quinta-feira, agosto 14, 2003
TSF
Quem quer murros no estômago?
Outro apontamento polémico e instrutivo do Guerra e Pas publicado há poucas horas...(aqui) Não me tomem como arrogante ao estar para aqui só a dar dicas. É boa música e eu gosto de sugerir bons tocadores de Adufe.
A seguir atentamente.
Quanto ao Abrupto, se bem o entendi, ao recuperar o diagnóstico e as perspectivas enunciadas num artigo de 2000, denuncia, na conjuntura actual, o governo como co-responsável pela extinção da TSF enquanto rádio noticiosa. Fica um excerto e a ligação para o texto integral (que já quase todos terão lido mas enfim). Termino no final com um breve considerando...
"(...)«Já ninguém é suficientemente ingénuo para pensar que a interferência do governo na comunicação social se faz por telefonemas directos dos ministros, embora ainda os haja. As formas são mais sofisticadas uma das quais são as "reestruturações" em nome da eficácia dos "negócios" que condicionam carreiras, postos, compromissos e o destino de jornais e rádios. Também aí há alguém a premiar quem se porta bem e quem se porta mal e esse alguém está no governo, ou depende do governo.»
Este foi o contexto da compra da Lusomundo pela PT e as consequências previsíveis para quem pensasse um pouco. Acrescento apenas que de há muito penso que um governo, qualquer governo, seja socialista ou social-democrata, não deve controlar órgãos de comunicação social, quer directa, quer indirectamente e que tendo meios para os controlar , usa-os sempre. É válido para a RTP, para a Lusa, para todo o sistema comunicacional ligado a empresas públicas.
Se hoje se vê, no fim da TSF como emissora noticiosa, um manobra grave contra o pluralismo informativo, convém ir atrás, à raiz do problema."
Aparentemente - será que algum dia deixaremos de necessitar deste advérbio? - não será fácil recriar uma nova TSF se houver essa necessidade. Mas esta é uma batalha como já aqui disse. A guerra pelo pluralismo informativo segue também aqui, na blogoesfera...
Este é um dos casos em que dava jeito que a racionalidade económica restringida a uma empresa prevalecesse sobre outros pardos valores.
Como se ganha e perde credibilidade nos média e qual a sua importância para o sucesso /sobrevivência de um orgão de comunicação social concreto?
Quem quer murros no estômago?
Outro apontamento polémico e instrutivo do Guerra e Pas publicado há poucas horas...(aqui) Não me tomem como arrogante ao estar para aqui só a dar dicas. É boa música e eu gosto de sugerir bons tocadores de Adufe.
A seguir atentamente.
Quanto ao Abrupto, se bem o entendi, ao recuperar o diagnóstico e as perspectivas enunciadas num artigo de 2000, denuncia, na conjuntura actual, o governo como co-responsável pela extinção da TSF enquanto rádio noticiosa. Fica um excerto e a ligação para o texto integral (que já quase todos terão lido mas enfim). Termino no final com um breve considerando...
"(...)«Já ninguém é suficientemente ingénuo para pensar que a interferência do governo na comunicação social se faz por telefonemas directos dos ministros, embora ainda os haja. As formas são mais sofisticadas uma das quais são as "reestruturações" em nome da eficácia dos "negócios" que condicionam carreiras, postos, compromissos e o destino de jornais e rádios. Também aí há alguém a premiar quem se porta bem e quem se porta mal e esse alguém está no governo, ou depende do governo.»
Este foi o contexto da compra da Lusomundo pela PT e as consequências previsíveis para quem pensasse um pouco. Acrescento apenas que de há muito penso que um governo, qualquer governo, seja socialista ou social-democrata, não deve controlar órgãos de comunicação social, quer directa, quer indirectamente e que tendo meios para os controlar , usa-os sempre. É válido para a RTP, para a Lusa, para todo o sistema comunicacional ligado a empresas públicas.
Se hoje se vê, no fim da TSF como emissora noticiosa, um manobra grave contra o pluralismo informativo, convém ir atrás, à raiz do problema."
Aparentemente - será que algum dia deixaremos de necessitar deste advérbio? - não será fácil recriar uma nova TSF se houver essa necessidade. Mas esta é uma batalha como já aqui disse. A guerra pelo pluralismo informativo segue também aqui, na blogoesfera...
Este é um dos casos em que dava jeito que a racionalidade económica restringida a uma empresa prevalecesse sobre outros pardos valores.
Como se ganha e perde credibilidade nos média e qual a sua importância para o sucesso /sobrevivência de um orgão de comunicação social concreto?
Na mosca!! (TSF)
Do Guerra e Pas:
A única solução, a quadratura do círculo, passa por uma reformulação da política comercial da TSF, assumindo perante as agências e os anunciantes que aquele é um Media Vintage, um media onde só alguns podem anunciar e têm de pagar um valor premium por isso. Para tal, a administração tem de acreditar no excelente produto que tem, arregaçar as mangas e bater com o punho na mesa, nas suas reuniões com o mercado. Isso demora tempo, mas estou convencido que é possível.
Assino por baixo...
P.S.: Excelente descrição do mercado da publicidade que em tempos conheci com algum detalhe aqui, no Guerra e Pas.
Do Guerra e Pas:
A única solução, a quadratura do círculo, passa por uma reformulação da política comercial da TSF, assumindo perante as agências e os anunciantes que aquele é um Media Vintage, um media onde só alguns podem anunciar e têm de pagar um valor premium por isso. Para tal, a administração tem de acreditar no excelente produto que tem, arregaçar as mangas e bater com o punho na mesa, nas suas reuniões com o mercado. Isso demora tempo, mas estou convencido que é possível.
Assino por baixo...
P.S.: Excelente descrição do mercado da publicidade que em tempos conheci com algum detalhe aqui, no Guerra e Pas.
Strange Angels (Laurie Anderson)
They say that heaven is like TV
A perfect little world
that doesn't really need you
And everything there
is made of light
And the days keep going by
Here they come Here they come
Here they come.
Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner
and they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator -
They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night
Strange angels - singing just for me
Old stories - they're haunting me
This is nothing
like I thought it would be.
