também um exemplo raro e sintomático vindo de um oficial no activo, a quem, relembro, este tipo de opinião poderá acarretar sanções disciplinares graves caso venha a ser identificado. Pelos motivo já enunciados e para auxiliar no debate em que o Adufe tem participado transcrevo na integra a epístola.
Carta Aberta ao Ministro Paulo Portas
Segunda-feira, 11 de Agosto de 2003
Sou oficial superior (major) do Exército Português, no activo.
Os militares conhecem as ideias estereotipadas e pouco abonatórias sobre o nível de inteligência e o perfil psicológico que a maioria dos cidadãos dedica a quem escolheu esta forma de vida.
Resignados, aguardamos pacientemente que estes preconceitos imerecidos caiam em desuso, como muitos outros que foram sendo destruídos pela força do tempo e do exemplo. Basta-nos saber que não reflectem a realidade e que os exemplares a quem se possam aplicar com propriedade, que os há, reflectem a qualidade do povo a que pertencemos e podem ser encontrados com a mesma facilidade em qualquer outro grupo profissional, incluindo governantes.
Também é verdade que a instituição militar está esclerosada mas não mais que as restantes instituições públicas ou outras instituições centenárias.
Por estas e por outras, muitos cidadãos, incluindo alguns com responsabilidades governativas, abusando do dever de obediência e de silêncio a que os militares se obrigam e sabendo que estes nunca se insurgirão, rebaixam-nos, pensando que os submetem.
Os militares aceitam e cumprem voluntariamente as regras do jogo e as imposições disciplinares a que estão sujeitos por entenderem que estas são essenciais ao funcionamento do tipo especial de organização a que pertencem. Por isso, perante a hierarquia, salvo situações excepcionais, calam sem esforço o que sentem e pensam, levando terceiros a interpretar a submissão a estes valores como aceitação acrítica, genética e patética, do princípio da autoridade.
Não é assim. Os militares pensam e, quando se torna necessário, agem. O exemplo do último Chefe do Estado Maior do Exército prova-o. Mas ele não está só e a sua atitude não pode ficar isolada. O espírito do seu gesto terá de multiplicar-se se os militares quiserem manter o respeito por si próprios e ganhar o dos outros.
É já público que foram ultrapassados os limiares razoáveis do comportamento que se pode tolerar a um Ministro da Defesa. Perante a situação extraordinária em que nos encontramos, na ausência de sensatez dos responsáveis, impõem-se medidas extraordinárias como a desobediência à lei do silêncio e o delito de oposição.
Tem sido dito por jornalistas e analistas que os militares sentem um desprezo visceral pelo ministro da tutela, que não lhe reconhecem carácter ou qualidades para os liderar e que vêem com preocupação o instável rumo da sua governação. Na qualidade de militar no activo venho confirmar o que tem sido calado: é mesmo verdade.
E, a propósito, desmontar as manobras de diversão e de desinformação que pretendem escamotear o real motivo do nosso descontentamento:
1. Não é verdade que nos movam razões de ordem material. Sentimos diariamente a asfixia financeira das Forças Armadas mas percebemos a nossa realidade e já estamos habituados a sobreviver numa instituição tão descapitalizada como tantas outras. De facto, o que nos move são motivos de ordem ética e que se prendem essencialmente com a forma como temos vindo a ser liderados pelo poder político. A maior parte de nós tem uma cultura democrática sólida e aceita sem hesitações a subordinação ao poder político mas não pode ver com bons olhos que esta se vá transformando em humilhação pelo poder político.
2. Também não é verdade que a contestação actual resulte do facto de o ministro pretender diminuir o número de generais. Infelizmente, o descontentamento é mais generalizado, não se restringe aos generais nem a essa questão verdadeiramente irrelevante quando comparada com as causas do nosso desconforto.
3. Também não é honesto desculpabilizar o Ministro da Defesa dizendo que o Chefe de Estado Maior do Exército foi vítima de si próprio ao ter aceite o lugar nas condições em que o aceitou. A ter feito mal, o erro foi cometido pelo militar que desempenhava o cargo mas foi corrigido ao ter deixado de pactuar com situações menos dignas. Acontece que as desconsiderações do senhor ministro foram feitas ao Chefe de Estado Maior do Exército, independentemente de se chamar A ou B e, desse modo, a todo o Exército.
4. Não é senão meia verdade e demagógico o argumento do sentido unidireccional de um sentimento que tem dois sentidos, como o da confiança. Tal como o entende o comum dos mortais e os militares por força da sua missão é tão importante ter confiança nos subordinados como a confiança destes nos seus superiores. Não ter confiança no actual Ministro da Defesa não nos desmoraliza porque um dia deixará de o ser mas deixa-nos apreensivos enquanto lá permanecer. Porque já perdemos quase tudo o que poderia compensar essa ausência de confiança, porque a nossa auto-estima já não é grande e porque receamos os estragos que possa vir a causar pela amostra dos que já causou.
Em resumo, o senhor ministro, apesar do seu apregoado patriotismo, não reúne as condições mínimas necessárias para liderar uma instituição que se obriga a respeitar princípios que o próprio desrespeita. Actualmente, a autoridade de que goza é simplesmente de natureza formal, a que corresponde um respeito de etiqueta, também meramente formal, dirigido à figura do Ministro da Defesa mas não de quem desempenha o cargo. O que não é de menor importância.
Desdramatizando, sabe-se que ele, o país, a instituição e nós sobreviveremos ao ministro. Mas a culpa não deve morrer solteira nas mãos do actual ministro. A outra e não menos importante questão que se coloca é que regime é este que permite que um homem transforme um ministério na sua coutada pessoal e que não preste contas públicas de erros grosseiros que foram tornados públicos. O actual Ministro da Defesa não é o poder político. É apenas uma extensão dele. Algo está mal quando o poder político permite que continue a agir ao sabor do seu estilo muito pessoal sem qualquer tipo de consequências. Mesmo em política, mesmo no sentido estrito do termo, nem todos os fins justificam todos os meios.
Impõe-se que se diga que esta atitude não traduz nenhum posicionamento de natureza político-partidária. De facto, veríamos com bons olhos a deslocação do actual Ministro da Defesa para outro ministério e/ou a sua substituição por alguém do seu próprio partido. Sabemos de antemão que, tão cedo, qualquer outro pouco mais poderá fazer por nós, para além de nos respeitar com a dignidade que qualquer grupo profissional merece. Para esse efeito, qualquer delegado partidário bem intencionado poderá ocupar o lugar. Somos homens e mulheres vulgares que padecem das fraquezas da natureza humana como quaisquer outros. O Ministro não tem de ser perfeito. Nos tempos que correm já nem precisa de ser um homem sério a tempo inteiro. Basta-nos que o seja no exercício das suas funções e que nos considere. Para continuar a dispor da nossa interminável paciência e "incondicional" subordinação.
Leitor Identificado
Sugestão de leitura...
Florestas de ideias
"(...) 11) Na prevenção de incêndios, as limpezas periódicas são fundamentais, tanto nas florestas como na política; (...)"
Resto do artigo aqui.
