Acusação de congressista americano
Administração Bush acusada de distorcer a ciência para favorecer as suas posições
in Público de 2 de Setembro de 2003.
O que há de bom na administração Bush?
terça-feira, setembro 02, 2003
Memórias de um Proto-Blogue VIII
Escrito há sete anos e agora ressuscitado. O espanto de me espantar comigo! Amen.
Programa «Última Carta» Anotado
I
...Registo Final - Capítulo VIII
...Última semana de condicionamento
...Programa Última Carta
...Gatilho específico para o programa na série 414 de clonskização em neo-alga mais:
«Hello Dolly» (a melodia suprema)
...Conteúdo moral psico-induzido disparado aos primeiros acordes:
«Eu sou feliz.
Pertenço ao grupo de inteligência máxima.
Sou diferente e melhor do que os sub-neo-alga mais.
Sou fiel depositário da segurança da espécie.
Replico exactamente os «Perfeitos» escolhidos nos primórdios do tempo da Grande Ovelha.
(Pausa)
Cumpri.
Segui o caminho para ajudar no Fim Superior da Espécie.
Fui Soldado Alguíssimo e destrui o Cancro.
Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] continuo para sempre.
Serei a espécie de amanhã.
Em nome da Grande Ovelha: Hello Dolly!»
...Conteúdo motricional psico-induzido disparado aos primeiros acordes:
«Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] devo ajoelhar-me.
Erguer os braços perpendicularmente ao solo.
Devo juntar as palmas das mãos sobre a cabeça entrelaçando os dedos e assim ficar até ouvir o Condicionador Supremo.»
...Conteúdo moral psico-induzido disparado ao terminar o último acorde ou quando a melodia seja interrompida:
«A voz que ouves é a do Condicionador Supremo.
Presta atenção e cumpre.
Presta atenção e cumpre.
Deixa que continue o fim do fim.
Hello Dolly, [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky], Hello Dolly»
...Conteúdo motricional psico-induzido disparado no momento do fim da melodia suprema ou quando esta seja interrompida:
«Devo assumir a posição fetal.
Devo entrar em atrofia total de funcionamento cognitivo consciente.»
...Repetir programa «Última Carta» cem vezes, durante a semana de condicionamento.
...Programa Borracha Atómica para branqueamento do condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais
...Gatilho descondicionador geral: «This isn’t Luis!»
...Fim do processo global de condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais.
...Director Geral para o programa «Última Carta»
...Alf Joca Novsky
...Sumo Ovino da Série VIII
...Nostradamos Fédon Memé
...Hello Dolly!
...Clonecity-in-bocanovsky, Oitava Ovelha (740,34).
NOTA: Paródias incidentais ao livro «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley
II
Se morresse hoje, não deixava carta nenhuma.
Não tenho absolutamente nada a dizer, tal como não tenho nada a dizer quando morre um amigo da minha idade (ou que ande lá perto). Nessas alturas demoram a vir as palavras.
No máximo praguejava, coisa que faço raramente, mas que, de tanto uso e abuso que tem por aí, não se traduziria em nada de significativo para quem me ouvisse à distância.
*
Não é preciso chegar à bocanovskização:
Imaginem-se no vosso leito de morte.
Imaginem que uma filha vossa se despede e promete que irá ter um filho exactamente igual a vocês.
O momento da morte será o momento da recriação de um ser fisicamente idêntico.
Exemplo: outras fotografias com um corpo e cara igual à vossa surgirão muito depois de terdes desaparecido.
«Vós» sereis o vosso neto; haverá uma paragem genética naquele ponto.
Qual seria a vossa última carta para essa filha?
*
Mais perto do início do que agora, havia seres unicelulares (ainda há!) que não se reproduziam através do sexo; um limitava-se a dividir-se em dois. Um que exista não será filho do um inicial, pois o um inicial nunca morre de facto enquanto houver um que resulte de uma divisão de outro que não desapareceu no processo - nem sequer haverá um «mais inicial» do que o outro pois esse será seu irmão de divisão. Não há vida e morte, há vida e (talvez) crescimento, há outra espécie de imortalidade, menos poética e mais física.
Hoje sabemos que esses seres não mudaram tanto como os que surgiram mais tardiamente com sexo. Em princípio têm também menos hipóteses de resistir a mudanças ambientais, pois jogam menos vezes no totoloto, ou seja, não fazem as apostas multiplas que resultam do cruzamento de dois seres diferentes, de sexos diferentes que produzirão um outro diferente de todos os outros anteriores e que, portanto, apresenta uma nova chave no jogo da sobrevivência.
O caminho natural (obra do acaso das mutações genéticas) inventou o «It takes two, baby» para fazer um bébé. Agora regredimos e substituimo-nos à manipulação genética natural.
Para começar paramo-la (clonagem), qualquer dia substitui-la-emos - refiro-me aos seres humanos, pois com outras espécie é pratica frequente - e talvez surja o «it takes three or four, why not une million, baby?».
Teremos mais um brinquedo para atingir a perfeição, sem acto sexual natural a estorvar - não demorará muito o orgasmómetro de Allen [Woody] para satisfazer os humanos e para não complicar mais a perfeição. Mas a perfeição segundo quem? E que diabo é isso de perfeição no mundo não metafísico? Chamem-me maluco, mas isto faz-me lembrar algumas passagens da discussão sobre o aborto (noutro dia eu explico-me).
No Direito há uma coisinha chamada o abuso do direito que avisa para a existência de limites sobre o exercício de um direito apesar de este ser geralmente aplicável. Será que não deve haver abuso da ciência? Mas quem é que vai responder a estas perguntas? Primeiro era preciso haver políticos generalistas que aconselhados por técnicos (e não mais do que isso) estivessem em condições de começar o processo de discussão.
Quando tiver mais um tempinho gostava de tentar escrever umas coisinhas assim bem reflectidas e sabiamente desgarradas. É que esta semana descobri o menos mau dos métodos para se tomar decisões... Ainda não fiz todos os teste necessários por isso não o divulgo (ainda) aqui na Nature. Talvez haja musa, também para as coisas aparentemente mais denotativas ela é necessária. Por agora, antes de pôr as celulazinhas cinzentas a trabalhar, quase desejo a solução mais fácil: que os clones morram todos de cancro!
Ainda somos muito pouco crianças.
Tenho dito (mas só um bocadinho).
John Doe Rosebud
21 anos, Caipira irritadiço, Grã-Lisboa
Escrito há sete anos e agora ressuscitado. O espanto de me espantar comigo! Amen.
Programa «Última Carta» Anotado
I
...Registo Final - Capítulo VIII
...Última semana de condicionamento
...Programa Última Carta
...Gatilho específico para o programa na série 414 de clonskização em neo-alga mais:
«Hello Dolly» (a melodia suprema)
...Conteúdo moral psico-induzido disparado aos primeiros acordes:
«Eu sou feliz.
Pertenço ao grupo de inteligência máxima.
Sou diferente e melhor do que os sub-neo-alga mais.
Sou fiel depositário da segurança da espécie.
Replico exactamente os «Perfeitos» escolhidos nos primórdios do tempo da Grande Ovelha.