Well I was out in my four door
with the top down.
And I looked up and there they were:
Millions of tiny teardrops
just sort of hanging there
And I didn't know whether to laugh or cry
And I said to myself:
What next big sky?
Strange angels - singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling Falling all over me
All over me
Strange angels - singing just for me
Old Stories - they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come.
They say that heaven is like TV
A perfect little world
that doesn't really need you
And everything there
is made of light
And the days keep going by
Here they come Here they come
Here they come.
Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner
and they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator -
They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night
Strange angels - singing just for me
Old stories - they're haunting me
This is nothing
like I thought it would be.
Well I was out in my four door
with the top down.
And I looked up and there they were:
Millions of tiny teardrops
just sort of hanging there
And I didn't know whether to laugh or cry
And I said to myself:
What next big sky?
Strange angels - singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling Falling all over me
All over me
Strange angels - singing just for me
Old Stories - they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come.
quarta-feira, agosto 13, 2003
Mais uma do baú
Memórias de um Proto-Blogue V
Crónicas Rapidinhas sobre Tansos:
André e a Secular Rede da Boa Vontade
Chamemos-lhe André. André é um rapaz a rondar os 20 anos, tem uma cara juvenil e uma capacidade de representação razoável. Este rapaz apresenta aos passageiros da linha de Sintra, na estação do Rossio, uma variante interessante do pedinte de comboio. A sua imagem é completamente oposta à do pedinte clássico que ainda vai resistindo: o indivíduo chungoso e fedorento, de baixa estatura e envergadura diminuida pela dependência e pela imunodeficiência adquirida, que vai tentando vender pensos rápidos a 100 paus a dúzia.
O André não é mal parecido, é asseado, anda sempre bem vestido - de pólo ou T-shirt com boas calças de ganga e tenis a condizer ou então de fato cinzento - e faz-se acompanhar de uma pequena pasta portfólio que completa a figura de indefeso estudante do secundário ou universitário.
Composto o boneco, o André lança a linha com um dizer relativamente comum mas ainda não saturado nestas andanças das carroagens de comboio: «A senhora [alvos preferências entre potenciais mães ou pais de adolescentes] não me podia dar qualquer coisa para acabar de pagar o bilhete? É que perdi o passe e estou desprevenido... Só tenho 100 escudos....»
Nos primeiros tempos, o sucesso do esquema é razoável, pois o boneco está bem feitinho e é bem diferente da tal imagem preconcebida a que as pessoas reagem com uma automática recusa.
Quando o André me interpelou pela primeira vez, confesso que fiquei espantado com a sofisticação e demorei mais um segundo do que devia para responder negativamente ao pedido.
Poucos dias depois, volto a encontrar o André no Rossio com outra roupa e outra pasta, mas com o mesmo boneco e esquema. Quase lhe bati palmas: a representação melhorava de dia para dia! No entanto, quando me interpelou novamente, brindei-o com o silêncio e um olhar imperturbável bem fixo na cara dele o que me valeu, desde então, ser poupado a futuras exibições personalizadas.
Hoje, passados alguns meses após o primeiro encontro, tornei a ver o André no comboio (vem lá ao fundo da carroagem, neste momento) ainda com a mesma ladainha e esquema. A avaliar pelas contribuições, o negócio já teve melhores dias, quase só sobram as senhoras de bom coração que não têm ido corrigir as dioptrias ultimamente, mesmo assim, ainda vai rendendo qualquer coisa, não é André? O tipo ainda me conhece! Passou por mim agora mesmo, poupando latim.
É preciso ter lata, mas mais importante do que isso é preciso ter dinheiro. André tem conseguido doses bem aviadas de tudo isto e tem ainda o filão da linha de Cascais para explorar (qualquer dia terá também a do Pinhal Novo). Desejo-lhe boa memória para me continuar a reconhecer e desejo-me a fortuna de nunca precisar de recorrer à generosidade alheia em região já batida e chupada pelo André; já agora, desejo o mesmo para vocês.
*
Hoje, ao início da tarde - alguns dias depois do anterior «hoje» que vem ali mais acima -, voltei a ver o André na estação do Rossio. Estava no grande átrio onde se vendem jornais, bilhetes e pipocas.
A indumentária era a do esquema e tudo indicava que ia começar mais um dia de trabalho, mas havia uma novidade, uma novidade para mim, não para a verdadeira história quotidiana da linha: com o André estavam mais dois Andrés. Um talvez fosse o António: “vestia” a sua pastinha de apontamentos que trazia na mão esquerda juntamente com o caderno escolar que encostava à T-Shirt da moda. O outro, mais velho, parecia coordenar as tarefas do dia distribuindo direcções e instruções para os Andrés. Este outro parecia menos universitário, mas também não tive tempo para o topar em condições. Num instante se separaram em direcção às várias linhas da gare do Rossio. A rede da boa vontade voltava a atacar os generosos e indefesos cidadãos suburbanos.
Hoje é terça feira, dia de feira da ladra, há pombos, fumo, enganos, rugas e olheiras. Parece Inverno este Verão. Acho que não devia, mas tenho nojo de alguma coisa.
Mem Martins, 24 de Julho de 1997
Memórias de um Proto-Blogue V
Crónicas Rapidinhas sobre Tansos:
André e a Secular Rede da Boa Vontade
Chamemos-lhe André. André é um rapaz a rondar os 20 anos, tem uma cara juvenil e uma capacidade de representação razoável. Este rapaz apresenta aos passageiros da linha de Sintra, na estação do Rossio, uma variante interessante do pedinte de comboio. A sua imagem é completamente oposta à do pedinte clássico que ainda vai resistindo: o indivíduo chungoso e fedorento, de baixa estatura e envergadura diminuida pela dependência e pela imunodeficiência adquirida, que vai tentando vender pensos rápidos a 100 paus a dúzia.
O André não é mal parecido, é asseado, anda sempre bem vestido - de pólo ou T-shirt com boas calças de ganga e tenis a condizer ou então de fato cinzento - e faz-se acompanhar de uma pequena pasta portfólio que completa a figura de indefeso estudante do secundário ou universitário.