Luís Coimbra
Diário Económico
Florestas de ideias
"(...) 11) Na prevenção de incêndios, as limpezas periódicas são fundamentais, tanto nas florestas como na política; (...)"
Resto do artigo aqui.
Luís Coimbra
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Memórias de um Proto-Blogue: A Senhora do Ó
Hoje é quinta feira dia 18 de Setembro de 1997.
A poucos passos da Calçada do Combro, lá bem no fundo, havia sol; uma esquina de sol de fim de tarde que vinha caprichosamente por entre os telhados até à esquina da Rua dos Poiais de São Bento.
Nessas esquinas estava uma senhora de Ó parada no passeio, virada para a estrada. Vestia de vermelho uma camisola de malha que aperfeiçoava e vincava o magnífico Ó atirado para a frente com a ajuda das duas mãos bem fixas nas ilhargas.
Acabei de descer a íngreme calçada e passei também pelas esquinas: ela já lá não estava. Distrai-me com a sua imagem que fixara uns metros atrás e perdi-lhe o destino. O meu, ia sendo passado a ferro pelo carro apressadinho que não queria parar ao sair das esquinas: «Desculpe lá! Não o vi com o sol.» disse em voz trémula a senhora que trazia ao lado um seu Ó com vinte e poucos anos, no feminino. E que lindo sorriso iluminado me mostrou este outro Ó quando o susto passou...
Faltavam quarenta e três minutos para a hora marcada e eu sobrevivia feliz, galgando a calçada branca e cagada da cidade de Lisboa. Arranjei uma musa para o meu último exame da faculdade.
Hoje é quinta feira dia 18 de Setembro de 1997.
A poucos passos da Calçada do Combro, lá bem no fundo, havia sol; uma esquina de sol de fim de tarde que vinha caprichosamente por entre os telhados até à esquina da Rua dos Poiais de São Bento.
Nessas esquinas estava uma senhora de Ó parada no passeio, virada para a estrada. Vestia de vermelho uma camisola de malha que aperfeiçoava e vincava o magnífico Ó atirado para a frente com a ajuda das duas mãos bem fixas nas ilhargas.
Acabei de descer a íngreme calçada e passei também pelas esquinas: ela já lá não estava. Distrai-me com a sua imagem que fixara uns metros atrás e perdi-lhe o destino. O meu, ia sendo passado a ferro pelo carro apressadinho que não queria parar ao sair das esquinas: «Desculpe lá! Não o vi com o sol.» disse em voz trémula a senhora que trazia ao lado um seu Ó com vinte e poucos anos, no feminino. E que lindo sorriso iluminado me mostrou este outro Ó quando o susto passou...
Faltavam quarenta e três minutos para a hora marcada e eu sobrevivia feliz, galgando a calçada branca e cagada da cidade de Lisboa. Arranjei uma musa para o meu último exame da faculdade.
Memórias de um Proto-Blogue: Avenida da Liberdade
Uma rapariga apressada, sisuda, que subia a Avenida da Liberdade arriscou - oh acto de bravura nesta era desgraçada!- perguntar, a um rapaz que descia, que horas eram. Este, em vez de virar a cara para o lado e apressar o passo antes que fosse assaltado, ou então, antes que fosse convidado a uma sessão de apresentação de um excelente produto, arriscou também - oh feliz o audaz que propiciou esta coinciência!- e respondeu.
Engasgou-se tantas vezes antes de dar a hora certa que acabou a pedir desculpas à rapariga que sorria agora divertida, tal fora a palhaçada.
A boa disposição em que a moça ficara funcionou positivamente no rapaz e este justificou-se dizendo que o relógio era novo e sendo analógico não estava habituado a ele. Ela replicou que seguramente valera a pena reaprender a ver as horas dado que o relógio era muito bonito. Acrescentou: “É a primeira vez que pergunto as horas a alguém, se eu soubesse que era tão divertido já o tinha feito mais vezes.” Cavalheiresco, o rapaz respondeu: “Disponha, estou sempre às ordens para receber um sorriso... como o seu.” Num tom cúmplice, continuou: “Para a próxima, já que esgotámos este espediente, pode perguntar-me uma direcção. Garanto-lhe que vai rir a valer! Especialmente se secretamente souber onde é. Eu nem lhe digo quantos desgraçados é que já desencaminhei com a maior das boas intenções!” Riram, despediram-se. Pouco depois, olharam os dois para trás aos mesmo tempo, sorriram de novo. Ela apanhou o metro, ele entrou num Banco.
Uma rapariga apressada, sisuda, que subia a Avenida da Liberdade arriscou - oh acto de bravura nesta era desgraçada!- perguntar, a um rapaz que descia, que horas eram. Este, em vez de virar a cara para o lado e apressar o passo antes que fosse assaltado, ou então, antes que fosse convidado a uma sessão de apresentação de um excelente produto, arriscou também - oh feliz o audaz que propiciou esta coinciência!- e respondeu.
Engasgou-se tantas vezes antes de dar a hora certa que acabou a pedir desculpas à rapariga que sorria agora divertida, tal fora a palhaçada.
A boa disposição em que a moça ficara funcionou positivamente no rapaz e este justificou-se dizendo que o relógio era novo e sendo analógico não estava habituado a ele. Ela replicou que seguramente valera a pena reaprender a ver as horas dado que o relógio era muito bonito. Acrescentou: “É a primeira vez que pergunto as horas a alguém, se eu soubesse que era tão divertido já o tinha feito mais vezes.” Cavalheiresco, o rapaz respondeu: “Disponha, estou sempre às ordens para receber um sorriso... como o seu.” Num tom cúmplice, continuou: “Para a próxima, já que esgotámos este espediente, pode perguntar-me uma direcção. Garanto-lhe que vai rir a valer! Especialmente se secretamente souber onde é. Eu nem lhe digo quantos desgraçados é que já desencaminhei com a maior das boas intenções!” Riram, despediram-se. Pouco depois, olharam os dois para trás aos mesmo tempo, sorriram de novo. Ela apanhou o metro, ele entrou num Banco.
sábado, agosto 09, 2003
Em defesa do presidente de todos os portugueses II
Desde já agradeço a resposta de O Carimbo ao meu post "Em defesa do presidente de todos os portugueses".
Para evitar muitas delongas, sem negar a devida resposta, regresso à polémica de uma forma mais mecânica do que literária. Esperemos que fundamentada e explícita.
No post de resposta onde O Carimbo expõe os argumentos para rebater as minhas críticas, O Carimbo pergunta, e bem,: «Se não houve desrespeito pela hierarquia militar, porque sentiram o Primeiro Ministro (PM) e o Almirante Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) a necessidade de lembrar a todos nós que “o chefe militar de mais elevada autoridade na hierarquia das Forças Armadas é mesmo o CEMGFA”? Porque disse o Almirante Mendes Cabeçadas que só ele e os Chefes de Estado-Maior dos ramos podem representar com legitimidade os interesses das Forças Armadas?” Talvez tenha sido porque um General (na reserva) tinha acabado de ser mandatado para representar os interesses do Exército perante o PM?» Sublinho que nunca ouvi os senhores oficiais abalançarem-se em tal intento. Lembro até declarações do General Loureiro dos Santos na SIC - Notícias, na noite do jantar, a recusar essa conclusão sobre o objectivo do jantar. Pressão sim, mas com o peso que a sociedade e o PR quisesse dar à opinião das pessoas em questão – bem conscientes de que podem falar porque já não estão subordinadas.