(Pausa)
Cumpri.
Segui o caminho para ajudar no Fim Superior da Espécie.
Fui Soldado Alguíssimo e destrui o Cancro.
Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] continuo para sempre.
Serei a espécie de amanhã.
Em nome da Grande Ovelha: Hello Dolly!»
...Conteúdo motricional psico-induzido disparado aos primeiros acordes:
«Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] devo ajoelhar-me.
Erguer os braços perpendicularmente ao solo.
Devo juntar as palmas das mãos sobre a cabeça entrelaçando os dedos e assim ficar até ouvir o Condicionador Supremo.»
...Conteúdo moral psico-induzido disparado ao terminar o último acorde ou quando a melodia seja interrompida:
«A voz que ouves é a do Condicionador Supremo.
Presta atenção e cumpre.
Presta atenção e cumpre.
Deixa que continue o fim do fim.
Hello Dolly, [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky], Hello Dolly»
...Conteúdo motricional psico-induzido disparado no momento do fim da melodia suprema ou quando esta seja interrompida:
«Devo assumir a posição fetal.
Devo entrar em atrofia total de funcionamento cognitivo consciente.»
...Repetir programa «Última Carta» cem vezes, durante a semana de condicionamento.
...Programa Borracha Atómica para branqueamento do condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais
...Gatilho descondicionador geral: «This isn’t Luis!»
...Fim do processo global de condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais.
...Director Geral para o programa «Última Carta»
...Alf Joca Novsky
...Sumo Ovino da Série VIII
...Nostradamos Fédon Memé
...Hello Dolly!
...Clonecity-in-bocanovsky, Oitava Ovelha (740,34).
NOTA: Paródias incidentais ao livro «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley
II
Se morresse hoje, não deixava carta nenhuma.
Não tenho absolutamente nada a dizer, tal como não tenho nada a dizer quando morre um amigo da minha idade (ou que ande lá perto). Nessas alturas demoram a vir as palavras.
No máximo praguejava, coisa que faço raramente, mas que, de tanto uso e abuso que tem por aí, não se traduziria em nada de significativo para quem me ouvisse à distância.
*
Não é preciso chegar à bocanovskização:
Imaginem-se no vosso leito de morte.
Imaginem que uma filha vossa se despede e promete que irá ter um filho exactamente igual a vocês.
O momento da morte será o momento da recriação de um ser fisicamente idêntico.
Exemplo: outras fotografias com um corpo e cara igual à vossa surgirão muito depois de terdes desaparecido.
«Vós» sereis o vosso neto; haverá uma paragem genética naquele ponto.
Qual seria a vossa última carta para essa filha?
*
Mais perto do início do que agora, havia seres unicelulares (ainda há!) que não se reproduziam através do sexo; um limitava-se a dividir-se em dois. Um que exista não será filho do um inicial, pois o um inicial nunca morre de facto enquanto houver um que resulte de uma divisão de outro que não desapareceu no processo - nem sequer haverá um «mais inicial» do que o outro pois esse será seu irmão de divisão. Não há vida e morte, há vida e (talvez) crescimento, há outra espécie de imortalidade, menos poética e mais física.
Hoje sabemos que esses seres não mudaram tanto como os que surgiram mais tardiamente com sexo. Em princípio têm também menos hipóteses de resistir a mudanças ambientais, pois jogam menos vezes no totoloto, ou seja, não fazem as apostas multiplas que resultam do cruzamento de dois seres diferentes, de sexos diferentes que produzirão um outro diferente de todos os outros anteriores e que, portanto, apresenta uma nova chave no jogo da sobrevivência.
O caminho natural (obra do acaso das mutações genéticas) inventou o «It takes two, baby» para fazer um bébé. Agora regredimos e substituimo-nos à manipulação genética natural.
Para começar paramo-la (clonagem), qualquer dia substitui-la-emos - refiro-me aos seres humanos, pois com outras espécie é pratica frequente - e talvez surja o «it takes three or four, why not une million, baby?».
Teremos mais um brinquedo para atingir a perfeição, sem acto sexual natural a estorvar - não demorará muito o orgasmómetro de Allen [Woody] para satisfazer os humanos e para não complicar mais a perfeição. Mas a perfeição segundo quem? E que diabo é isso de perfeição no mundo não metafísico? Chamem-me maluco, mas isto faz-me lembrar algumas passagens da discussão sobre o aborto (noutro dia eu explico-me).
No Direito há uma coisinha chamada o abuso do direito que avisa para a existência de limites sobre o exercício de um direito apesar de este ser geralmente aplicável. Será que não deve haver abuso da ciência? Mas quem é que vai responder a estas perguntas? Primeiro era preciso haver políticos generalistas que aconselhados por técnicos (e não mais do que isso) estivessem em condições de começar o processo de discussão.
Quando tiver mais um tempinho gostava de tentar escrever umas coisinhas assim bem reflectidas e sabiamente desgarradas. É que esta semana descobri o menos mau dos métodos para se tomar decisões... Ainda não fiz todos os teste necessários por isso não o divulgo (ainda) aqui na Nature. Talvez haja musa, também para as coisas aparentemente mais denotativas ela é necessária. Por agora, antes de pôr as celulazinhas cinzentas a trabalhar, quase desejo a solução mais fácil: que os clones morram todos de cancro!
Ainda somos muito pouco crianças.
Tenho dito (mas só um bocadinho).
John Doe Rosebud
21 anos, Caipira irritadiço, Grã-Lisboa
segunda-feira, setembro 01, 2003
domingo, agosto 31, 2003
Ter uma religião é um anacronismo pré-histórico ou ainda somos demasiado imperfeitos para compreender Deus?
A pergunta ali de cima é quase irrelevante, ou melhor, a sua resposta. Há um desabafo que tenho de aqui deixar nas linhas que seguem.
Que vê um agnóstico, ateu e/ou herege à sua volta que lhe leve a desejar uma aproximação à religiosidade proposta por qualquer das religiões dominantes (Judaismo/Cristianismo/Islamismo, por exemplo)?
Fui educado e admiro muito do que me propõe o cristianismo. Pratico-o inconscientemente e conscientemente de diversas formas. Em larga medida não distingo o que sigo do que vou ouvindo de outras religiões monoteistas. Mas prefiro o desconforto de não imaginar um final seguro e compensador, um sentido certo para as minhas dúvidas )ainda que esta não seja condição existencial de muitos admiráveis convertidos, felizmente). Prefiro não ter certeza quanto a um céu para o qual o caminho se faz através de uma cartilha demasiado categórica e exclusivista. Uma cartilha que ainda assim poucos seguem e reconhecem na vida mundana, pelo que vejo e conheço.
É-me cada vez mais difícil distinguir os benefícios de partilhar um credo, um livro sagrado.
Quanto mais vejo o oposto do que se professa mais me revoltam os rituais. Quem não é contra alguém? Tu que tens religião, que segues um Deus, respeitas-me? De onde me olhas?
Pensa o que dizes, ouve o que lês no teu Livro e depois olha em volta. Espero poder pedir-te isso, pelo menos.
Respeitar a vida.
Reconhecer o Amor e vivê-lo, lutar por ele sempre.