Composto o boneco, o André lança a linha com um dizer relativamente comum mas ainda não saturado nestas andanças das carroagens de comboio: «A senhora [alvos preferências entre potenciais mães ou pais de adolescentes] não me podia dar qualquer coisa para acabar de pagar o bilhete? É que perdi o passe e estou desprevenido... Só tenho 100 escudos....»
Nos primeiros tempos, o sucesso do esquema é razoável, pois o boneco está bem feitinho e é bem diferente da tal imagem preconcebida a que as pessoas reagem com uma automática recusa.
Quando o André me interpelou pela primeira vez, confesso que fiquei espantado com a sofisticação e demorei mais um segundo do que devia para responder negativamente ao pedido.
Poucos dias depois, volto a encontrar o André no Rossio com outra roupa e outra pasta, mas com o mesmo boneco e esquema. Quase lhe bati palmas: a representação melhorava de dia para dia! No entanto, quando me interpelou novamente, brindei-o com o silêncio e um olhar imperturbável bem fixo na cara dele o que me valeu, desde então, ser poupado a futuras exibições personalizadas.
Hoje, passados alguns meses após o primeiro encontro, tornei a ver o André no comboio (vem lá ao fundo da carroagem, neste momento) ainda com a mesma ladainha e esquema. A avaliar pelas contribuições, o negócio já teve melhores dias, quase só sobram as senhoras de bom coração que não têm ido corrigir as dioptrias ultimamente, mesmo assim, ainda vai rendendo qualquer coisa, não é André? O tipo ainda me conhece! Passou por mim agora mesmo, poupando latim.
É preciso ter lata, mas mais importante do que isso é preciso ter dinheiro. André tem conseguido doses bem aviadas de tudo isto e tem ainda o filão da linha de Cascais para explorar (qualquer dia terá também a do Pinhal Novo). Desejo-lhe boa memória para me continuar a reconhecer e desejo-me a fortuna de nunca precisar de recorrer à generosidade alheia em região já batida e chupada pelo André; já agora, desejo o mesmo para vocês.
*
Hoje, ao início da tarde - alguns dias depois do anterior «hoje» que vem ali mais acima -, voltei a ver o André na estação do Rossio. Estava no grande átrio onde se vendem jornais, bilhetes e pipocas.
A indumentária era a do esquema e tudo indicava que ia começar mais um dia de trabalho, mas havia uma novidade, uma novidade para mim, não para a verdadeira história quotidiana da linha: com o André estavam mais dois Andrés. Um talvez fosse o António: “vestia” a sua pastinha de apontamentos que trazia na mão esquerda juntamente com o caderno escolar que encostava à T-Shirt da moda. O outro, mais velho, parecia coordenar as tarefas do dia distribuindo direcções e instruções para os Andrés. Este outro parecia menos universitário, mas também não tive tempo para o topar em condições. Num instante se separaram em direcção às várias linhas da gare do Rossio. A rede da boa vontade voltava a atacar os generosos e indefesos cidadãos suburbanos.
Hoje é terça feira, dia de feira da ladra, há pombos, fumo, enganos, rugas e olheiras. Parece Inverno este Verão. Acho que não devia, mas tenho nojo de alguma coisa.
Mem Martins, 24 de Julho de 1997
Por mares plenos de sensualidade e perfídia.
Da TSF
BANDA DESENHADA
Mulher, a heroína dos quadradinhos
Este ano, o Festival Internacional de BD da Amadora promove concursos de BD e cartoon cujo tema central é a mulher. As inscrições já estão abertas. A 14ª edição do festival decorre de 17 de Outubro a 2 de Novembro.
Da TSF
BANDA DESENHADA
Mulher, a heroína dos quadradinhos
Este ano, o Festival Internacional de BD da Amadora promove concursos de BD e cartoon cujo tema central é a mulher. As inscrições já estão abertas. A 14ª edição do festival decorre de 17 de Outubro a 2 de Novembro.
Toma lá, dá cá
A propósito do meu post sobre a carta aberta de um oficial do Exército no Público interessante e divergeeeeeeente a opinião expressa aqui.
Em jeito de comentário na troca de e-mails com o Quinto dos Infernos retribui o seguinte troco (com ligeiríssimas correcções):
"Uma das diferenças entre as duas formas de ler a carta, parte do nível de expectativas. Não li a carta à procura das "explicações" para este último caso - o da demissão do General. E julgo que não era esse o objectivo (principal) do Major. Se tivesse outras expectativas até compreendo a sua frustração sobre a carta.
Também tenho alguma, pouca, família no meio e longe das altas patentes, concretamente, na Marinha.
E se há facto de que não tenho dúvida é que o mau estar é geral na Marinha, também. E não se resume ao episódio Paulo Portas, é bastante anterior. E passa pela organização interna do ramo, pela falta de respeito, por não se honrarem os compromissos, por abusarem do voto de silêncio obrigatório, pelo tratamento discriminatório face a outras forças para-militares, pelas condições de trabalho, pelo equipamento disponível, pela falta de objectivos claros. Os levantamentos de rancho não são caso exclusivo do exército, por exemplo. Neste ponto remeto-o para a polémica com o Carimbo e para o post em defesa do PR que surge no adufe onde abordei de passagem alguns destes aspectos.
Admito que no exército, habituado por exemplo a um papel que vai perdendo na própria lógica militar moderna e bem mais atrasado no caminho da racionalização (a começar pelo excessivo quadro de oficiais) e modernização haja também um exagero de "instinto de sobrevivência". Mas esse exagero não nos pode toldar para a realidade das FA's nos últimos anos (a minha memória recua aos tempos de Fernando Nogueira não mais). O poder político tem sido sistematicamente irresponsável na política de defesa. Julgo que mudar esses estado de coisas e ter consciência dele é bem mais importante do que o sintoma grave recente protagonizado pelo Ge. Silva Viegas."
A propósito do meu post sobre a carta aberta de um oficial do Exército no Público interessante e divergeeeeeeente a opinião expressa aqui.