Usaram dos seus direitos cívicos, manifestando a sua posição pública e política sobre a demissão e fizeram a critica que entendiam ao governo e ao comportamento do ministro da defesa. A que propósito é que esses senhores deveriam guardar reserva sobre matéria que consideraram tão grave? A politica de defesa, assim como a aplicação da justiça, por exemplo, não são, nem podem ser vacas sagradas indiscutíveis.
Como pergunta O Carimbo repito, porque é que o CEMGFA se sentiu na obrigação de esclarecer o óbvio? A minha pergunta de retórica é, contudo, outra “Alguém acredita que a situação é tão grave que há o real risco de o Exército se rever mais nos seus ex-representantes militares do que nos actuais (políticos e militares)?” Espero sinceramente que não. Não terão sido as declarações do CEMGFA um favor político ao MD? Não sei, não posso afirmá-lo. Mas pareceram-me despropositadas, dando elas sim uma conotação ao tal jantar que este não deveria merecer. Um erro a que o PR se furtou.
Confesso que não entendo a força de argumentos como os que suponho estarem implícitos em “Porque têm apenas sete cidadãos (que são, em princípio, iguais aos outros) o direito a saber as razões da demissão do GSV? É que à população portuguesa foi dito, pelo próprio GSV, que não podia tornar públicas as razões da perda de confiança no Ministro da Defesa (MD) devido ao respeito que lhe mereciam a instituição militar e aqueles que serviam o Exército Português. Pois.” Sendo coerente com o que disse, acho que o GSV tem todo o direito de tornar públicas as razões da demissão, assim como lhe assiste o direito de traçar ele próprio uma fronteira de nojo (a que, repito, não julguo que esteja/estivesse obrigado). Pelo posição d’O Carimbo esta reserva do GSV deveria ser de louvar (ainda que escassa por não dever ter permitido sequer a tal conversa com os cidadãos portugueses porventura mais competentes para criticar a matéria em causa).
Sublinho que o “disparate” que mais me choca é a qualificação da atitude do presidente como um favor ao país socialista. Seria impossível o PR ter sido mais coerente e isento. Como disse, a memória das afirmações do PR desde o início do seu primeiro mandato sobre o assunto serve-lhe de defesa sobeja. Tem e teve a autoridade moral para dizer o que disse sendo as suas palavras naturalmente mais marcantes por esse mesmo facto.
Os compromissos do governo são assumidas por quatro anos mas tomando por bons compromissos voluntariamente definidos pelo MD, este criou uma expectativa de solução bem mais imediatista. Talvez por excesso de início de mandato ou deficiência crónica de personalidade. Quem o conhece facilmente esclarece esta dúvida.
Não é de facto tempo de discutir que forças armadas queremos, é tempo de implementar a lei já aprovada que expressa a resposta a essa pergunta aprovada pela Assembleia da República. No entanto, adiar o seu cumprimento devidamente calendarizado, mesmo sob pretexto da contenção orçamental, não é inócuo. Tudo pode ser posto em causa pela demora. Assim acontece na defesa, numa empresa ou num lar. Esperemos que não se chegue ao ponto de tudo ficar de novo em causa... Como no passado.
Como em boa parte da resposta – que na realidade não o é, e bem, pois como expressei a dada altura, alarguei o meu post a outras críticas da vox populi das quais encontrei algumas ressonâncias no post do Carimbo – concordamos em concordar, termino comentando a última frase que encerra o post do Carimbo:
“Voltando ao “supônhamos", a hipótese de ligação que aqui descrevo entre o PR, o PS e o GSV não é mais disparatada do que a tese da cabala contra o PS defendida (e constantemente repetida) por Ferro Rodrigues.”
Atendendo a que, com os dados que conheço, a cabala de Ferro Rodrigues não fornece qualquer argumento sólido que me permita duvidar seriamente dos procedimentos judiciais em vigor – com os quais discordo em larga medida mas que defendo integralmente até se alterar a lei -, também a ligação descrita entre PR, PS e GSV se me afigura como um exercício demasiado efabulatório e particularmente injusto para o PR... até prova em contrário.
Desde já agradeço a resposta de O Carimbo ao meu post "Em defesa do presidente de todos os portugueses".
Para evitar muitas delongas, sem negar a devida resposta, regresso à polémica de uma forma mais mecânica do que literária. Esperemos que fundamentada e explícita.
No post de resposta onde O Carimbo expõe os argumentos para rebater as minhas críticas, O Carimbo pergunta, e bem,: «Se não houve desrespeito pela hierarquia militar, porque sentiram o Primeiro Ministro (PM) e o Almirante Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) a necessidade de lembrar a todos nós que “o chefe militar de mais elevada autoridade na hierarquia das Forças Armadas é mesmo o CEMGFA”? Porque disse o Almirante Mendes Cabeçadas que só ele e os Chefes de Estado-Maior dos ramos podem representar com legitimidade os interesses das Forças Armadas?” Talvez tenha sido porque um General (na reserva) tinha acabado de ser mandatado para representar os interesses do Exército perante o PM?» Sublinho que nunca ouvi os senhores oficiais abalançarem-se em tal intento. Lembro até declarações do General Loureiro dos Santos na SIC - Notícias, na noite do jantar, a recusar essa conclusão sobre o objectivo do jantar. Pressão sim, mas com o peso que a sociedade e o PR quisesse dar à opinião das pessoas em questão – bem conscientes de que podem falar porque já não estão subordinadas.
Usaram dos seus direitos cívicos, manifestando a sua posição pública e política sobre a demissão e fizeram a critica que entendiam ao governo e ao comportamento do ministro da defesa. A que propósito é que esses senhores deveriam guardar reserva sobre matéria que consideraram tão grave? A politica de defesa, assim como a aplicação da justiça, por exemplo, não são, nem podem ser vacas sagradas indiscutíveis.
Como pergunta O Carimbo repito, porque é que o CEMGFA se sentiu na obrigação de esclarecer o óbvio? A minha pergunta de retórica é, contudo, outra “Alguém acredita que a situação é tão grave que há o real risco de o Exército se rever mais nos seus ex-representantes militares do que nos actuais (políticos e militares)?” Espero sinceramente que não. Não terão sido as declarações do CEMGFA um favor político ao MD? Não sei, não posso afirmá-lo. Mas pareceram-me despropositadas, dando elas sim uma conotação ao tal jantar que este não deveria merecer. Um erro a que o PR se furtou.