Exigir o respeito, a integridade, a honestidade.
Procurar evitar o erro, limitá-lo com a emenda.
Questionar, tentar responder.
Imagino o mundo seguindo pouco mais do que isto. Quem me nega esse direito? Onde colido com as tuas crenças? Porque não nos entendemos? Porque não podemos duvidar em conjunto? E viver, discutir, sorrir, amar, morrer?
O medo e a estupidez são de facto o maior programa de destruição em massa promovido por seres vivos. Sempre foram e continuam a ser.
Enquanto durar e até melhor esclarecimento vou seguir o meu caminho.
Bem hajam! Dizer “bem hajam” é desejar-vos bem, que o bem esteja convosco, mas é também pedir-vos uma certa forma de agir, de estar, universal e irrenunciável. Como se houvesse algo além dos Deuses. Fiquem bem!
A pergunta ali de cima é quase irrelevante, ou melhor, a sua resposta. Há um desabafo que tenho de aqui deixar nas linhas que seguem.
Que vê um agnóstico, ateu e/ou herege à sua volta que lhe leve a desejar uma aproximação à religiosidade proposta por qualquer das religiões dominantes (Judaismo/Cristianismo/Islamismo, por exemplo)?
Fui educado e admiro muito do que me propõe o cristianismo. Pratico-o inconscientemente e conscientemente de diversas formas. Em larga medida não distingo o que sigo do que vou ouvindo de outras religiões monoteistas. Mas prefiro o desconforto de não imaginar um final seguro e compensador, um sentido certo para as minhas dúvidas )ainda que esta não seja condição existencial de muitos admiráveis convertidos, felizmente). Prefiro não ter certeza quanto a um céu para o qual o caminho se faz através de uma cartilha demasiado categórica e exclusivista. Uma cartilha que ainda assim poucos seguem e reconhecem na vida mundana, pelo que vejo e conheço.
É-me cada vez mais difícil distinguir os benefícios de partilhar um credo, um livro sagrado.
Quanto mais vejo o oposto do que se professa mais me revoltam os rituais. Quem não é contra alguém? Tu que tens religião, que segues um Deus, respeitas-me? De onde me olhas?
Pensa o que dizes, ouve o que lês no teu Livro e depois olha em volta. Espero poder pedir-te isso, pelo menos.
Respeitar a vida.
Reconhecer o Amor e vivê-lo, lutar por ele sempre.
Exigir o respeito, a integridade, a honestidade.
Procurar evitar o erro, limitá-lo com a emenda.
Questionar, tentar responder.
Imagino o mundo seguindo pouco mais do que isto. Quem me nega esse direito? Onde colido com as tuas crenças? Porque não nos entendemos? Porque não podemos duvidar em conjunto? E viver, discutir, sorrir, amar, morrer?
O medo e a estupidez são de facto o maior programa de destruição em massa promovido por seres vivos. Sempre foram e continuam a ser.
Enquanto durar e até melhor esclarecimento vou seguir o meu caminho.
Bem hajam! Dizer “bem hajam” é desejar-vos bem, que o bem esteja convosco, mas é também pedir-vos uma certa forma de agir, de estar, universal e irrenunciável. Como se houvesse algo além dos Deuses. Fiquem bem!
Bed time stories I
Era uma vez um lider religioso da tribo xiita. O líder falava para a multidão de crentes e apelava ao respeito pelas tropas americanas que haviam eliminado a máquina que oprimia os membros da tribo. Minutos depois perecia com mais 80 dezenas de concidadãos num atentado.
No dia seguinte, enquanto em procissão se chorava a perda, os enlutados afirmavam que não se subjugariam ao invasor, que não o tolerariam.
Quem pôs a bomba senhor Poirot e porquê?
Era uma vez um lider religioso da tribo xiita. O líder falava para a multidão de crentes e apelava ao respeito pelas tropas americanas que haviam eliminado a máquina que oprimia os membros da tribo. Minutos depois perecia com mais 80 dezenas de concidadãos num atentado.
No dia seguinte, enquanto em procissão se chorava a perda, os enlutados afirmavam que não se subjugariam ao invasor, que não o tolerariam.
Quem pôs a bomba senhor Poirot e porquê?
Será que temos Íntima Fracção hoje?
O que é a Íntima Fracção? Talvez uma bela resposta ao que é a noite... Ou talvez não.
O que é a Íntima Fracção? Talvez uma bela resposta ao que é a noite... Ou talvez não.
Férias II: Dia 29 de Agosto
Finalmente Monsanto. Depois de tantos anos de reverência a cada passagem entre Castelo Branco e Penamacor, finalmente Monsanto.
Sempre tive o granito por perto, mesmo aqui cerca de Lisboa. A Mãe estava lá, na figura de Sintra. Sempre gostei de escalar a serra: Santa Marta, Galeota (Sortelha a Velha), Sortelha, Estrela, São Macário, Montemuro, Penha Garcia, São Mamede, Marvão, Monchique, Monsanto...
A charneca de Namora, o rio Pônsul dos Romanos e da magnífica Egiditânea (Idanha-a-Velha), os contra fortes de Penha Garcia, as primeiras terras de Espanha, as planuras do Alentejo que de adivinham em direcção ao Rosmaninhal. A Gardunha, a Estrela. Tanto que se vê do alto de Monsanto.
E que mais tem Monsanto (em duas horas de estadia) tem a história das pedras e dos homens contada como em poucos lugares. Tem gente que se espanta a cada esquina e tem gente que se envaidece com a "Sua rua". Senhoras de cabelos grisalhos, com ou sem Marafonas para vender, convidam-nos a descer pela sua rua. "Há que variar!", " Então a nossa rua não é também bonita?" perguntam-nos do alto balcão (festival de flores em pequenos canteiros) quando nos decidimos por aquela quelha. "É pois!" respondo como se o Turista fosse. O único e teimoso turista que todos os dias por ali se aventura.
Entre a Igreja e a casa de Fernando Namora ganho um Adufe, um dos autênticos de pele de porco esticada . Singelo, de poucos floreados, como sempre o imaginei e conheci desde menino. Tira verde a prender as peles, remates de trapo coloridos nos vértices, pedras e guizos no interior para convencer a bela raiana a virar costas a Castela. Soubera eu tocar! Para o ano há mais.
Finalmente Monsanto. Depois de tantos anos de reverência a cada passagem entre Castelo Branco e Penamacor, finalmente Monsanto.
Sempre tive o granito por perto, mesmo aqui cerca de Lisboa. A Mãe estava lá, na figura de Sintra. Sempre gostei de escalar a serra: Santa Marta, Galeota (Sortelha a Velha), Sortelha, Estrela, São Macário, Montemuro, Penha Garcia, São Mamede, Marvão, Monchique, Monsanto...
A charneca de Namora, o rio Pônsul dos Romanos e da magnífica Egiditânea (Idanha-a-Velha), os contra fortes de Penha Garcia, as primeiras terras de Espanha, as planuras do Alentejo que de adivinham em direcção ao Rosmaninhal. A Gardunha, a Estrela. Tanto que se vê do alto de Monsanto.