Em jeito de comentário na troca de e-mails com o Quinto dos Infernos retribui o seguinte troco (com ligeiríssimas correcções):
"Uma das diferenças entre as duas formas de ler a carta, parte do nível de expectativas. Não li a carta à procura das "explicações" para este último caso - o da demissão do General. E julgo que não era esse o objectivo (principal) do Major. Se tivesse outras expectativas até compreendo a sua frustração sobre a carta.
Também tenho alguma, pouca, família no meio e longe das altas patentes, concretamente, na Marinha.
E se há facto de que não tenho dúvida é que o mau estar é geral na Marinha, também. E não se resume ao episódio Paulo Portas, é bastante anterior. E passa pela organização interna do ramo, pela falta de respeito, por não se honrarem os compromissos, por abusarem do voto de silêncio obrigatório, pelo tratamento discriminatório face a outras forças para-militares, pelas condições de trabalho, pelo equipamento disponível, pela falta de objectivos claros. Os levantamentos de rancho não são caso exclusivo do exército, por exemplo. Neste ponto remeto-o para a polémica com o Carimbo e para o post em defesa do PR que surge no adufe onde abordei de passagem alguns destes aspectos.
Admito que no exército, habituado por exemplo a um papel que vai perdendo na própria lógica militar moderna e bem mais atrasado no caminho da racionalização (a começar pelo excessivo quadro de oficiais) e modernização haja também um exagero de "instinto de sobrevivência". Mas esse exagero não nos pode toldar para a realidade das FA's nos últimos anos (a minha memória recua aos tempos de Fernando Nogueira não mais). O poder político tem sido sistematicamente irresponsável na política de defesa. Julgo que mudar esses estado de coisas e ter consciência dele é bem mais importante do que o sintoma grave recente protagonizado pelo Ge. Silva Viegas."
Que me faz pensar (rev.)
Fiquei a matutar no Super Escola do Alfacinha. No post enuncia uma cassete a que uma certa esquerda recorre - e por vezes alguma direita quando está na oposição (!) - para denunciar o supostamente pernicioso raciocínio economicista de medidas como o encerramento de escolas com menos de 10 alunos. Ainda que concorde teoricamente com os fundamentos de alguns desses argumentos fica-me na memória a desautorização conquistada por esses críticos aquando da passagem pelo poder (falo do PS). E não é irrelevante para a força do argumento, quem o divulga. Para mim não é. Hoje revolvem-se-me tanto as entranhas a ouvir esses senhores com esses argumentos quanto o carcinogénico Paulo Portas.
Há um anátema que colhe a minha simpatia: o PS, neste momento a única esquerda de que apesar de tudo vale a pena falar, é co-responsável pela necessidade de se reformar dolorosamente o país, ou mesmo, por não se conseguir reformar o país nalgumas áreas. O que fizeram, a falta de visão e de racionalidade deram e darão ainda folga ao actual poder para acumular asneiras – medidas a eito com forte receio e, noutros casos, desinteresse em se olhar para trás ou para os lados. Faltam ainda muitas asneiras por cumprir sem que com isso se ultrapasse o passivo acumulado do PS. E esse passivo só foi e é potenciado sempre que se admite que o acto de contrição se resumiu aos resultado das últimas eleições. O impacto de ausência de acção não se conhecia integralmente em Abril de 2002. E ainda que hoje as responsabilidade seja mais difusa por termos outro poder é difícil eliminar o travo a PS no que de mal vai no país. Onde esteve o engenho para sugerir e em alguns casos apoiar o actual governo a resolver os problemas criados? Faltou humildade e honestidade, como geralmente falta sempre a partidos com interesses imediatistas, de vistas curtas. Fez mal ao PS ter ficado a uma unha negra de ganhar as eleições. Mas já estou a divagar…
Como pergunta o Alfacinha, às vezes parece que a racionalidade para certas pessoas não pode ser um critério suficiente para decidir. Ser racional é ser de direita? Espero bem que não, senão...
Pode ser racional, geralmente é, poupar para investir. Tal como o é para sobreviver. Contabilizar as consequências da poupança e os benefícios do investimento constituem o principal desafio de quem se propõe desempenhar poder executivo. Perceber as premissas que fundamentam as políticas seguidas é a prova final a que devemos submeter a teoria programática inicial. Só conhecedores dessa racionalidade podemos perceber se se ajusta à que idealizamos. Aos nosso interesses.
Uma racionalidade que tragicamente ficou manca quando o governo actual decidiu poupar na prevenção de incêndios, por exemplo (leia-se o D.Económico de hoje aqui). Ou quando resolveu encerrar tudo (ou quase tudo) o que seja ensino recorrente - neste caso produzindo pequenas tragédias que não chegam às notícias mas que nada ajudam para que o país ande de cabeça erguida.
Para crianças de 5 anos:
Nem tudo o que é feito sob o pretexto da racionalização é mau ou bom. Nem tudo o que é guiado por conhecimentos económicos é mau ou bom, depende daquilo que é valorado e daquilo que achamos devesse ser valorado. Não há pachorra para aturar rótulos vazios, de gente vazia. Mas é impressionante como tantos políticos tentam colar bizarras conotações (ou a ausência de conotação !) a palavras que teimam em resistir àquilo que querem que elas passem a ser. E é na avaliação do comportamento racional - para o bem comum - de quem está no poder, ou na oposição, que nos devemos basear para efectuar as nossas escolhas políticas.
Eu escolho a honestidade (intelectual) ao poder!
Fiquei a matutar no Super Escola do Alfacinha. No post enuncia uma cassete a que uma certa esquerda recorre - e por vezes alguma direita quando está na oposição (!) - para denunciar o supostamente pernicioso raciocínio economicista de medidas como o encerramento de escolas com menos de 10 alunos. Ainda que concorde teoricamente com os fundamentos de alguns desses argumentos fica-me na memória a desautorização conquistada por esses críticos aquando da passagem pelo poder (falo do PS). E não é irrelevante para a força do argumento, quem o divulga. Para mim não é. Hoje revolvem-se-me tanto as entranhas a ouvir esses senhores com esses argumentos quanto o carcinogénico Paulo Portas.