Confesso que não entendo a força de argumentos como os que suponho estarem implícitos em “Porque têm apenas sete cidadãos (que são, em princípio, iguais aos outros) o direito a saber as razões da demissão do GSV? É que à população portuguesa foi dito, pelo próprio GSV, que não podia tornar públicas as razões da perda de confiança no Ministro da Defesa (MD) devido ao respeito que lhe mereciam a instituição militar e aqueles que serviam o Exército Português. Pois.” Sendo coerente com o que disse, acho que o GSV tem todo o direito de tornar públicas as razões da demissão, assim como lhe assiste o direito de traçar ele próprio uma fronteira de nojo (a que, repito, não julguo que esteja/estivesse obrigado). Pelo posição d’O Carimbo esta reserva do GSV deveria ser de louvar (ainda que escassa por não dever ter permitido sequer a tal conversa com os cidadãos portugueses porventura mais competentes para criticar a matéria em causa).
Sublinho que o “disparate” que mais me choca é a qualificação da atitude do presidente como um favor ao país socialista. Seria impossível o PR ter sido mais coerente e isento. Como disse, a memória das afirmações do PR desde o início do seu primeiro mandato sobre o assunto serve-lhe de defesa sobeja. Tem e teve a autoridade moral para dizer o que disse sendo as suas palavras naturalmente mais marcantes por esse mesmo facto.
Os compromissos do governo são assumidas por quatro anos mas tomando por bons compromissos voluntariamente definidos pelo MD, este criou uma expectativa de solução bem mais imediatista. Talvez por excesso de início de mandato ou deficiência crónica de personalidade. Quem o conhece facilmente esclarece esta dúvida.
Não é de facto tempo de discutir que forças armadas queremos, é tempo de implementar a lei já aprovada que expressa a resposta a essa pergunta aprovada pela Assembleia da República. No entanto, adiar o seu cumprimento devidamente calendarizado, mesmo sob pretexto da contenção orçamental, não é inócuo. Tudo pode ser posto em causa pela demora. Assim acontece na defesa, numa empresa ou num lar. Esperemos que não se chegue ao ponto de tudo ficar de novo em causa... Como no passado.
Como em boa parte da resposta – que na realidade não o é, e bem, pois como expressei a dada altura, alarguei o meu post a outras críticas da vox populi das quais encontrei algumas ressonâncias no post do Carimbo – concordamos em concordar, termino comentando a última frase que encerra o post do Carimbo:
“Voltando ao “supônhamos", a hipótese de ligação que aqui descrevo entre o PR, o PS e o GSV não é mais disparatada do que a tese da cabala contra o PS defendida (e constantemente repetida) por Ferro Rodrigues.”
Atendendo a que, com os dados que conheço, a cabala de Ferro Rodrigues não fornece qualquer argumento sólido que me permita duvidar seriamente dos procedimentos judiciais em vigor – com os quais discordo em larga medida mas que defendo integralmente até se alterar a lei -, também a ligação descrita entre PR, PS e GSV se me afigura como um exercício demasiado efabulatório e particularmente injusto para o PR... até prova em contrário.
Em defesa do presidente de todos os portugueses.
O Carimbo procurou num dos seu últimos posts marcar mas não ferretar o Presidente Jorge Sampaio com o epiteto de O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES SOCIALISTAS isto a propósito das declarações proferidas na cerimónia de tomada de posse do novo chefe de estado maior do exército (CEME).
Depois da transcrição do post que aqui deixo permito-me discordar apresentando alguns argumentos.
De acordo como Público, Jorge Sampaio (JS) aproveitou anteontem "a tomada de posse do novo chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), Valença Pinto, para fazer uma série de reparos ao Governo pela forma como tem gerido a pasta da Defesa". De seguida, deu um forte abraço de despedida e agradecimento ao General Silva Viegas (GSV) e afirmou: "Considero indispensável expressar o reconhecimento da República ao trabalho levado a cabo pelo (...) General Silva Viegas, cuja qualidades pessoais, competência profissional e empenho na reforma e modernização do Exército e das Forças Armadas, ninguém pôs nem poderá pôr em causa."
Parece que JS não viu no "Jantar dos Oito ex-CEME" qualquer ameaça ao regular funcionamento democrático da República nem qualquer tipo de desrespeito à hierarquia militar. A única coisa que o Presidente da República viu foi apenas uma excelente oportunidade de servir os interesses do Partido Socialista (PS), criticando o Governo numa altura em que este se encontra fragilizado pela situação de calamidade que se vive no país.
Repito que, ainda que o GSV possa ter razão quando se refere à falta de diálogo entre o poder político e a hierarquia militar, ao adiamento de compra de equipamentos e à sub-orçamentação das despesas com as missões internacionais, isso não justifica a forma como conduziu a sua demissão do cargo de CEME. Por outro lado, JS também sabe que o Governo tem dificuldades em satisfazer as exigências do Exército e por isso afirmou que a gestão corrente e as exigências operacionais das Forças Armadas "terão de ser compatibilizadas com a austeridade financeira" e que, "em vez de ser factor de instabilidade recorrente, a escassez de recursos deve, pelo contrário, potenciar uma gestão mais criteriosa, mais racional e mais eficaz dos orçamentos militares, na base de uma avaliação séria das nossas necessidades em termos de equipamentos e de funcionamento".
Estas afirmações só fortalecem a posição do governo e fragilizam a posição do GSV. Como é então possível assistir a um tão efusivo agradecimento público ao GSV? Só se a sua demissão foi "encomendada" pelo PS...
Quanto ao ponto do desrespeito das hierarquias militares que estaria implícito no jantar dos Ex-CEME e, mais grave, a ameaça que esse repasto público constituía para o regular funcionamento democrático, fico à espera de fundamentação. Sei que um militar reformado, independentemente da patente, deixa de estar obrigado ao dever de reserva sobre matérias políticas, ou seja, vê integralmente restabelecidos todos os direitos liberdades e garantias que assistem a todos os cidadão, excepto, aos militares no activo.
Queiram - falo no plural pois não só no Carimbo vi tirarem este tipo de ilacções - retirar das ameaças que entrevêem as devidas consequências e proponham a mitigação dos direitos liberdades e garantias de ex-militares. De fundamentação que adivinho absurda, devo admitir. Caso contrário, limitem-se a comentar o facto político a que esse evento se resume: a meu ver, importante, significativo, - porque lhes reconheço competência e conhecimento especialzado na matéria - talvez mesmo preocupante mas não nos termos em que surge enquadrado como procurarei explicar.
Acho quase divertido conceber que os oito ex-CEME (em bom rigor incluía-se também um ex-chefe supremo das Forças Armadas) participaram numa manobra orquestrada pelo PS para darem uma machadada no fragilizado governo, surgindo o Presidente da República em lesta e atípica intervenção capitalizadora desses dados.
Se recuperarmos um pouco da história recente no relacionamento entre ministros da defesa e Chefes de Estado Maior facilmente percebemos quão disparatada é esta conclusão que pretende reduzir tudo a uma partidarização. Admito que seja uma hipótese confortável para quem se sente desconfortável com a atitude do ex-CEME e do PR mas está longe de se resumir a isso. Poderíamos até admitir estar na presença de um lobby conservador da defesa mas até essa hipótese me parece demasiado redutora. Diria “Também mas não só...”. Com um pouco de memória facilmente se percebem as fragilidades e incoerência do raciocínio defendido pelo Carimbo.