E que mais tem Monsanto (em duas horas de estadia) tem a história das pedras e dos homens contada como em poucos lugares. Tem gente que se espanta a cada esquina e tem gente que se envaidece com a "Sua rua". Senhoras de cabelos grisalhos, com ou sem Marafonas para vender, convidam-nos a descer pela sua rua. "Há que variar!", " Então a nossa rua não é também bonita?" perguntam-nos do alto balcão (festival de flores em pequenos canteiros) quando nos decidimos por aquela quelha. "É pois!" respondo como se o Turista fosse. O único e teimoso turista que todos os dias por ali se aventura.
Entre a Igreja e a casa de Fernando Namora ganho um Adufe, um dos autênticos de pele de porco esticada . Singelo, de poucos floreados, como sempre o imaginei e conheci desde menino. Tira verde a prender as peles, remates de trapo coloridos nos vértices, pedras e guizos no interior para convencer a bela raiana a virar costas a Castela. Soubera eu tocar! Para o ano há mais.
Férias I: Dia 19 de Agosto
Depois de uma curva apertada em direcção a Arouca na estrada Castro Daire - Castelo de Paiva:
Eucaliptos e mais eucaliptos, novas sementeiras. Ao longe imaginava vinhas novas, novos socalcos. Os perfumados da Austrália, afinal.
Outra curva apertada sempre subindo até chegar a uma curiosa terra por ter curioso nome: Pirraça:
A TSF vai avisando "as autoridade das Nações Unidas afirmam que Sérgio Vieira de Melo se encontra gravemente ferido"... De imediato lembro-me de Rabin. O baque foi parecido sem dúvida... Se fosse mais velho talvez então me lembrasse também de Sadat... Nem só o terror se alimenta de mártires.
Começa a descida, surgem as ravinas, as pontes mágicas, Arouca:
O que se vê em duas horas? Em Arouca está-se. Não a imaginava repouso dos guerreiros do Porto mas parece ser... Além de ser por si, com gente nos bancos das praças, conversando, mirando os estrangeiros. Cafezando a meio da tarde, passeando no Jardim. Onde se come um bom pão de ló? Mais além, já a sair, diz-nos a simpática funcionária dos correios que nos resolve a urgência que nos manda Lisboa.
Segue-se Castelo de Paiva, o Douro, um pulo a Entre os Rios e uma outra Marginal a juntar a tantas outras até Cinfães. Por fim, o regresso, até ao último sítio do mundo, o último a desaparecer no fim dos tempos, no alto da Serra do Montemuro. O regresso aos enigmas, às siglas misteriosas da Ermida românica do médio Paiva. O regresso à companhia das bogas, das trutas, libelinhas e alfaiates. Que belo Algarve como se entre Lagos e Sagres, sem a dúvida das ondas, com a constância da água entre o granito. Um beijo apaixonado. Uma teimosia em resgatar um momento feliz.
Depois de uma curva apertada em direcção a Arouca na estrada Castro Daire - Castelo de Paiva:
Eucaliptos e mais eucaliptos, novas sementeiras. Ao longe imaginava vinhas novas, novos socalcos. Os perfumados da Austrália, afinal.
Outra curva apertada sempre subindo até chegar a uma curiosa terra por ter curioso nome: Pirraça:
A TSF vai avisando "as autoridade das Nações Unidas afirmam que Sérgio Vieira de Melo se encontra gravemente ferido"... De imediato lembro-me de Rabin. O baque foi parecido sem dúvida... Se fosse mais velho talvez então me lembrasse também de Sadat... Nem só o terror se alimenta de mártires.
Começa a descida, surgem as ravinas, as pontes mágicas, Arouca:
O que se vê em duas horas? Em Arouca está-se. Não a imaginava repouso dos guerreiros do Porto mas parece ser... Além de ser por si, com gente nos bancos das praças, conversando, mirando os estrangeiros. Cafezando a meio da tarde, passeando no Jardim. Onde se come um bom pão de ló? Mais além, já a sair, diz-nos a simpática funcionária dos correios que nos resolve a urgência que nos manda Lisboa.
Segue-se Castelo de Paiva, o Douro, um pulo a Entre os Rios e uma outra Marginal a juntar a tantas outras até Cinfães. Por fim, o regresso, até ao último sítio do mundo, o último a desaparecer no fim dos tempos, no alto da Serra do Montemuro. O regresso aos enigmas, às siglas misteriosas da Ermida românica do médio Paiva. O regresso à companhia das bogas, das trutas, libelinhas e alfaiates. Que belo Algarve como se entre Lagos e Sagres, sem a dúvida das ondas, com a constância da água entre o granito. Um beijo apaixonado. Uma teimosia em resgatar um momento feliz.
sábado, agosto 30, 2003
TSF
Registo de coisas más por um ouvinte:
O Flashback acabou.
O desporto em directo (no futebol) resume-se aos três grandes. Nem o Leiria na Europa entrou no orçamento...
Registo de coisas más por um ouvinte:
O Flashback acabou.
O desporto em directo (no futebol) resume-se aos três grandes. Nem o Leiria na Europa entrou no orçamento...
Ora viva!
Estou a tentar pôr a escrita em dia. Foram 15 dias de ausência total destas lides (sempre por terras das Beiras).
Desde já peço desculpas pelo atraso no comentário aos comentário que foram aqui deixando mas foi por uma boa causa. Por umas serenas e bem desejadas férias saltitando de recanto em recanto junto de quem mais próximo me fala do coração. Desconfio que enchi mais um belo álbum de saborosas recordações que vão directas para a farmácia de medicamentos a usar em dias de necessidade.
Quanto ao blogue estou espantado com as visitas regulares em tempo de férias e julgo que nesse mesmo entretanto o Adufe foi referido por um bom punhado de bloggers - julgo porque o technorati depois de breves instantes onde mal entrevi as referências flipou. Lá chegaremos.
Agora se me dão licença, ainda antes de voltar às minhas palavras, vou espreitar um bocadinho das palavras dos outros. De que Agosto ou Agostos falaram?...
Até breve. E bem hajam.
Estou a tentar pôr a escrita em dia. Foram 15 dias de ausência total destas lides (sempre por terras das Beiras).
Desde já peço desculpas pelo atraso no comentário aos comentário que foram aqui deixando mas foi por uma boa causa. Por umas serenas e bem desejadas férias saltitando de recanto em recanto junto de quem mais próximo me fala do coração. Desconfio que enchi mais um belo álbum de saborosas recordações que vão directas para a farmácia de medicamentos a usar em dias de necessidade.
Quanto ao blogue estou espantado com as visitas regulares em tempo de férias e julgo que nesse mesmo entretanto o Adufe foi referido por um bom punhado de bloggers - julgo porque o technorati depois de breves instantes onde mal entrevi as referências flipou. Lá chegaremos.
Agora se me dão licença, ainda antes de voltar às minhas palavras, vou espreitar um bocadinho das palavras dos outros. De que Agosto ou Agostos falaram?...
Até breve. E bem hajam.
sábado, agosto 16, 2003
Ultima nota
Só uma nota final para o Carimbo cujo regresso, depois de uma curta ausência, saúdo.
Ainda o General Silva Viegas (e para fechar da minha parte).