Há um anátema que colhe a minha simpatia: o PS, neste momento a única esquerda de que apesar de tudo vale a pena falar, é co-responsável pela necessidade de se reformar dolorosamente o país, ou mesmo, por não se conseguir reformar o país nalgumas áreas. O que fizeram, a falta de visão e de racionalidade deram e darão ainda folga ao actual poder para acumular asneiras – medidas a eito com forte receio e, noutros casos, desinteresse em se olhar para trás ou para os lados. Faltam ainda muitas asneiras por cumprir sem que com isso se ultrapasse o passivo acumulado do PS. E esse passivo só foi e é potenciado sempre que se admite que o acto de contrição se resumiu aos resultado das últimas eleições. O impacto de ausência de acção não se conhecia integralmente em Abril de 2002. E ainda que hoje as responsabilidade seja mais difusa por termos outro poder é difícil eliminar o travo a PS no que de mal vai no país. Onde esteve o engenho para sugerir e em alguns casos apoiar o actual governo a resolver os problemas criados? Faltou humildade e honestidade, como geralmente falta sempre a partidos com interesses imediatistas, de vistas curtas. Fez mal ao PS ter ficado a uma unha negra de ganhar as eleições. Mas já estou a divagar…
Como pergunta o Alfacinha, às vezes parece que a racionalidade para certas pessoas não pode ser um critério suficiente para decidir. Ser racional é ser de direita? Espero bem que não, senão...
Pode ser racional, geralmente é, poupar para investir. Tal como o é para sobreviver. Contabilizar as consequências da poupança e os benefícios do investimento constituem o principal desafio de quem se propõe desempenhar poder executivo. Perceber as premissas que fundamentam as políticas seguidas é a prova final a que devemos submeter a teoria programática inicial. Só conhecedores dessa racionalidade podemos perceber se se ajusta à que idealizamos. Aos nosso interesses.
Uma racionalidade que tragicamente ficou manca quando o governo actual decidiu poupar na prevenção de incêndios, por exemplo (leia-se o D.Económico de hoje aqui). Ou quando resolveu encerrar tudo (ou quase tudo) o que seja ensino recorrente - neste caso produzindo pequenas tragédias que não chegam às notícias mas que nada ajudam para que o país ande de cabeça erguida.
Para crianças de 5 anos:
Nem tudo o que é feito sob o pretexto da racionalização é mau ou bom. Nem tudo o que é guiado por conhecimentos económicos é mau ou bom, depende daquilo que é valorado e daquilo que achamos devesse ser valorado. Não há pachorra para aturar rótulos vazios, de gente vazia. Mas é impressionante como tantos políticos tentam colar bizarras conotações (ou a ausência de conotação !) a palavras que teimam em resistir àquilo que querem que elas passem a ser. E é na avaliação do comportamento racional - para o bem comum - de quem está no poder, ou na oposição, que nos devemos basear para efectuar as nossas escolhas políticas.
Eu escolho a honestidade (intelectual) ao poder!
Escrita Inteligente...ora aí está um bom nome para um blog
O José Mário Silva tornou público que lhe desvendaram os mistérios da escrita inteligente do seu Nokia (tal anunciação ainda não chegou aos meus neurónios, confesso). Mas o que me apetece-me lembrar é que... [Publicidade: "Você acabou dji ganhar um novo celular!! Ligue 345-meia-meia-3-2 da rede de São Paulo!!"] ... os brasileiros inventaram a númeração inteligente há bueda anos!
Bjs e abrços p tds!
O José Mário Silva tornou público que lhe desvendaram os mistérios da escrita inteligente do seu Nokia (tal anunciação ainda não chegou aos meus neurónios, confesso). Mas o que me apetece-me lembrar é que... [Publicidade: "Você acabou dji ganhar um novo celular!! Ligue 345-meia-meia-3-2 da rede de São Paulo!!"] ... os brasileiros inventaram a númeração inteligente há bueda anos!
Bjs e abrços p tds!
terça-feira, agosto 12, 2003
O determinismo geográfico
Não resisto a fazer eco de último post de Pedro Machado no País Relativo:
"A canícula alemã ou Montesquieu revisitado:
Durante estes dias de intensa e constante canícula, os alemães andam desorientados. Carregam olheiras de noites dormidas a espaços, circulam empapados em suor. Atiram-se sofregamente a ventoinhas e aparelhos de ar condicionado, baixam às urgências hospitalares com queixas de insolação e desidratação. O correio atrasa-se, as entregas ao domícilio eternizam-se. Os patrões desesperam com a fraca produtividade dos empregados, estes com a generalizada falta de climatização dos locais de trabalho. Metros e comboios convertidos em estufas, centrais nucleares, tal como em França, a transpirar e a ameaçar gripar - e lá se vai o ar condicionado ainda agora comprado. Um país virado do avesso, um país subitamente com hábitos e ritmos mediterrânicos. Só que mais perdido, ofegante e exasperado pela falta de hábito. Será que, no meio de tanto desajustamento, sucumbirão à poligamia que Montesquieu dizia própria dos climas quentes?"
Apenas acrescento: Maldito Determinismo Geográfico! E não é que os portugueses que lá moram têm excelentes índices de produtividade?!??! A juntar ao Algodão não engana que está ali em baixo resta dizer: É a pólvora meus caros, a verdadeira pólvora!
Não resisto a fazer eco de último post de Pedro Machado no País Relativo:
"A canícula alemã ou Montesquieu revisitado:
Durante estes dias de intensa e constante canícula, os alemães andam desorientados. Carregam olheiras de noites dormidas a espaços, circulam empapados em suor. Atiram-se sofregamente a ventoinhas e aparelhos de ar condicionado, baixam às urgências hospitalares com queixas de insolação e desidratação. O correio atrasa-se, as entregas ao domícilio eternizam-se. Os patrões desesperam com a fraca produtividade dos empregados, estes com a generalizada falta de climatização dos locais de trabalho. Metros e comboios convertidos em estufas, centrais nucleares, tal como em França, a transpirar e a ameaçar gripar - e lá se vai o ar condicionado ainda agora comprado. Um país virado do avesso, um país subitamente com hábitos e ritmos mediterrânicos. Só que mais perdido, ofegante e exasperado pela falta de hábito. Será que, no meio de tanto desajustamento, sucumbirão à poligamia que Montesquieu dizia própria dos climas quentes?"