Quanto ao PR, merece a justiça de se reconhecer que há vários anos alerta para a necessidade de o poder executivo ser consequente com aquilo a que se havia comprometido. Em várias ocasiões o PR zurziu com firmeza e gravidade pouco habitual o poder executivo para que este implementasse a Lei de Programação Militar, a extinção dos Tribunais Militares e dinamiza-se a profissionalização das Forças Amadas, entre outros... Quase tudo caiu em saco roto. A lei de programação militar seguiu em revisões sucessivas e até hoje quase nada foi efectivado. Os tribunais militares continuam a operar e a demagogia impera há mais de uma década – já vem de Cavaco Silva... - em torno do regime de voluntariado no serviço militar. Asneiras sucessivas se fizeram neste último caso...Adiante.
Jorge Sampaio já é presidente há vários anos e atendnedo ao que tem dito e feito repetidas vezes em relação as FA, esta é talvez a área da política nacional onde é mais descabido querer colar as actuais declarações do Chefe Supremo das Forças Armadas a um favor partidário.
Qual tem sido o problema dos governos então? Para reformar, para profissionalizar é preciso num primeiro momento gastar mais (em equipamento, nas carreiras), mesmo reduzindo o pessoal e nenhum partido feito governo teve ainda a coragem de reconhecer e garantir essa evolução. No caso do PS por manifesto desconforto – parece genético –com os assuntos de fardas... Ninguém com peso se deu ao trabalho de pensar as Forças Armadas. O que queremos? Para que as queremos?
Entretanto, uma certa reforma foi-se fazendo, ao ponto de anular boa parte dos tradicionais argumentos anti-militaristas. O contingente do Exercito diminuiu drasticamente sobrando pouco mais da guerra colonial do que o velho equipamento; a Marinha e a Força Área, parece ser consensual, atingiram já a dimensão desejável e estão mais avançadas no processo de profissionalização; as regalias existentes degradaram-se ou foram eliminadas, etc.
Alguns aspectos negativo que sei manterem-se são:
- o desequilíbrio da estrutura hierárquica (excesso de altas patentes para o quadro desejado),
- inexistência de meios operacionais que desapareceram por obsolescência,
- perda de capacidade formação de militares e um pouco cativante regime de carreiras que não garante um contingente mínimo de voluntários com os requisitos académicos mínimos exigidos por umas forças armadas profissionais.
Há não muito tempo o Chefe de Estado Maior da Armada mandou recolher os navios por falta de meios. Os militares destacados esperaram (e esperam?) meses pelas remunerações estabelecidas quando em missão, os pilotos perdem segurança e competência não realizando o número mínimo de horas de voo e o patrulhamento oceânico faz-se ainda, em boa parte, em navios desenhados para defender rios tropicais nos idos de 70.
Não foi o ministro da defesa da altura que deu ordens ao almirante CEMA para recolher os navios.. Este ordenou-o de acordo com as competências que tem à luz da lei e foi um escândalo, se bem se lembram. O senhor Almirante não perdeu a confiança política no ministro, geriu os recursos que tinha da melhor maneira: admitiu que não possuía meios, pura e simplesmente. Relembro, que não era o PSD que estava no governo, era o PS, um partido que só pode ter muito má consciência em tudo o que se relaciona com as Forças Armadas. E andamos nisto há anos sem que se decida o que fazer com as FA. Porque não extingui-las? Quando esta hipótese chegou a ser cogitada com alguma regularidade, António Guterres resolveu, e bem, rentabiliza-las, pondo-as ao serviço da política externa portuguesa, esticando a corda mais e mais ao ignorar os apelos dos “falcões???” militares.
Em suma, os sinais de que se havia chegado a um limite, que urgia decidir politicamente sobre o que fazer das Forças Armadas já foi dado há alguns anos. E este governo faz-se representar junto das FA por um ministro populista, prometedor de um corte com o passado, salvador de combatentes e ex-combatentes que entra em funções suspendendo tudo o que estava em (lento) andamento. Apresenta como obra válida a Lei de Programação Militar. Mas os meses passam e o carácter de urgência sublinhada pelos militares é abafado pela inércia. Tudo se mantém por implementar, as promessas feitas esboroam-se, as indelicadezas para com o CEME somam-se e a intervenção mais activa do ministro junto deste passa por uma tentativa – que eu saiba, não negada, até ao momento – de interferência no calendário de promoções dos oficiais, procurando favorecer um nome concreto. Uma interferência, não fundamentada no quadro do sistema de avaliação vigente no exército cuja gestão e garante é o CEME. E é-o por alguma razão... Só esta última razão invocada pelo agora Ex-CEME me parece mais que válida para que seja denunciada com uma demissão. Ter palavra ainda conta para algumas pessoas e a mensagem que recolhi da demissão do CEME foi de que o Ministro não é homem de palavra nem de respeitar os outros. Demitiu-se como a exacta medida.
Mais acrescento: pobres de nós se tomamos como a conclusão mais relevante atribuir a paternidade desta demissão.
Que Forças Armadas queremos? Quanto estamos dispostos a pagar? Para que devem servir?
O Carimbo procurou num dos seu últimos posts marcar mas não ferretar o Presidente Jorge Sampaio com o epiteto de O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES SOCIALISTAS isto a propósito das declarações proferidas na cerimónia de tomada de posse do novo chefe de estado maior do exército (CEME).
Depois da transcrição do post que aqui deixo permito-me discordar apresentando alguns argumentos.
De acordo como Público, Jorge Sampaio (JS) aproveitou anteontem "a tomada de posse do novo chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), Valença Pinto, para fazer uma série de reparos ao Governo pela forma como tem gerido a pasta da Defesa". De seguida, deu um forte abraço de despedida e agradecimento ao General Silva Viegas (GSV) e afirmou: "Considero indispensável expressar o reconhecimento da República ao trabalho levado a cabo pelo (...) General Silva Viegas, cuja qualidades pessoais, competência profissional e empenho na reforma e modernização do Exército e das Forças Armadas, ninguém pôs nem poderá pôr em causa."
Parece que JS não viu no "Jantar dos Oito ex-CEME" qualquer ameaça ao regular funcionamento democrático da República nem qualquer tipo de desrespeito à hierarquia militar. A única coisa que o Presidente da República viu foi apenas uma excelente oportunidade de servir os interesses do Partido Socialista (PS), criticando o Governo numa altura em que este se encontra fragilizado pela situação de calamidade que se vive no país.
Repito que, ainda que o GSV possa ter razão quando se refere à falta de diálogo entre o poder político e a hierarquia militar, ao adiamento de compra de equipamentos e à sub-orçamentação das despesas com as missões internacionais, isso não justifica a forma como conduziu a sua demissão do cargo de CEME. Por outro lado, JS também sabe que o Governo tem dificuldades em satisfazer as exigências do Exército e por isso afirmou que a gestão corrente e as exigências operacionais das Forças Armadas "terão de ser compatibilizadas com a austeridade financeira" e que, "em vez de ser factor de instabilidade recorrente, a escassez de recursos deve, pelo contrário, potenciar uma gestão mais criteriosa, mais racional e mais eficaz dos orçamentos militares, na base de uma avaliação séria das nossas necessidades em termos de equipamentos e de funcionamento".