Julgo que os argumentos estão quase esgotados pois encontro resposta às últimas considerações do Carimbo no meu último post sobre a matéria e provavelmente o sentimento é mútuo. Mas... Por simpatia com os defeitos do Carimbo que partilho (o da teimosia) regresso à polémica General Silva Viegas (GSV) (d)enunciando hipóteses alternativas às conjecturadas pelo Carimbo. Espero que, apesar de tudo, esclareçam o que me levou a tomar a posição que tomei.
Imagine que o GSV foi de facto humilhado no exercício das suas funções. Imagine que o ministro da defesa lhe pediu favores às margens do exigível pelo regular exercício das funções do CEME (por exemplo, a história que GSV julgo ter confirmado da tentativa de atropelo no esquema de promoções de oficiais) e imagine que o PR conhece e reconhece estes factos.
Naturalmente, o PR sabe mais do que qualquer um de nós que nos envolvemos na polémica.
O PR não pode usar a bomba atómica forçando Durão Barroso a demitir um ministro da Defesa que é simultaneamente o garante de uma maioria absoluta. Ou melhor, poder pode, mas não quer, nem considera, apesar de tudo, justificado. O dano para o País seria demasiado grave, desproporcionado.
O PR pode, no entanto, fazer uma afirmação política elogiando o comportamento do GSV e desta forma rejeitando qualificar como injustificados os motivos da sua saída e limpar o Exército da humilhação a que foi sujeito na figura do CEME pelo Ministro da Defesa.
Se não o fizesse perderia o ascendente moral conquistado e que tem de manter sobre as tropas enquanto chefe supremo das mesmas. Por outro lado, estaria a corroborar integralmente o comportamento do Ministro da Defesa. E que eu saiba nada obriga o PR a imaginar um conflito entre políticos e militares no qual seja obrigado a tomar o partido dos primeiros, seus pares (?), sabendo que a asneira fôra destes.
Ou seja, o PR teria preferido a demissão de PP, mas o caso não foi suficientemente grave para se dissolver a Assembleia pois, poderá ter sido esse o cenário oferecido por Durão Barroso perante o hipotético pedido de exoneração do Ministro da Defesa que Jorge Sampaio tenha feito. Muito provavelmente Jorge Sampaio não terá chegado a colocar a proposta na mesa por saber de antemão a resposta... Hipóteses e mais hipóteses.
Mas a leitura que eu tiro dos elogios ao GSV é exactamente esta. O PR acompanha há quase uma década o relacionamento entre o poder político e os militares, sabe até onde se pode esticar a corda e sabe o que fazer para limitar avarias e repor a justiça com os meios que a constituição coloca ao seu dispor num regime semi-presidencialista. O PR colocou o ónus da culpa claramente no Ministro da Defesa, ele foi o infractor que promoveu a invulgar saída do CEME. Por outras, o CEME reagiu... E lembro que mesmo tendo-o feito como o fez, arrancou rasgados elogios do Ministro da Defesa(!). Se isto não é de pasmar... Claro que não é de pasmar. Não é porque PP já sabia o que o esperava. Sabia o que tinha feito e sabia o que o PR iria fazer. Em nenhum momento iria tomar as suas dores. Logo, toca de confundir tudo e todos ridicularizando-se em encómios e mais encómios ao demissionário Genral Silva Viegas. Enfim... Mais do que isto não sei dizer. Se quiser(em) continuar a catalogar o comportamento do PR como um favor ao PS... do presidente de todos os portugueses socialistas... É um direito que teimosamente lhe (vos) assiste :)
Até à próxima polémica que eu agora vou a banhos... fluviais!
Só uma nota final para o Carimbo cujo regresso, depois de uma curta ausência, saúdo.
Ainda o General Silva Viegas (e para fechar da minha parte).
Julgo que os argumentos estão quase esgotados pois encontro resposta às últimas considerações do Carimbo no meu último post sobre a matéria e provavelmente o sentimento é mútuo. Mas... Por simpatia com os defeitos do Carimbo que partilho (o da teimosia) regresso à polémica General Silva Viegas (GSV) (d)enunciando hipóteses alternativas às conjecturadas pelo Carimbo. Espero que, apesar de tudo, esclareçam o que me levou a tomar a posição que tomei.
Imagine que o GSV foi de facto humilhado no exercício das suas funções. Imagine que o ministro da defesa lhe pediu favores às margens do exigível pelo regular exercício das funções do CEME (por exemplo, a história que GSV julgo ter confirmado da tentativa de atropelo no esquema de promoções de oficiais) e imagine que o PR conhece e reconhece estes factos.
Naturalmente, o PR sabe mais do que qualquer um de nós que nos envolvemos na polémica.
O PR não pode usar a bomba atómica forçando Durão Barroso a demitir um ministro da Defesa que é simultaneamente o garante de uma maioria absoluta. Ou melhor, poder pode, mas não quer, nem considera, apesar de tudo, justificado. O dano para o País seria demasiado grave, desproporcionado.
O PR pode, no entanto, fazer uma afirmação política elogiando o comportamento do GSV e desta forma rejeitando qualificar como injustificados os motivos da sua saída e limpar o Exército da humilhação a que foi sujeito na figura do CEME pelo Ministro da Defesa.
Se não o fizesse perderia o ascendente moral conquistado e que tem de manter sobre as tropas enquanto chefe supremo das mesmas. Por outro lado, estaria a corroborar integralmente o comportamento do Ministro da Defesa. E que eu saiba nada obriga o PR a imaginar um conflito entre políticos e militares no qual seja obrigado a tomar o partido dos primeiros, seus pares (?), sabendo que a asneira fôra destes.
Ou seja, o PR teria preferido a demissão de PP, mas o caso não foi suficientemente grave para se dissolver a Assembleia pois, poderá ter sido esse o cenário oferecido por Durão Barroso perante o hipotético pedido de exoneração do Ministro da Defesa que Jorge Sampaio tenha feito. Muito provavelmente Jorge Sampaio não terá chegado a colocar a proposta na mesa por saber de antemão a resposta... Hipóteses e mais hipóteses.
Mas a leitura que eu tiro dos elogios ao GSV é exactamente esta. O PR acompanha há quase uma década o relacionamento entre o poder político e os militares, sabe até onde se pode esticar a corda e sabe o que fazer para limitar avarias e repor a justiça com os meios que a constituição coloca ao seu dispor num regime semi-presidencialista. O PR colocou o ónus da culpa claramente no Ministro da Defesa, ele foi o infractor que promoveu a invulgar saída do CEME. Por outras, o CEME reagiu... E lembro que mesmo tendo-o feito como o fez, arrancou rasgados elogios do Ministro da Defesa(!). Se isto não é de pasmar... Claro que não é de pasmar. Não é porque PP já sabia o que o esperava. Sabia o que tinha feito e sabia o que o PR iria fazer. Em nenhum momento iria tomar as suas dores. Logo, toca de confundir tudo e todos ridicularizando-se em encómios e mais encómios ao demissionário Genral Silva Viegas. Enfim... Mais do que isto não sei dizer. Se quiser(em) continuar a catalogar o comportamento do PR como um favor ao PS... do presidente de todos os portugueses socialistas... É um direito que teimosamente lhe (vos) assiste :)
Até à próxima polémica que eu agora vou a banhos... fluviais!