Apenas acrescento: Maldito Determinismo Geográfico! E não é que os portugueses que lá moram têm excelentes índices de produtividade?!??! A juntar ao Algodão não engana que está ali em baixo resta dizer: É a pólvora meus caros, a verdadeira pólvora!
Crónica desordenada de um sofrimento comum
(Memórias de um Proto-Blogue IV)
Era sempre a mesma coisa! O João abria um livro e, logo nas primeiras linhas, lá estava escarrapachada uma das ideias que tinha como parte do seu mais íntimo património, obra de sua suprema singularidade. E, invariavelmente, o livro ia parar à gaveta da mesinha de cabeceira, condenado. Que diabo! Seria isto um truque da sua mente? Estariam já todas as ideias escritas num livro? Porque teimavam em parecer sempre mais belas e perfeitas? E porque lhe passava constantemente pelo pensamento aquele quadrado da Mafaldinha, onde se dizia que criar não era mais do que imitar com antecedência?
O pior é que, a cada experiência destas, surgia mais forte a convicção de que o próprio problema enfrentado não poderia ser algo de novo. A originalidade é uma utopia logo, não vale a pena pensar porque é virtualmente impossível criar. Caso arrumado, segue a vida! Não segue não senhor. O João tinha que resolver o assunto de uma vez por todas, afinal, no seu código não havia prisões perpétuas e, de certeza, incorreria novamente no hábito da leitura.
Abriu a gaveta e o livro do momento,“Os Mais” de Eça de Queiroz, capítulo tantos da página tal, cá estava: Ega resolvera escrever as «Memórias de Um Átomo». Ora, um fulano que nascera há aproximadamente 150 anos, aliás, há precisamente 150 anos, retirou o brilho da originalidade a uma ideia que o João tivera há uns meses atrás! Quem era esse Eça de Queiroz para agora, com o peso dos seus anos e com a sua antecessora existência, vir condicionar os que se lhe seguiram, ao ponto de lhes retirar a legitimidade de se apregoarem criadores de uma ideia, pais de um pensamento, que efectivamente era tanto de sua exclusiva autoria como foram os de Eça em seu tempo?
Mas que “culpa” tem Eça? Certamente, também não terá menores direitos.
A culpa não é de ninguém! Queimem-se os livros, escrevam-se outros para a fogueira! Não, isso também não. Se a escrita fosse uma colecção de ideias finítas essa nunca seria uma solução; não haveria solução. A escrita deve ser algo mais - desconfiou o João.
Após estas reflexões não se sentia nem melhor nem pior, uma mistura de revolta e angústia dominavam-no. Resolveu então partir do princípio que só conseguira aflorar a ponta de um iceberg, uma vez que era essa a sua sensação mais frequente no dia a dia. Geralmente, tudo o pensamento ou reflexão que produzisse empurravam-o para um mundo extremamente complicado e cheio de relativismos movediços, potencialmente agonizantes. Assim, tomou este como um desses casos frequentes e resolveu abordá-lo de uma forma diferente: ia escrever.
O desespero foi instantâneo. Ainda antes de escrever imaginou-se já a combater o ridículo da repetição, da frase feita, do pensamento estafado ou completamente previsível. Em torrente e meio desvairado debitou para o papel: «Mas eu só nasci quando nasci; estou limitado aos meus conhecimentos. Afinal, o meu tempo só conta com o passado dos outros quando faço dele presente. Não lhes devo direitos de autor; devo-lhes respeito e estudo. Mas devo-me o esforço de pensar pela primeira vez a ideia nova, ainda que no tempo dos homens seja já antiga e tradicional». Parou um pouco e releu-se. Continuou: «Também já não estou na fase do “contra”, já faço compromissos. Tento manter um ritmo assente na espontaneidade e na naturalidade, sempre combatendo as poses que insisto em fazer e em aturar. Cada um tem que descobrir o seu estilo, a sua personalidade, mas sempre sem abusar dos ídolos, das comparações, das oposições e de todo o tipo de reacções mecânicas. É algures no meio desta filosofia que tenho de encontrar o meu meio de navegação mais racional, pois que não raras vezes me é apenas possível navegar com recursos mais primários, ainda que ocasionalmente mais inesperados e desconhecidos». João voltou a parar, olhou para o livro e rematou: «Qual é o melhor caminho para se aprender a ler? Lendo?!»
Ficou ali um pouco, sentado na cama, a olhar para o papel. De seguida, ergueu ligeiramente a cabeça e olhou-se no espelho, viu o livro ao seu lado e quiz agarrá-lo com a mão direita. Dissimulado, este fugiu-lhe aproveitando a traição do espelho. João sorriu. Com uma sensação de rendição, enfiou-se debaixo dos cobertores e sonhou Lisboa, e depois Sintra, tal como Eça lhe sussurrara pelas páginas de um livro aberto.
Aos 10 de Outubro de 1995
(publicado no DN-Jovem em Novembro de 1995)
(Memórias de um Proto-Blogue IV)
Era sempre a mesma coisa! O João abria um livro e, logo nas primeiras linhas, lá estava escarrapachada uma das ideias que tinha como parte do seu mais íntimo património, obra de sua suprema singularidade. E, invariavelmente, o livro ia parar à gaveta da mesinha de cabeceira, condenado. Que diabo! Seria isto um truque da sua mente? Estariam já todas as ideias escritas num livro? Porque teimavam em parecer sempre mais belas e perfeitas? E porque lhe passava constantemente pelo pensamento aquele quadrado da Mafaldinha, onde se dizia que criar não era mais do que imitar com antecedência?
O pior é que, a cada experiência destas, surgia mais forte a convicção de que o próprio problema enfrentado não poderia ser algo de novo. A originalidade é uma utopia logo, não vale a pena pensar porque é virtualmente impossível criar. Caso arrumado, segue a vida! Não segue não senhor. O João tinha que resolver o assunto de uma vez por todas, afinal, no seu código não havia prisões perpétuas e, de certeza, incorreria novamente no hábito da leitura.