Estas afirmações só fortalecem a posição do governo e fragilizam a posição do GSV. Como é então possível assistir a um tão efusivo agradecimento público ao GSV? Só se a sua demissão foi "encomendada" pelo PS...
Quanto ao ponto do desrespeito das hierarquias militares que estaria implícito no jantar dos Ex-CEME e, mais grave, a ameaça que esse repasto público constituía para o regular funcionamento democrático, fico à espera de fundamentação. Sei que um militar reformado, independentemente da patente, deixa de estar obrigado ao dever de reserva sobre matérias políticas, ou seja, vê integralmente restabelecidos todos os direitos liberdades e garantias que assistem a todos os cidadão, excepto, aos militares no activo.
Queiram - falo no plural pois não só no Carimbo vi tirarem este tipo de ilacções - retirar das ameaças que entrevêem as devidas consequências e proponham a mitigação dos direitos liberdades e garantias de ex-militares. De fundamentação que adivinho absurda, devo admitir. Caso contrário, limitem-se a comentar o facto político a que esse evento se resume: a meu ver, importante, significativo, - porque lhes reconheço competência e conhecimento especialzado na matéria - talvez mesmo preocupante mas não nos termos em que surge enquadrado como procurarei explicar.
Acho quase divertido conceber que os oito ex-CEME (em bom rigor incluía-se também um ex-chefe supremo das Forças Armadas) participaram numa manobra orquestrada pelo PS para darem uma machadada no fragilizado governo, surgindo o Presidente da República em lesta e atípica intervenção capitalizadora desses dados.
Se recuperarmos um pouco da história recente no relacionamento entre ministros da defesa e Chefes de Estado Maior facilmente percebemos quão disparatada é esta conclusão que pretende reduzir tudo a uma partidarização. Admito que seja uma hipótese confortável para quem se sente desconfortável com a atitude do ex-CEME e do PR mas está longe de se resumir a isso. Poderíamos até admitir estar na presença de um lobby conservador da defesa mas até essa hipótese me parece demasiado redutora. Diria “Também mas não só...”. Com um pouco de memória facilmente se percebem as fragilidades e incoerência do raciocínio defendido pelo Carimbo.
Quanto ao PR, merece a justiça de se reconhecer que há vários anos alerta para a necessidade de o poder executivo ser consequente com aquilo a que se havia comprometido. Em várias ocasiões o PR zurziu com firmeza e gravidade pouco habitual o poder executivo para que este implementasse a Lei de Programação Militar, a extinção dos Tribunais Militares e dinamiza-se a profissionalização das Forças Amadas, entre outros... Quase tudo caiu em saco roto. A lei de programação militar seguiu em revisões sucessivas e até hoje quase nada foi efectivado. Os tribunais militares continuam a operar e a demagogia impera há mais de uma década – já vem de Cavaco Silva... - em torno do regime de voluntariado no serviço militar. Asneiras sucessivas se fizeram neste último caso...Adiante.
Jorge Sampaio já é presidente há vários anos e atendnedo ao que tem dito e feito repetidas vezes em relação as FA, esta é talvez a área da política nacional onde é mais descabido querer colar as actuais declarações do Chefe Supremo das Forças Armadas a um favor partidário.
Qual tem sido o problema dos governos então? Para reformar, para profissionalizar é preciso num primeiro momento gastar mais (em equipamento, nas carreiras), mesmo reduzindo o pessoal e nenhum partido feito governo teve ainda a coragem de reconhecer e garantir essa evolução. No caso do PS por manifesto desconforto – parece genético –com os assuntos de fardas... Ninguém com peso se deu ao trabalho de pensar as Forças Armadas. O que queremos? Para que as queremos?
Entretanto, uma certa reforma foi-se fazendo, ao ponto de anular boa parte dos tradicionais argumentos anti-militaristas. O contingente do Exercito diminuiu drasticamente sobrando pouco mais da guerra colonial do que o velho equipamento; a Marinha e a Força Área, parece ser consensual, atingiram já a dimensão desejável e estão mais avançadas no processo de profissionalização; as regalias existentes degradaram-se ou foram eliminadas, etc.
Alguns aspectos negativo que sei manterem-se são:
- o desequilíbrio da estrutura hierárquica (excesso de altas patentes para o quadro desejado),
- inexistência de meios operacionais que desapareceram por obsolescência,
- perda de capacidade formação de militares e um pouco cativante regime de carreiras que não garante um contingente mínimo de voluntários com os requisitos académicos mínimos exigidos por umas forças armadas profissionais.
Há não muito tempo o Chefe de Estado Maior da Armada mandou recolher os navios por falta de meios. Os militares destacados esperaram (e esperam?) meses pelas remunerações estabelecidas quando em missão, os pilotos perdem segurança e competência não realizando o número mínimo de horas de voo e o patrulhamento oceânico faz-se ainda, em boa parte, em navios desenhados para defender rios tropicais nos idos de 70.
Não foi o ministro da defesa da altura que deu ordens ao almirante CEMA para recolher os navios.. Este ordenou-o de acordo com as competências que tem à luz da lei e foi um escândalo, se bem se lembram. O senhor Almirante não perdeu a confiança política no ministro, geriu os recursos que tinha da melhor maneira: admitiu que não possuía meios, pura e simplesmente. Relembro, que não era o PSD que estava no governo, era o PS, um partido que só pode ter muito má consciência em tudo o que se relaciona com as Forças Armadas. E andamos nisto há anos sem que se decida o que fazer com as FA. Porque não extingui-las? Quando esta hipótese chegou a ser cogitada com alguma regularidade, António Guterres resolveu, e bem, rentabiliza-las, pondo-as ao serviço da política externa portuguesa, esticando a corda mais e mais ao ignorar os apelos dos “falcões???” militares.
Em suma, os sinais de que se havia chegado a um limite, que urgia decidir politicamente sobre o que fazer das Forças Armadas já foi dado há alguns anos. E este governo faz-se representar junto das FA por um ministro populista, prometedor de um corte com o passado, salvador de combatentes e ex-combatentes que entra em funções suspendendo tudo o que estava em (lento) andamento. Apresenta como obra válida a Lei de Programação Militar. Mas os meses passam e o carácter de urgência sublinhada pelos militares é abafado pela inércia. Tudo se mantém por implementar, as promessas feitas esboroam-se, as indelicadezas para com o CEME somam-se e a intervenção mais activa do ministro junto deste passa por uma tentativa – que eu saiba, não negada, até ao momento – de interferência no calendário de promoções dos oficiais, procurando favorecer um nome concreto. Uma interferência, não fundamentada no quadro do sistema de avaliação vigente no exército cuja gestão e garante é o CEME. E é-o por alguma razão... Só esta última razão invocada pelo agora Ex-CEME me parece mais que válida para que seja denunciada com uma demissão. Ter palavra ainda conta para algumas pessoas e a mensagem que recolhi da demissão do CEME foi de que o Ministro não é homem de palavra nem de respeitar os outros. Demitiu-se como a exacta medida.