Vou de férias...
Regresso em Setembro.
Hei-de trazer o som de um adufe pesaroso lá das terras da Senhora do Almortão. Mas ainda vou com a esperança de ver verdejante o último concelho do Distrito de Castelo Branco que não foi fortemente manchado de cinzas.
Deixo-vos mais um texto de um proto-blogue. Algo que escrevi de supetão há 5 ou 6 anos para o DN Jovem. Um resumo de uma pseudo emissão de uma TSF de há 500 anos.
Encerro por agora uma espécie de ciclo que me tem acompanhado (estranhamente) nas últimas semanas. Um ciclo sob o signo do judaísmo. Hei-de passar por terras de judeus nestas férias.
Subscrevo-me,
Um herege respeitador.
Fiquem bem e bem hajam.
Regresso em Setembro.
Hei-de trazer o som de um adufe pesaroso lá das terras da Senhora do Almortão. Mas ainda vou com a esperança de ver verdejante o último concelho do Distrito de Castelo Branco que não foi fortemente manchado de cinzas.
Deixo-vos mais um texto de um proto-blogue. Algo que escrevi de supetão há 5 ou 6 anos para o DN Jovem. Um resumo de uma pseudo emissão de uma TSF de há 500 anos.
Encerro por agora uma espécie de ciclo que me tem acompanhado (estranhamente) nas últimas semanas. Um ciclo sob o signo do judaísmo. Hei-de passar por terras de judeus nestas férias.
Subscrevo-me,
Um herege respeitador.
Fiquem bem e bem hajam.
PROGROM: Para mais detalhes sobre o texto ali em baixo dê um saltinho aqui. Um site de judeus do Brasil.
Memórias de um proto-blogue VII
Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional
«A Portugal FM apresenta:
Novos Mundos
Espaço de informação e debate com Gonçalo Cortez.
Gonçalo Cortez (GC): Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edição de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. À nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da graça de 1516. A azáfama visível na beira rio é bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capitão, sendo este, se não estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espaço de entrevista temos o grandioso Paço da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capitão. Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes. Sua majestade revelou um sorriso constante e apresentava um semblante calmo e um olhar confiante. Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.
Publicidade: Grande venda de escravos do Mestre André! Amanhã, na praça do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresentação machos e fêmeas provenientes da melhor terra de Africa. Você merece! A venda terá lugar de manhã, pelas dez horas. Não se arrependa depois, apareça! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...
GC: Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos são lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. À minha direita tenho Damião Vicente, de 26 anos. Damião foi antigo soldado na India com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e de momento é animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, não tem laço familiares. À minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra. Agradeço a vossa disponibilidade para estarem presentes nesta entrevista.
O assunto principal que pretendo abordar convosco é a “Matança de Pascoela” sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opinião e de fazermos o balanço da situação nestes dias, proponho que ouçamos uma peça preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...
AT: Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impotência. Os habitantes procuravam através de rituais e cerimónias sagradas manter a fé. Reforçavam-se os apelos à misericórdia divina.
No dia 8 desse mês, comemorou-se o Domingo de Pascoela, por toda a cidade se realizaram procissões e serviços religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doença e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida sã. Segundo mais tarde apuraram os conselheiros do rei e os nossos reporteres, no Mosteiro de São Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de cristão-novo. Em pleno serviço, aos gritos de “Milagre!”, entoados pela massa ávida por revelações e apoio divino, sobrepuseram-se as considerações de uma alma menos crédula. Uma luz ou um sinal? Um cristão-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multidão indignou-se perante a negação da sua visão e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o «Assassino de Jesus!». Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de cristãos-novos, às mãos de outros lisboeta, atiçados por ditos “puros” da fé cristã. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade. Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordenações sobre os cristãos-novos, puniu severamente os “puros” e mais 50 de Lisboa morreram em consequência; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores do rei e o país ou se calou por vergonha ou ficou num murmúrio cúmplice. Hoje, passados 10 anos, são ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa vivência entre todos os de Portugal.
GC: Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.
Já a seguir à publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.
Publicidade: Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade, se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente, se tem problemas com a digestão ou se a comida não lhe sabe bem, se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha à loja de António Pais de Açafrão, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na capital! Desde as especiarias mais raras da Asia, às mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa. Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de Açafrão, à Rua Nova dos Mercadores.
GC: Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da “Matança da Pascoela”?
Mafalda Capitoa (MC).: Eu não tenho nada contra essa gente. Eu não lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. São uns falsos! Mas isso é lá com eles, não tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus não é cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que não me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem. Agora, nesse dia da Matança, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma, depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfarçavam! Naquele dia, disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em São Domingos, eles fizeram chacota do Espirito Santo que apareceu no altar!! O que é que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos à praça e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros cristãos ele teria permitido tamanha perdição?
GC: Como interpretou a reacção do Rei?
MC: O rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e não foi bem informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte e assim sendo não é dificil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já eramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas é assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo do rei já passou há muito tempo! Não o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um poço de sorrisos e boa disposição, home!
GC: E você, Damião Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matança como a de há 10 anos?
Damião Vicente (DV): Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se o Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! Não traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no juizo final! Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles não morriam de peste como nós? Não traziam no olhar o desepero de quem tinha perdido meia família? E que história é essa de fazerem chacota do Espirito Santo que apareceu em São Domingos? Eu, com estes, já vi o tal “Espirito Santo” dezenas de vezes no Mosteiro de São Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela época! Era uma reflexo, sim senhor! E se não fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem fé? Quem nunca duvidou entre os cristãos? Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! Vêm do interior, vêm de além mar, têm cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que não sabemos, conhecemos ou não podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e união que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, à sua imagem e semelhança!
MC: Tanto que peleja por tão pouca gente, Damião Vicente animador de sua majestade!
DV: Tanto que se resolveu com a Matança de Pascoela peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?
MC: Porventura desapareceram todos os cristão-novos da nossa cidade?
DV: E não tem vossemecê nada contra “tal gente”!!
GC.: Bom, não me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opiniões, mas penso que os nossos ouvintes já têm dados suficiente para reflectir sobre o que dissesteis. Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressasseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostarieis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.
MC: Já não é para falar dos judeus?
GC: Não. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opinião. Pode ser que alguém nos ouça...
MC: Olhe o que está mal é que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que é um dó. Pois se veêm que temos cá escravos que cheguem e que não há quem lhes dê ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles vêm de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! O Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem. Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem braços havia para tocar o sino! Pois não estava um homem como convém em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crianças! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa à sorte melhor. E depois vê-mo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que têm no vinho ou no jogo, sempre à porrada... Isto é que está mal. O lugar deles não é aqui.
GC: Damião Vicente...
DV: Então e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia não incomodam tanto quanto essa miséria que não é escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armazéns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e até, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, não acha que isso é no mínimo igualmente chocante? Construa-se, digo eu, que são precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, paço e armazéns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa façanha. Mas não se ofusquem com vaidades e brilhos vãos os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco. Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, não se verá outro porto que o da largada. Connosco, aqui em Lisboa, o risco é o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abrão pelo seu vale fertil e para quê? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanhã só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estariamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá até quando, nestas naus que aqui temos à frente?