Abriu a gaveta e o livro do momento,“Os Mais” de Eça de Queiroz, capítulo tantos da página tal, cá estava: Ega resolvera escrever as «Memórias de Um Átomo». Ora, um fulano que nascera há aproximadamente 150 anos, aliás, há precisamente 150 anos, retirou o brilho da originalidade a uma ideia que o João tivera há uns meses atrás! Quem era esse Eça de Queiroz para agora, com o peso dos seus anos e com a sua antecessora existência, vir condicionar os que se lhe seguiram, ao ponto de lhes retirar a legitimidade de se apregoarem criadores de uma ideia, pais de um pensamento, que efectivamente era tanto de sua exclusiva autoria como foram os de Eça em seu tempo?
Mas que “culpa” tem Eça? Certamente, também não terá menores direitos.
A culpa não é de ninguém! Queimem-se os livros, escrevam-se outros para a fogueira! Não, isso também não. Se a escrita fosse uma colecção de ideias finítas essa nunca seria uma solução; não haveria solução. A escrita deve ser algo mais - desconfiou o João.
Após estas reflexões não se sentia nem melhor nem pior, uma mistura de revolta e angústia dominavam-no. Resolveu então partir do princípio que só conseguira aflorar a ponta de um iceberg, uma vez que era essa a sua sensação mais frequente no dia a dia. Geralmente, tudo o pensamento ou reflexão que produzisse empurravam-o para um mundo extremamente complicado e cheio de relativismos movediços, potencialmente agonizantes. Assim, tomou este como um desses casos frequentes e resolveu abordá-lo de uma forma diferente: ia escrever.
O desespero foi instantâneo. Ainda antes de escrever imaginou-se já a combater o ridículo da repetição, da frase feita, do pensamento estafado ou completamente previsível. Em torrente e meio desvairado debitou para o papel: «Mas eu só nasci quando nasci; estou limitado aos meus conhecimentos. Afinal, o meu tempo só conta com o passado dos outros quando faço dele presente. Não lhes devo direitos de autor; devo-lhes respeito e estudo. Mas devo-me o esforço de pensar pela primeira vez a ideia nova, ainda que no tempo dos homens seja já antiga e tradicional». Parou um pouco e releu-se. Continuou: «Também já não estou na fase do “contra”, já faço compromissos. Tento manter um ritmo assente na espontaneidade e na naturalidade, sempre combatendo as poses que insisto em fazer e em aturar. Cada um tem que descobrir o seu estilo, a sua personalidade, mas sempre sem abusar dos ídolos, das comparações, das oposições e de todo o tipo de reacções mecânicas. É algures no meio desta filosofia que tenho de encontrar o meu meio de navegação mais racional, pois que não raras vezes me é apenas possível navegar com recursos mais primários, ainda que ocasionalmente mais inesperados e desconhecidos». João voltou a parar, olhou para o livro e rematou: «Qual é o melhor caminho para se aprender a ler? Lendo?!»
Ficou ali um pouco, sentado na cama, a olhar para o papel. De seguida, ergueu ligeiramente a cabeça e olhou-se no espelho, viu o livro ao seu lado e quiz agarrá-lo com a mão direita. Dissimulado, este fugiu-lhe aproveitando a traição do espelho. João sorriu. Com uma sensação de rendição, enfiou-se debaixo dos cobertores e sonhou Lisboa, e depois Sintra, tal como Eça lhe sussurrara pelas páginas de um livro aberto.
Aos 10 de Outubro de 1995
(publicado no DN-Jovem em Novembro de 1995)
segunda-feira, agosto 11, 2003
Uma boa notícia...
Tocadores de adufe em férias no concelho de Castro Daire informaram-nos durante a tarde que a serra de São Macário estava em chamas. Há pouco mais de uma hora uma monumental descarga de água, bem ao gosto de Agosto, trouxe de volta o céu estrelado. Não há alguém com fôlego para soprar chuva também para o Algarve?
É pena o Paulo Portas ter esgotado os períodos telefónico todos com a catástrofe do Prestige. Fazia falta mais um jeitinho de nossa senhora!
Tocadores de adufe em férias no concelho de Castro Daire informaram-nos durante a tarde que a serra de São Macário estava em chamas. Há pouco mais de uma hora uma monumental descarga de água, bem ao gosto de Agosto, trouxe de volta o céu estrelado. Não há alguém com fôlego para soprar chuva também para o Algarve?
É pena o Paulo Portas ter esgotado os períodos telefónico todos com a catástrofe do Prestige. Fazia falta mais um jeitinho de nossa senhora!
Ao nosso querido "jornalista" Luis Delgado
Pus-me a olhar para trás e com este são 12 os post que aqui deixei desde a meia noite de ontem. Entre destaques a notícias, páginas na net e textos exclusivamente esgalhados por este que vos escreve. A qualidade e o esforço despendido variam de acordo com quem lê e com quem escreve, bem entendido. E como eu há muitos outros nestes preparos que, pelo caminho, ainda justificam o ordenado no respectivo emprego, asseguram com todo o gosto o seu quinhão de prazeres / deveres de um lar a dois (ou a mais) e aqui voltam no final do dia a bater records de parágrafos na blogoesfera sem que disso tenham consciência (salvo esta excepção que aqui vos apresento).
Como deve estar preocupado o nosso Luis Delgado. Recomendo-lhe desde já que reforce o plano poupança reforma o quanto antes pois a mão invisível do mercado está a demorar a agir por aqui... Nem uma alminha a pedir um subsídio para pagar a conta da internet apareceu (que eu tenha visto)!
Como poderia ter dito um economista famoso " She moves in misterious ways"
Adenda: o mail que aqui apresento é a serventia da casa, o poder redentor de um donativo não é alheio a um bloguista com princípios :)
Pus-me a olhar para trás e com este são 12 os post que aqui deixei desde a meia noite de ontem. Entre destaques a notícias, páginas na net e textos exclusivamente esgalhados por este que vos escreve. A qualidade e o esforço despendido variam de acordo com quem lê e com quem escreve, bem entendido. E como eu há muitos outros nestes preparos que, pelo caminho, ainda justificam o ordenado no respectivo emprego, asseguram com todo o gosto o seu quinhão de prazeres / deveres de um lar a dois (ou a mais) e aqui voltam no final do dia a bater records de parágrafos na blogoesfera sem que disso tenham consciência (salvo esta excepção que aqui vos apresento).