Mais acrescento: pobres de nós se tomamos como a conclusão mais relevante atribuir a paternidade desta demissão.
Que Forças Armadas queremos? Quanto estamos dispostos a pagar? Para que devem servir?
sexta-feira, agosto 08, 2003
O dia em que Avis foi ao café
Já alguma vez tentaram entrevistar alguém? Imaginem que estão num sítio onde não conhecem ninguém e ninguém vos conhece. Trazem numa pasta perguntas impressas que terão de fazer a pessoas determinadas: ao Sr. João Alves Pereira Rosado, à Sra. Zulmira Brito, ao Sr. António Silva… Enfim, a pessoas concretas que alguém escolheu como representativas por algum critério para expressarem a opinião do país sobre, por exemplo, as preocupações ambientais.
Há poucos anos, um entrevistador do INE, deslocou-se a Avis para perguntar a residentes seleccionados cerca de uma dúzia de questões sobre ambiente. Levava os nomes, as idades e as moradas. Chegado à vila procurou os endereço, bateu às portas e pouco ou nada conseguiu fazer. Não aparecia ninguém. Andou nisto uma manhã. Quando pedia ajuda a algum dos escassos passantes ninguém conhecia o Sr. João Alves Pereira Rosado ou a Sra. Zulmira Brito… A situação tornava-se desesperante. Até que em mais umas das tentativas um velhote lá aconselhou o inquiridor a desistir do bater às porta e a abancar no café.
Assim fez. Entre tragar um refresco e descansar numa cadeira perguntou pelo Sr. João Rosado…
- O que é que o senhor lhe quer? Perguntou um companheiro de bebida sentado na mesa em frente.
O entrevistador explicou ao que ia, que era do INE de Évora e que queria fazer umas perguntas sobre o ambiente, que não senhor não era para vender nada, nem era preciso cuidar que o assunto não interessava à polícia.
- Então o Sr. João Rosado devo ser eu mas não percebo nada de ambiente, pode pôr aí no papel.
O nosso entrevistador encontrara o Ti João da Fisga , vizinho da Ti Brites (Zulmira Brito) e companheiro das cartas do Ti Tonho Tamanco (António Silva). Os nomes de guerra e as alcunhas não chegaram aos ficheiros centrais do INE… Faltava esclarecer o que era “isso do ambiente”. Mas por mais que repetisse as perguntas de português polido que vinham na papeleta não havia maneira do Ti João da Fisga dar ares de entendimento. E se entendia, continuava desconfiado, parecendo procurar uma razão escondida.
Já os dois se impacientavam quando chega o Ti Tonho que sendo coxo de alcunha se apresentou lesto e voluntarioso em mostrar-se prestável pois tinha um sobrinho no INE de Lisboa e queria ajudar. Mas… “Isso do ambiente é lá nas cidades, com os carros e os aviões, aqui é tudo pacato e sossegado… Não ouve os pardalitos?”. Tudo assim andava, entre risadas e copos pagos, até que o entrevistador falou de água, de águas sujas nos rios. E tudo mudou, mudaram as expressões, o grão da voz, a postura nas cadeiras.“Os maganos das fábricas que nos matam o peixe e que nos engrossam a água no verão.”
Volvidos dez minutos de conversa o café estava a abarrotar de gente disposta a responder ao senhor do INE, demandando ser ouvida, exigindo que se soubesse em Évora e em Lisboa o que pensavam do ambiente na sua terra. Das vinte entrevista previstas, cem se teriam feito sem dificuldade e, no fim, todos agraciaram o senhor do INE que se dignara apresentar-se na terra e lhe rogaram que falasse com as autoridades, que tivessem vergonha e lhes devolvessem o Alentejo onde nasceram.
Pelo que nos diz o Aviz, esta pequena estória inspirada numa outra história partilhada durante um belo repasto alentejano, está bem longe de ser pura ficção.
P.S.: Os nomes são ficcionados está bom de ver...
Já alguma vez tentaram entrevistar alguém? Imaginem que estão num sítio onde não conhecem ninguém e ninguém vos conhece. Trazem numa pasta perguntas impressas que terão de fazer a pessoas determinadas: ao Sr. João Alves Pereira Rosado, à Sra. Zulmira Brito, ao Sr. António Silva… Enfim, a pessoas concretas que alguém escolheu como representativas por algum critério para expressarem a opinião do país sobre, por exemplo, as preocupações ambientais.
Há poucos anos, um entrevistador do INE, deslocou-se a Avis para perguntar a residentes seleccionados cerca de uma dúzia de questões sobre ambiente. Levava os nomes, as idades e as moradas. Chegado à vila procurou os endereço, bateu às portas e pouco ou nada conseguiu fazer. Não aparecia ninguém. Andou nisto uma manhã. Quando pedia ajuda a algum dos escassos passantes ninguém conhecia o Sr. João Alves Pereira Rosado ou a Sra. Zulmira Brito… A situação tornava-se desesperante. Até que em mais umas das tentativas um velhote lá aconselhou o inquiridor a desistir do bater às porta e a abancar no café.
Assim fez. Entre tragar um refresco e descansar numa cadeira perguntou pelo Sr. João Rosado…
- O que é que o senhor lhe quer? Perguntou um companheiro de bebida sentado na mesa em frente.
O entrevistador explicou ao que ia, que era do INE de Évora e que queria fazer umas perguntas sobre o ambiente, que não senhor não era para vender nada, nem era preciso cuidar que o assunto não interessava à polícia.
- Então o Sr. João Rosado devo ser eu mas não percebo nada de ambiente, pode pôr aí no papel.
O nosso entrevistador encontrara o Ti João da Fisga , vizinho da Ti Brites (Zulmira Brito) e companheiro das cartas do Ti Tonho Tamanco (António Silva). Os nomes de guerra e as alcunhas não chegaram aos ficheiros centrais do INE… Faltava esclarecer o que era “isso do ambiente”. Mas por mais que repetisse as perguntas de português polido que vinham na papeleta não havia maneira do Ti João da Fisga dar ares de entendimento. E se entendia, continuava desconfiado, parecendo procurar uma razão escondida.
Já os dois se impacientavam quando chega o Ti Tonho que sendo coxo de alcunha se apresentou lesto e voluntarioso em mostrar-se prestável pois tinha um sobrinho no INE de Lisboa e queria ajudar. Mas… “Isso do ambiente é lá nas cidades, com os carros e os aviões, aqui é tudo pacato e sossegado… Não ouve os pardalitos?”. Tudo assim andava, entre risadas e copos pagos, até que o entrevistador falou de água, de águas sujas nos rios. E tudo mudou, mudaram as expressões, o grão da voz, a postura nas cadeiras.“Os maganos das fábricas que nos matam o peixe e que nos engrossam a água no verão.”
Volvidos dez minutos de conversa o café estava a abarrotar de gente disposta a responder ao senhor do INE, demandando ser ouvida, exigindo que se soubesse em Évora e em Lisboa o que pensavam do ambiente na sua terra. Das vinte entrevista previstas, cem se teriam feito sem dificuldade e, no fim, todos agraciaram o senhor do INE que se dignara apresentar-se na terra e lhe rogaram que falasse com as autoridades, que tivessem vergonha e lhes devolvessem o Alentejo onde nasceram.