MC: Tanta palavra vossemecê diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que vê é bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe estão sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilibrio, o que interessa é o da balança da Casa da Índia: que se continuem a pôr muitas medidas para chegar à conta do ouro e da especiaria.
GC: Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana não haverá programa:s estaremos de viagem em direcção a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve. Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a «Farsa do Velho da Horta» da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Paço da Ribeira.»
Fim
Dados Estóricos Importantes:
- Álvaro Torres foi queimado num auto-de fé em 1541 acusado de heresia.
- Damião Vicente foi persseguido pela inquisição e crê-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade.
- Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-fé em 1541, acusadas de associação com o demónio e bruxaria.
- Gonçalo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país
- Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que é que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque é que o português que colocou na boca de personagens do século XVI resulta num linguajar tão arrevesado.
Mem Martins, 1998 (?)
Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional
«A Portugal FM apresenta:
Novos Mundos
Espaço de informação e debate com Gonçalo Cortez.
Gonçalo Cortez (GC): Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edição de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. À nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da graça de 1516. A azáfama visível na beira rio é bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capitão, sendo este, se não estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espaço de entrevista temos o grandioso Paço da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capitão. Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes. Sua majestade revelou um sorriso constante e apresentava um semblante calmo e um olhar confiante. Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.
Publicidade: Grande venda de escravos do Mestre André! Amanhã, na praça do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresentação machos e fêmeas provenientes da melhor terra de Africa. Você merece! A venda terá lugar de manhã, pelas dez horas. Não se arrependa depois, apareça! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...
GC: Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos são lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. À minha direita tenho Damião Vicente, de 26 anos. Damião foi antigo soldado na India com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e de momento é animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, não tem laço familiares. À minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra. Agradeço a vossa disponibilidade para estarem presentes nesta entrevista.
O assunto principal que pretendo abordar convosco é a “Matança de Pascoela” sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opinião e de fazermos o balanço da situação nestes dias, proponho que ouçamos uma peça preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...
AT: Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impotência. Os habitantes procuravam através de rituais e cerimónias sagradas manter a fé. Reforçavam-se os apelos à misericórdia divina.
No dia 8 desse mês, comemorou-se o Domingo de Pascoela, por toda a cidade se realizaram procissões e serviços religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doença e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida sã. Segundo mais tarde apuraram os conselheiros do rei e os nossos reporteres, no Mosteiro de São Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de cristão-novo. Em pleno serviço, aos gritos de “Milagre!”, entoados pela massa ávida por revelações e apoio divino, sobrepuseram-se as considerações de uma alma menos crédula. Uma luz ou um sinal? Um cristão-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multidão indignou-se perante a negação da sua visão e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o «Assassino de Jesus!». Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de cristãos-novos, às mãos de outros lisboeta, atiçados por ditos “puros” da fé cristã. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade. Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordenações sobre os cristãos-novos, puniu severamente os “puros” e mais 50 de Lisboa morreram em consequência; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores do rei e o país ou se calou por vergonha ou ficou num murmúrio cúmplice. Hoje, passados 10 anos, são ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa vivência entre todos os de Portugal.
GC: Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.
Já a seguir à publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.
Publicidade: Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade, se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente, se tem problemas com a digestão ou se a comida não lhe sabe bem, se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha à loja de António Pais de Açafrão, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na capital! Desde as especiarias mais raras da Asia, às mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa. Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de Açafrão, à Rua Nova dos Mercadores.
GC: Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da “Matança da Pascoela”?
Mafalda Capitoa (MC).: Eu não tenho nada contra essa gente. Eu não lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. São uns falsos! Mas isso é lá com eles, não tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus não é cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que não me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem. Agora, nesse dia da Matança, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma, depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfarçavam! Naquele dia, disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em São Domingos, eles fizeram chacota do Espirito Santo que apareceu no altar!! O que é que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos à praça e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros cristãos ele teria permitido tamanha perdição?
GC: Como interpretou a reacção do Rei?
MC: O rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e não foi bem informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte e assim sendo não é dificil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já eramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas é assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo do rei já passou há muito tempo! Não o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um poço de sorrisos e boa disposição, home!
GC: E você, Damião Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matança como a de há 10 anos?
Damião Vicente (DV): Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se o Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! Não traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no juizo final! Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles não morriam de peste como nós? Não traziam no olhar o desepero de quem tinha perdido meia família? E que história é essa de fazerem chacota do Espirito Santo que apareceu em São Domingos? Eu, com estes, já vi o tal “Espirito Santo” dezenas de vezes no Mosteiro de São Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela época! Era uma reflexo, sim senhor! E se não fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem fé? Quem nunca duvidou entre os cristãos? Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! Vêm do interior, vêm de além mar, têm cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que não sabemos, conhecemos ou não podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e união que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, à sua imagem e semelhança!
MC: Tanto que peleja por tão pouca gente, Damião Vicente animador de sua majestade!
DV: Tanto que se resolveu com a Matança de Pascoela peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?
MC: Porventura desapareceram todos os cristão-novos da nossa cidade?
DV: E não tem vossemecê nada contra “tal gente”!!
GC.: Bom, não me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opiniões, mas penso que os nossos ouvintes já têm dados suficiente para reflectir sobre o que dissesteis. Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressasseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostarieis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.
MC: Já não é para falar dos judeus?
GC: Não. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opinião. Pode ser que alguém nos ouça...
MC: Olhe o que está mal é que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que é um dó. Pois se veêm que temos cá escravos que cheguem e que não há quem lhes dê ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles vêm de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! O Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem. Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem braços havia para tocar o sino! Pois não estava um homem como convém em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crianças! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa à sorte melhor. E depois vê-mo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que têm no vinho ou no jogo, sempre à porrada... Isto é que está mal. O lugar deles não é aqui.
GC: Damião Vicente...
DV: Então e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia não incomodam tanto quanto essa miséria que não é escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armazéns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e até, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, não acha que isso é no mínimo igualmente chocante? Construa-se, digo eu, que são precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, paço e armazéns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa façanha. Mas não se ofusquem com vaidades e brilhos vãos os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco. Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, não se verá outro porto que o da largada. Connosco, aqui em Lisboa, o risco é o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abrão pelo seu vale fertil e para quê? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanhã só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estariamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá até quando, nestas naus que aqui temos à frente?
MC: Tanta palavra vossemecê diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que vê é bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe estão sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilibrio, o que interessa é o da balança da Casa da Índia: que se continuem a pôr muitas medidas para chegar à conta do ouro e da especiaria.
GC: Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana não haverá programa:s estaremos de viagem em direcção a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve. Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a «Farsa do Velho da Horta» da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Paço da Ribeira.»
Fim
Dados Estóricos Importantes:
- Álvaro Torres foi queimado num auto-de fé em 1541 acusado de heresia.
- Damião Vicente foi persseguido pela inquisição e crê-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade.
- Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-fé em 1541, acusadas de associação com o demónio e bruxaria.