Como deve estar preocupado o nosso Luis Delgado. Recomendo-lhe desde já que reforce o plano poupança reforma o quanto antes pois a mão invisível do mercado está a demorar a agir por aqui... Nem uma alminha a pedir um subsídio para pagar a conta da internet apareceu (que eu tenha visto)!
Como poderia ter dito um economista famoso " She moves in misterious ways"
Adenda: o mail que aqui apresento é a serventia da casa, o poder redentor de um donativo não é alheio a um bloguista com princípios :)
TSF
O novo blog Glória Fácil (de três jornalistas) (re)lançou a discussão em torno do perigo de aniquilarem a TSF como a conhecemos. Já aqui trouxe o assunto, mas depois de algumas reacções lidas (por exemplo aqui) e imbuído de algum liberalismo contagioso que voga na blogoesfera, permito-me o seguinte desabafo.
Admitamos que a TSF deixava de ter noticiários de meia em meia hora na maior parte do dia. Deixava de cobrir os eventos desportivos, retornando ao tempo de vacas magras em que apenas os três grandes tinham relato de futebol. Imaginemos que os noticiários ficavam iguais aos de todas as outras rádios: mais de 4 minutos a falar e dá processo disciplinar. Imaginem que despediam metade dos actuais jornalistas. Imaginem que punham os patins ao Francisco Amaral por ter um programa pouco apelativo para as donas de casa, todos os Sábados para Domingos da uma às três da manhã. Imaginem que faziam isto tudo para ordenhar bem a vaca (cash cow na terminologia de consultoria)... até que os parolos se apercebessem que estavam a ser enganados e mudassem de rádio. Imaginem que destruíam um dos bens mais valiosos da TSF, a sua marca, o que o seu nome representa hoje.
Quase gostava que isso acontecesse só para ver se não nascia uma TSF logo ao lado... Se a TSF morrer, viva a TSF!
Aconteça o que acontecer a guerra não será ganha na próxima batalha. Nem que inventemos uma Fenix Rádio Jornal.
Ainda acredito que a estupidez se autodenuncie e nos poupem a esta aventura, mantendo e refinando a melhor pérola da rádio portuguesa. Uma daquelas que já ganhou lugar na história deste país, nos alfarrábios de amanhã. Umas daquelas "coisas" de que nunca me esqueço quando me recordo de como era o meu mundo quando tinha 13 anos nos idos de 1988.
O novo blog Glória Fácil (de três jornalistas) (re)lançou a discussão em torno do perigo de aniquilarem a TSF como a conhecemos. Já aqui trouxe o assunto, mas depois de algumas reacções lidas (por exemplo aqui) e imbuído de algum liberalismo contagioso que voga na blogoesfera, permito-me o seguinte desabafo.
Admitamos que a TSF deixava de ter noticiários de meia em meia hora na maior parte do dia. Deixava de cobrir os eventos desportivos, retornando ao tempo de vacas magras em que apenas os três grandes tinham relato de futebol. Imaginemos que os noticiários ficavam iguais aos de todas as outras rádios: mais de 4 minutos a falar e dá processo disciplinar. Imaginem que despediam metade dos actuais jornalistas. Imaginem que punham os patins ao Francisco Amaral por ter um programa pouco apelativo para as donas de casa, todos os Sábados para Domingos da uma às três da manhã. Imaginem que faziam isto tudo para ordenhar bem a vaca (cash cow na terminologia de consultoria)... até que os parolos se apercebessem que estavam a ser enganados e mudassem de rádio. Imaginem que destruíam um dos bens mais valiosos da TSF, a sua marca, o que o seu nome representa hoje.
Quase gostava que isso acontecesse só para ver se não nascia uma TSF logo ao lado... Se a TSF morrer, viva a TSF!
Aconteça o que acontecer a guerra não será ganha na próxima batalha. Nem que inventemos uma Fenix Rádio Jornal.
Ainda acredito que a estupidez se autodenuncie e nos poupem a esta aventura, mantendo e refinando a melhor pérola da rádio portuguesa. Uma daquelas que já ganhou lugar na história deste país, nos alfarrábios de amanhã. Umas daquelas "coisas" de que nunca me esqueço quando me recordo de como era o meu mundo quando tinha 13 anos nos idos de 1988.
Uma valente adufada para (act.):
O Interior. Mais um ali para a lista da esquerda. Um que na realidade são dois pois trata-se de um blog intimamente ligado ao jornal regional do mesmo nome (aqui)
O último post que por lá se lê:
CINEMA NA UBI
O comentário de José Manuel Fernades no ´"Público" sobre o facto de na UBI não haver nenhum curso de silvicultura, mas haver de cinema, tem gerado todo o tipo de comentários. De facto de uma coisa não há dúvidas: Não se formam técnicos para renovar ou proteger a floresta, mas vai haver licenciados para filmar os fogos. Nesta região pode não haver estúdios, nem actores, vamos ter especialistas em fazer filmes sobre serras queimadas. É pena que os cenários sejam cinzas.
O Interior. Mais um ali para a lista da esquerda. Um que na realidade são dois pois trata-se de um blog intimamente ligado ao jornal regional do mesmo nome (aqui)
O último post que por lá se lê:
CINEMA NA UBI
O comentário de José Manuel Fernades no ´"Público" sobre o facto de na UBI não haver nenhum curso de silvicultura, mas haver de cinema, tem gerado todo o tipo de comentários. De facto de uma coisa não há dúvidas: Não se formam técnicos para renovar ou proteger a floresta, mas vai haver licenciados para filmar os fogos. Nesta região pode não haver estúdios, nem actores, vamos ter especialistas em fazer filmes sobre serras queimadas. É pena que os cenários sejam cinzas.
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