Pelo que nos diz o Aviz, esta pequena estória inspirada numa outra história partilhada durante um belo repasto alentejano, está bem longe de ser pura ficção.
P.S.: Os nomes são ficcionados está bom de ver...
Como preparar uma bela refeição com "as sobras"
"O que fica para lá do litoral do país é uma massa de gente que sobrou. Não é gente que ficou por opção, porque gosta mais do campo do que da cidade. Não. É gente que sobrou, que ficou de fora da história do nosso moderno "progresso". Enquanto continuarmos a ver crescer um país assim, onde se imagina que o povoamento do campo se faz com os que sobrarem lá, a floresta há-de arder, as pontes hão-de cair e outras desgraças previsíveis também vão acontecer."
Ainda que já tenha tido a felicidade de encontrar quem more e goste de morar no interior do país, o Acho Eu no seu post O que fazer com o interior deste País? apresenta outras generalidades possíveis e, em meu entender, mais prováveis que se opõem à ideia provinciana que muitos temos da...província. Sublinho que já vai havendo opiniões dos próprios, os que "lá" moram, mesmo aqui na blogoesfera. Transmontar foi o último bom exemplo que encontrei...
"O que fica para lá do litoral do país é uma massa de gente que sobrou. Não é gente que ficou por opção, porque gosta mais do campo do que da cidade. Não. É gente que sobrou, que ficou de fora da história do nosso moderno "progresso". Enquanto continuarmos a ver crescer um país assim, onde se imagina que o povoamento do campo se faz com os que sobrarem lá, a floresta há-de arder, as pontes hão-de cair e outras desgraças previsíveis também vão acontecer."
Ainda que já tenha tido a felicidade de encontrar quem more e goste de morar no interior do país, o Acho Eu no seu post O que fazer com o interior deste País? apresenta outras generalidades possíveis e, em meu entender, mais prováveis que se opõem à ideia provinciana que muitos temos da...província. Sublinho que já vai havendo opiniões dos próprios, os que "lá" moram, mesmo aqui na blogoesfera. Transmontar foi o último bom exemplo que encontrei...
O algodão não engana...
Um amigo mandou-me um artigo da Economist de 19 de Julho onde se avalia o mercado de trabalho britânico nos seguintes termos:
"British workers are rebelling against long hours in the office
THE economy has slowed down but the labour market remains resilient. The latest figures show that unemployment has fallen and employment has risen. The ratio of employment to the working-age population is close to its all-time high. The government is both proud of this and worried that Britons work too hard. Pushing the "work-life balance" agenda, Patricia Hewitt, the trade and industry secretary, says that Britain's "long-hours culture" is "macho" and "old-fashioned".
Um governo preocupado com o trabalho excessivo dos seus cidadãos é já de si uma notícia a destacar mas há, mais adiante, uma frase que nos interessa... Segue-se uma análise comparativa dos hábitos laborais no continente e no Reino Unido e a páginas tantas lê-se isto:
"Looking at both part-time and full-time workers, the contrast with the EU becomes less marked. Taking into account holidays, average working hours are higher than in most European equivalents but lower than in Greece, Spain and Portugal."
Meus amigos... Alguém se deve ter enganado nas contas... Ou será que não?
Bom, para terminar mais uns parágrafos desta insuspeita revista liberal dedicados a quem fizer o favor de enfiar o barrete:
"The government, by going on about the "work-life balance" may have helped persuade people that staying at home isn't necessarily skiving. Attitudes among graduates are changing. "They are less willing to devote life and soul to their companies in their early years," says Nigel Meager, deputy director of the Institute for Employment Studies.
Looked at in the long term, there's nothing odd about this. Over the past 100 years (see chart) people have worked less and less as they have chosen to take some of the rewards of rising prosperity in the form of more leisure. It was the 1980s and early 1990s, as professionals first stepped up their work effort and then stuck at their desks in the hope of keeping their jobs, that were an aberration. Now workers are reverting to a familiar pattern, and sloping off from the office earlier and earlier. The government's campaign for the work-life balance looks redundant: life is winning"
Life is winning in the UK! Que esta novidade não demore 20 anos a chegar cá...
"Clocking off
Jul 17th 2003
From The Economist print edition"
Um amigo mandou-me um artigo da Economist de 19 de Julho onde se avalia o mercado de trabalho britânico nos seguintes termos:
"British workers are rebelling against long hours in the office
THE economy has slowed down but the labour market remains resilient. The latest figures show that unemployment has fallen and employment has risen. The ratio of employment to the working-age population is close to its all-time high. The government is both proud of this and worried that Britons work too hard. Pushing the "work-life balance" agenda, Patricia Hewitt, the trade and industry secretary, says that Britain's "long-hours culture" is "macho" and "old-fashioned".
Um governo preocupado com o trabalho excessivo dos seus cidadãos é já de si uma notícia a destacar mas há, mais adiante, uma frase que nos interessa... Segue-se uma análise comparativa dos hábitos laborais no continente e no Reino Unido e a páginas tantas lê-se isto:
"Looking at both part-time and full-time workers, the contrast with the EU becomes less marked. Taking into account holidays, average working hours are higher than in most European equivalents but lower than in Greece, Spain and Portugal."
Meus amigos... Alguém se deve ter enganado nas contas... Ou será que não?
Bom, para terminar mais uns parágrafos desta insuspeita revista liberal dedicados a quem fizer o favor de enfiar o barrete:
"The government, by going on about the "work-life balance" may have helped persuade people that staying at home isn't necessarily skiving. Attitudes among graduates are changing. "They are less willing to devote life and soul to their companies in their early years," says Nigel Meager, deputy director of the Institute for Employment Studies.
Looked at in the long term, there's nothing odd about this. Over the past 100 years (see chart) people have worked less and less as they have chosen to take some of the rewards of rising prosperity in the form of more leisure. It was the 1980s and early 1990s, as professionals first stepped up their work effort and then stuck at their desks in the hope of keeping their jobs, that were an aberration. Now workers are reverting to a familiar pattern, and sloping off from the office earlier and earlier. The government's campaign for the work-life balance looks redundant: life is winning"
Life is winning in the UK! Que esta novidade não demore 20 anos a chegar cá...
"Clocking off
Jul 17th 2003
From The Economist print edition"
Aos poucos...
Lá vou lendo mais uns quantos blogues. É de facto fantástico este meio. Dá gozo ouvir os outros, saber que eles existem. Pela minha parte há uma solidão que desaparece ao conhecer um pouco mais deste país. Tenho mais fé e esperança. Um bom tónico para melhorar os níveis de confiança.
Entretanto a coluna ali da esquerda vai-se alongando, felizmente.
Lá vou lendo mais uns quantos blogues. É de facto fantástico este meio. Dá gozo ouvir os outros, saber que eles existem. Pela minha parte há uma solidão que desaparece ao conhecer um pouco mais deste país. Tenho mais fé e esperança. Um bom tónico para melhorar os níveis de confiança.
Entretanto a coluna ali da esquerda vai-se alongando, felizmente.
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