- Gonçalo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país
- Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que é que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque é que o português que colocou na boca de personagens do século XVI resulta num linguajar tão arrevesado.
Mem Martins, 1998 (?)
quinta-feira, agosto 14, 2003
Memórias de um Proto-Blogue VI
O cão do meu vizinho
Lá esta ele encostado à sombra do muro do quintal, dormitando sob o calor da primeira tarde de verão. De há um par de anos para cá a vida deste cão castanho, tamanho médio em medida de cão, resume-se a uma rígida rotina.
Gastam-lhe os dias encurralando-o num pequeno espaço do quintal: uma parte elevada onde deveria ser o estendedal de roupa, aí coisa para 12 metros por metro e meio.
A um dos cantos, encostada ao muro, tem a sua barraca improvisada de dois andares: tijolos para as paredes, placa de contraplacado entre pisos e telhado de tábuas e alcatifa velha.
O muro em três lados do rectângulo e o abismo de mais de dois metros do outro, bem como, um resto de estrado de cama colocado ao cimo da escadaria que dá acesso a esta moradia do cão, impedem o animal de alargar horizontes.
Acorda bem cedo, dá uns pinotes para espreguiçar e aclara o latido, cada vez mais raramente. Depois, anima-se com alguma vida que surge na parte de baixo do quintal, aninha-se de olhos e orelhas atentos e assim fica até chegarem os restos do almoço. Nessa altura, mais uma sessão de pinotes e cabriolas se não for dia de estar encharcado pela chuva que entra por todos os cantos da sua casota sem portado.
Uma boa tarde para o animal deve ser bastante parecida com esta, esticado à sombra fazendo a sesta; falta talvez um gato.
Ocasionalmente, uma pequena reentrância do muro é utilizada pelos gatos das redondezas para atravessarem este quintal. O cão têm então a emoção da semana ladrando, saltanto, mas apenas cheirando o gato ligeiro que já há muito conhece as limitações dos pulos do cão. Em regra, ido o gato, segue-se sessão de latidos e perseguições ao próprio rabo, naquilo que parece ser uma imensa mistura de emoções, entre a ansiedade, a frustração e uma pontinha de alegria pelo breve sabor a vida. Certos dias, após a aparição do gato, há ainda mijadelas pelos cantos do rectângulo e cagadelas apressadas no extremo oposto à casota.
Ao sábado, ou ao domingo, é tempo de mangueirada à propriedade e ao seu residente; com sorte é verão, está calor e o dono vem com uma rara vontade de dar trela aos graçejos do bicho.
Após os restos do jantar o cão ruma à casota, 1º andar, e por ali fica com o focinho entre as patas, talvez à espera do embalo de uma lua nascente, talvez lembrando o pequeno companheiro, padrasto e amigo que morreu aproveitando-se da misericordiosa eutanásia realizada por um veterinário que lhe diagnosticou um cancro em fase terminal, há coisa de dois anos.
A casota está mais vazia, já não há guerras brincalhonas no rectângulo onde o cão grande, mais novo, se vencia perante o empertigado meia leca que o acolhera com pouco custo na propriedade. Já não há cenas gay quando o vento muda de direcção. Já não há desgarradas barulhentas. Restam os gatos, às vezes um pardal distraido, ou um pedaço de osso mais abaulado e saltitante.
Às vezes, o cão fica-se com se num pedestal de rabo e focinho bem esticados, orelhas em frente e olhos espectantes, mas o que sai pela porta do quintal raras vezes confirma a espectativa e o focinho volta ao meio das patas. Aos olhos regressa a tristeza e a língua perde-se numa pata dianteira, no enorme trambolho que lhe cresce rapidamente do corpo.
Tanto que eu adivinho desta vida de cão.
19 de Junho de 1998
O cão do meu vizinho
Lá esta ele encostado à sombra do muro do quintal, dormitando sob o calor da primeira tarde de verão. De há um par de anos para cá a vida deste cão castanho, tamanho médio em medida de cão, resume-se a uma rígida rotina.
Gastam-lhe os dias encurralando-o num pequeno espaço do quintal: uma parte elevada onde deveria ser o estendedal de roupa, aí coisa para 12 metros por metro e meio.
A um dos cantos, encostada ao muro, tem a sua barraca improvisada de dois andares: tijolos para as paredes, placa de contraplacado entre pisos e telhado de tábuas e alcatifa velha.
O muro em três lados do rectângulo e o abismo de mais de dois metros do outro, bem como, um resto de estrado de cama colocado ao cimo da escadaria que dá acesso a esta moradia do cão, impedem o animal de alargar horizontes.
Acorda bem cedo, dá uns pinotes para espreguiçar e aclara o latido, cada vez mais raramente. Depois, anima-se com alguma vida que surge na parte de baixo do quintal, aninha-se de olhos e orelhas atentos e assim fica até chegarem os restos do almoço. Nessa altura, mais uma sessão de pinotes e cabriolas se não for dia de estar encharcado pela chuva que entra por todos os cantos da sua casota sem portado.
Uma boa tarde para o animal deve ser bastante parecida com esta, esticado à sombra fazendo a sesta; falta talvez um gato.
Ocasionalmente, uma pequena reentrância do muro é utilizada pelos gatos das redondezas para atravessarem este quintal. O cão têm então a emoção da semana ladrando, saltanto, mas apenas cheirando o gato ligeiro que já há muito conhece as limitações dos pulos do cão. Em regra, ido o gato, segue-se sessão de latidos e perseguições ao próprio rabo, naquilo que parece ser uma imensa mistura de emoções, entre a ansiedade, a frustração e uma pontinha de alegria pelo breve sabor a vida. Certos dias, após a aparição do gato, há ainda mijadelas pelos cantos do rectângulo e cagadelas apressadas no extremo oposto à casota.
Ao sábado, ou ao domingo, é tempo de mangueirada à propriedade e ao seu residente; com sorte é verão, está calor e o dono vem com uma rara vontade de dar trela aos graçejos do bicho.
Após os restos do jantar o cão ruma à casota, 1º andar, e por ali fica com o focinho entre as patas, talvez à espera do embalo de uma lua nascente, talvez lembrando o pequeno companheiro, padrasto e amigo que morreu aproveitando-se da misericordiosa eutanásia realizada por um veterinário que lhe diagnosticou um cancro em fase terminal, há coisa de dois anos.
A casota está mais vazia, já não há guerras brincalhonas no rectângulo onde o cão grande, mais novo, se vencia perante o empertigado meia leca que o acolhera com pouco custo na propriedade. Já não há cenas gay quando o vento muda de direcção. Já não há desgarradas barulhentas. Restam os gatos, às vezes um pardal distraido, ou um pedaço de osso mais abaulado e saltitante.
Às vezes, o cão fica-se com se num pedestal de rabo e focinho bem esticados, orelhas em frente e olhos espectantes, mas o que sai pela porta do quintal raras vezes confirma a espectativa e o focinho volta ao meio das patas. Aos olhos regressa a tristeza e a língua perde-se numa pata dianteira, no enorme trambolho que lhe cresce rapidamente do corpo.
Tanto que eu adivinho desta vida de cão.
19 de Junho de 1998
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